Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal.

Se combate o cárcere com personagens.

A existência é tão discutida por ser motivo de clausura e sua grande busca é a liberdade, e entre algumas formas de liberdade, dentro das tantas facetas da realidade, está a imersão na ficção. Porém no nosso país, literária e cinematograficamente pobre, essa ficção está mais presente nas telenovelas e nas fofocas.


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O politicamente correto está cada vez mais em voga, restringindo cada vez mais o nosso comportamento e nossas opções - você já não pode mais isso e já não pode mais aquilo, isso é feio e isso também é feio – de forma que antes de escolhermos pelo belo andamos escolhendo, simplesmente, o que não é feio. Visto que estamos condenados à liberdade, que é estarmos condenados a escolher, essa nossa liberdade está cada vez mais restrita, pois mais restritas estão nossas escolhas.

Platão dizia que a mente se liberta no momento em que dormimos, e guardamos algumas reminiscências de universos que visitamos dormindo, dessa forma o corpo é o cárcere da alma. Somado a isso devemos lembrar que vivemos numa realidade de crescente valorização do ideal, do politicamente correto, de um excesso de vitrines e carros que resultam na diminuição do espaço para a gente, sendo então a realidade, por sua vez, o cárcere do corpo.

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A realidade por si só não é o suficiente para nenhum homem. Homem nenhum vive sem um ponto de vista estético, poético, ou algum desejo de abstração. Mais do que toda a vida no seu âmbito lógico, concreto e material, todo homem precisa imaginar. Afinal a utopia é como o horizonte: serve para que continuemos caminhando, sabemos que nunca o alcançaremos mas buscá-lo nos faz seguir em frente. Existir não é o suficiente, o homem precisa sonhar, senão lhe resta apenas o suicídio. Por isso sociedades mais desenvolvidas são lares de grandes artistas e não apenas grandes engenheiros.

Vivendo em uma realidade que enjaula o corpo que é o cárcere da alma, uma das formas de se buscar pela liberdade é expandir a cadeia da realidade pela infinitude da imaginação. Assim surgem as paixões que muitos personagens, do cinema ou da literatura, evocam, uma vez que por meio dos seus olhos somos desencarcerados e levados a amplitudes de realidades que combatem a nossa. Seja quando a pessoa cria a personagem ou quando a acompanha, pois as personagens, que são resultados da imaginação do artista, são também usadas por cada leitor a sua maneira, de acordo com a sua liberdade imaginativa, por isso uma história nunca será a mesma passando de mão em mão, de boca em boca, de olho em olho.

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Portanto se colocar sob o olhar do outro como forma de liberdade não é questão de entretenimento, mas necessidade e direito humanos. Por isso num país em que se dá um valor pífio à literatura e ao cinema, as novelas e as fofocas são coisas tão comuns. E todo aquele que já foi alvo de fofocas deve sentir orgulho de ter sido um instrumento de libertação de alguém enjaulado.


Diego da Cruz

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