Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal.

Somos mais baratos do que andam dizendo por aí sobre geração Y

Anuladas as forças e capacidades da gente escolher, gostamos de tudo o que não quer nos tirar do lugar de conforto, nos agrada não mais o belo, mas o prático, o pronto, nos agrada qualquer coisa que não exija mais nada da gente. Consideramos atraente tudo o que é harmônico por ser igual, simétrico, e não colocar em cheque as nossas crenças e opiniões, perdemos portanto nosso senso estético.


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No meu ultimo texto escrevi sobre como o bem-estar social depende da ciência e de maneira mais indireta da arte. Coloquei as duas como companheiras, mas atentei mais à arte por sentir necessário dar foco a ela que está comprometida por alguma decadência do bem viver.

Há estudos que demonstram que a quantidade de informação que uma pessoa recebia, durante a vida toda, no século XIX é equivalente à quantia de informação que uma pessoa recebe em apenas um dia no século XXI. Junto a isso pensemos que no espaço entre estes séculos os escravos foram libertados, e com isso as cidades ficaram mais dinâmicas, a sociologia e a história viraram mosaicos, e a tecnologia se desenvolveu até a comunicação se tornar esquizofrênica. Pensemos então que viver no século XXI é mais complexo – não necessariamente mais difícil – do que viver há trezentos anos.

Lembremos que num comparativo artístico, no século XIX buscou-se a catarse, o sentimento máximo, a expressão perfeita de existir, a revolução, a ruína e a reconstrução. No século XIX morria-se por algo, hoje vive-se por nada e a arte, quando surge, é minimalista e despropositada, nela seu sentimento é quase nulo. Afinal se o século XIX foi o século das revoluções, hoje busca-se simplesmente a melhor maneira de administrar o que já existe.

Se no século XIX buscava-se a música perfeita e elevação espiritual por meio dela, como lutou tanto o Beethoven para conseguir, a música atual parece marteladas de plano de fundo do trabalho impensado. O blues, o jazz e o rock, embora ainda estejam quentes, já são apenas cadáveres, infelizmente.

Há no século XXI um exagero na manutenção da existência e um empobrecimento terrível da experiência

(Alias, quando se deseja apenas existir, e a experiência é banalizada, se comunicar ao máximo é o único sentido que há. Comunica-se com incontáveis sujeitos ao mesmo tempo a fim de ampliar a sua presença, sua existência. Na maioria das vezes não há um comunicado pertinente – não há fatos experimentados -, é o tempo da simples comunicação pela comunicação, o tempo da comunicação esquizofrênica. O tempo da anulação da experiência, da venda gratuita de si mesmo, do selfie.)

tumblr_lv6pnjnRxR1r0cr7ko1_500.jpg"A fotografia é o produto da completa alienação" Marcel Proust

Então percebe-se que o indivíduo do século XXI está sobrecarregado de informações, funções e obrigações - as funções de um trabalhador no século XIX eram imensamente mais simples do que as funções de um trabalhador do século XXI – de forma que hoje qualquer esforço relacionado ao sentimento, à paciência, análise e transformação, é considerado extra, desnecessário e incabível, pois não diz respeito à produção e ao lucro.

Digamos então que somos a geração cachorros cansados de fim de expediente. Podemos dizer que somos robôs orgânicos ou organicidades robotizadas. Como se fôssemos o resultado da busca de coisificar a alma e dar alma às coisas. Em geral somos muito mais baratos do que andam dizendo por aí sobre geração Y.

O fato é que escravizados pelo mercado de trabalho – maldita expressão – e pelo progresso, não nos compete dar ainda mais trabalho à nossa massa cerebral para ter que escolher entre o bonito e o feio, não cabe à gente ter que questionar se algo é verdadeiro ou falso, é incabível que nós, que tanto nos esforçamos estejamos errados, não há tempo para sentimentos e tampouco motivos para duvidar, há forças apenas para fazer o que há de ser feito e assim se manter existindo.

Anuladas as forças e capacidades da gente escolher, gostamos de tudo o que não quer nos tirar do lugar de conforto, nos agrada não mais o belo, mas o prático, o pronto, nos agrada qualquer coisa que não exija mais nada da gente. Consideramos atraente tudo o que é harmônico por ser igual, simétrico, e não colocar em cheque as nossas crenças e opiniões, perdemos portanto nosso senso estético.

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Tanto é que há experimentos que demonstram como as pessoas tendem a achar mais bonito um rosto em que as duas faces são mais parecidas, na verdade há menos trabalho neurológico para diferenciar as duas faces e assim consideramos aquilo mais harmônico e agradável. As pessoas consideradas belas no século XIX eram diferentes das pessoas belas de hoje.

A estética então está morrendo nesse tempo de cães cansados de fim de expediente. Não! A arte não está apenas se transformando como muitas vezes antes, ela está a serviço da propaganda, do consumo, em outdoors, panfletos, não é mais expressão humana necessária e profunda, se tornou, em sua grande maioria, venenosa e não mais oferece virtuosismo social. Quando vemos um bebê na TV, muito possivelmente estamos sendo submetidos à propaganda de um banco.

É visto que o trabalho e o consumo são necessários à ordem vigente, mas as conseqüências dessa forma de organização social é idiotizante, e um dos sintomas disso é o fato de a arte que oferece reflexão ser recusada com veemência pelo homem mais simples, trabalhador, que não é preguiçoso, mas cansado demais para usufruir do seu direito ao delírio e tentar articular um mundo melhor.


Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal. .
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