Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal.

Sobre intuição, violência e bem-estar

Apesar de a utilidade da arte ser mais indireta quando comparada com a ciência, ela existe. A arte é não apenas útil como necessária. Afinal, a prática mais humanizadora é a prática artística, e um bem-estar social concreto é necessário e se dá principalmente pelo homem no seu nível mais alto, não o nível da razão, mas o nível intuitivo, estético, poético.


tumblr_m7xks1VrbK1r1bfd7o1_400.jpgLucian Freud, Man with a Feather (self-Portrait, age 21), 1943

O mundo é grande meio além da conta para nós humanos que, por natureza, já somos labirínticos. Daí, a dificuldade de entender como se dão as nossas transformações no nosso ambiente, e se levanta a discussão acerca da (in)utilidade da arte.

Há quem defenda que a arte existe por si só, é independente e não se submete a alguma utilidade. São os defensores da arte pela arte. Mas a arte é ação exclusivamente humana e, catalisadora do mundo que é, dialoga de maneira diversa com a sociedade e a natureza humana, tendo como conseqüência, e não objetivo, apontamentos delicados e profundos de quem somos para além da razão.

Quando Machado de Assis escreveu o conto “O anjo Rafael” ele antecipou o que mais tarde os psiquiatras Franceses Lasegue e Falret chamariam de folie a deux, em português “loucura a dois” embora chamado de transtorno psicótico induzido. No conto um homem acredita ser o anjo Rafael e muda-se com a filha para uma fazenda, de forma que ela não tenha contato com ninguém do mundo exterior, até os quinze anos, quando pouco antes de morrer o homem manda chamar um noivo para a menina. Visivelmente afetada pela loucura do pai, que acaba morrendo, a menina depois de três meses vivendo na cidade não acredita mais em tais delírios.

O bruxo do Cosme Velho – Machado – não apenas infecta o leitor com os delírios como também o cura. Ou seja, antes de a ciência estabelecer que uma pessoa que convive com quem traz consigo algum tipo de delírio também está à mercê de alucinações, e chamar isso de folie a deux, o escritor já sugeria a cura: separar as duas pessoas que compartilham a loucura.

Machado ainda traçou na personagem o perfil das pessoas afetadas pela doença, que foi estabelecido mais tarde pelos psiquiatras: mulheres que acompanham homens em relação de paternidade ou matrimonial, e em geral vivem confinadas.

Hoje sabe-se como curar o transtorno psicótico induzido, e a vida real, material, concreta, de qualquer pessoa, fora do universo artístico, pode ser melhor devido ao diagnóstico feito antes pela arte do que pela ciência.

Pode-se dizer então que a arte é útil?

Talvez Lasegue e Falret não tenham lido Machado em 1877, quando realizaram seus estudos, assim a arte continuaria em cima do muro. Porém lembro de Freud, cuja influência na vida do século XX é inquestionável, leitor assíduo e declarado da literatura de ficção, deu o nome de um dos seus principais objetos de estudo de Complexo de Édipo, pois viu no personagem da peça grega Édipo Rei – escrita quase quinhentos anos antes de cristo – um quadro psicológico comum e estabeleceu detalhadamente a doença e a cura dois mil e quinhentos anos depois da ficção tê-lo sugerido.

Tanto o Transtorno Psicótico Induzido como o Complexo de Édipo continuariam enraizados no ser humano independentes da arte ou da ciência, mas o seu diagnóstico, tratamento e conseqüente bem-estar social dependem indubitavelmente da ciência e, de maneira menos direta, da arte.

burroughslifekiller.jpgWillian Burroughs

Sob outro ponto de vista o bem-estar social também depende da arte como canalizadora de violências, pois Cormac McCarthy – escritor de no Country For Old Man, The Road, All The Pretty Horses, e entre outros Blood Meridian – defende a ideia de a violência ser algo que todo homem carrega em profundidade, e qualquer um que acredite na paz e na harmonia acaba sucumbindo no nível da alma; seu romance Blood Meridian é considerado por Harold Bloom o grande romance apocalíptico americano. Como se toda a violência de McCarthy estivesse extrapolada no nível artístico. Tal qual costumava fazer Willian S. Burroughs, que colocava latas de tinta em frente a uma tela e as alvejava com o revolver que costumava carregar consigo, a tinta que explodia na tela formava a sua obra de arte. De ambos artistas não se têm notícia de envolvimento em atos violentos. A arte ainda é esclarecedora de transtornos variados e comumente sugerida por psicólogos, psiquiatras e psicanalistas, para que os pacientes compreendam seus problemas por meio da escrita de diários, pinturas, ilustrações, etc.

Apesar de a utilidade da arte ser mais indireta quando comparada com a ciência, ela existe. A arte é não apenas útil como necessária. Afinal a prática mais humanizadora é a prática artística, e um bem-estar social concreto é necessário e se dá principalmente pelo homem no seu nível mais alto, não o nível da razão, mas o nível intuitivo, estético, poético.

Nós que somos labirínticos, paramos de rastejar, alcançamos a universalidade e fazemos do mundo algo que não seja grande além da conta, quando usamos nossa intuição poética, é só aí então que o mundo e o homem são alcançados em sua totalidade e para sempre, como fizeram Sófocles ao escrever Édipo Rei e Machado de Assis com “O anjo Rafael”. Escreveram sobre tantas pessoas, de tantos tempos e lugares, que ainda nem existem, mas já se sabe como cuidar delas.


Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal. .
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