Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal.

O "cult" é um meigo, não um intelectual.

Uma geração que ecoa a frase "deus está morto" não pode ser mais contraditória, uma vez que é frágil e religiosamente movida por modismos, cria uma falsa aparência de intelectualidade, é levada por ondas "cults" e "hipsters", mas não consegue mergulhar.


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Por ocorrência da crescente diversidade na possibilidade de escolhas, (como já relatado em outro texto meu aqui) a nossa rotina se torna mais complexa, por isso como método de sobrevivência dividimos o mundo todo ao nosso redor, agrupamos todas as coisas necessárias à vida rotulando-as. Como conseqüência, nós que somos uma geração conectada, acabamos por preferir ler listas que nos auxiliem nos momentos mais esdrúxulos da vida - como uma com a qual topei há 5 minutos: “Nove tatuagens que homens nunca deveriam fazer” [e se eu quiser fazê-las?] – afinal, não agüentamos mais escolher, não queremos lidar com conseqüências, e tudo o que é pronto, mais rapidinho, e exime da culpa nos agrada.

Nessa linha vemos ainda a ascensão das séries na decadência dos longas e o crescimento dos contos em detrimento dos romances - há o boato por aí de que se você deseja se tornar um escritor é melhor mandar para a editora um livro de contos do que um romance.

É verdade que as coisas já esmagaram as pessoas e estamos acuados por essa tal “sociedade de mercado” que criamos, de forma que já não temos tempo nem disposição para encararmos de maneira digna uma obra de arte. Adam Smith, que curiosamente foi um dos maiores defensores da “sociedade de mercado” já temia que nos tornássemos bestas na busca pelo conforto e perdêssemos nossas virtudes heróicas como coragem, disciplina e força. Mas não acredito que ele imaginou que nos tornássemos excessivamente bestas a ponto de não conseguirmos mais ler um livro inteiro.

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Essa nossa geração meio frágil gosta de ler Nietzsche pelos pedaços, adora ícones, ídolos, que estabelecem função de liderança às escolhas que nos acovardamos. Eis a grande contradição da geração que grita aos ventos – ou aos 140 caracteres – que “deus está morto”: todos os símbolos religiosos também servem para guiar e ausentar de culpa, exatamente para quê servem todos esses modismos atuais. É a mesma coisa de um jeito diferente.

Albert Camus defende que vivemos pelo personagem que criamos de nós mesmos, como uma projeção do que realmente somos, e os modismos servem para sustentar essa identidade em que nos admitimos, servem para reforçarmos, para nós mesmos e para os outros, aquilo que queremos ser e nos incluir em determinado grupo social que desejamos, assim os modismos encaminham nossas escolhas.

Um dos modismos mais comuns é o da intelectualidade. Muita gente, por mais jovem que seja, acredita mesmo ser intelectual imbatível, como aquele personagem em que a máscara já não desgruda do rosto, pois comprou a máscara barata que faz parecer intelectual, era a moda.

O adepto da aparência de intelectualidade é como um objeto à deriva, levado pelas ondas e não mergulha em nada profundamente.

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Para continuar boiando esse estereótipo buscou o “manual do hipster”, e cultuou – palavra embrionária do termo “cult” - as obras atuais que são fragmentadas – séries, contos, etc. – e também, à sua maneira rasa, barata, ordinária e tonta, cultuou nomes conceituados das artes, filosofia e crítica social, como Nietzsche. Mas esse sujeito não é intelectual, porque ele sabe pouco de muitos, mas nada na verdade. É só um produto do meio.

‘A mais rica biblioteca, quando desorganizada, não é tão proveitosa quanto uma bastante modesta, mas bem ordenada. Da mesma maneira, uma grande quantidade de conhecimentos, quando não foi elaborada por um pensamento próprio, tem muito menos valor do que uma quantidade bem mais limitada, que, no entanto, foi devidamente assimilada. Pois é apenas por meio da combinação ampla do que se sabe, por meio da comparação de cada verdade com todas as outras, que uma pessoa se apropria do próprio saber e o domina. Só é possível pensar com profundidade sobre o que se sabe, por isso se deve aprender algo; mas também só se sabe aquilo sobre o que se pensou com profundidade.’ Schopenhauer

Diego da Cruz

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