Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal.

O tempo dos miseráveis e da industria cultural

De barriga cheia não há motivos para questionar a ordem, portanto quando se está de barriga cheia só há motivos para acreditar que o universo é justo, só há olhos para o conto de fadas, de pança cheia a massa só quer o entretenimento da novela das nove que todos já sabem o final por ser o mesmo enredo, repetido há trinta anos; sentado na sala de cinema comendo pipoca só há motivos para adorar o Tarantino que continua derramando na tela o mesmo sangue que suja as calçadas das periferias diariamente e me reafirma como alguém privilegiado, porque este sangue não me suja. Não há cinemas nas periferias.


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No meu ultimo texto aqui tentei escrever sobre como sujeito do século XXI é sobrecarregado de funções e informações, o que torna difícil para ele reformular-se em busca de uma estética honesta, verdadeira e mais humana, digo que tornamo-nos então organicidades robotizadas, e como consequência a arte respira artificialmente e se submete simplesmente ao consumo.

Somando a isso, lembro-me agora que é coisa da espécie optar pelo conhecido por ser o mais seguro. Esta busca pelo confortável também é pré histórica, quando não se gastava energia a toa, porque o alimento não era abundante e precisava-se armazenar a gordura ao máximo.

Mas diferentemente da pré história há hoje alimento o suficiente para alimentar dez vezes a população do planeta. Curiosamente - não tão curiosamente se você entender a lógica do capitalismo - há ainda 1 BILHÃO(!) de pessoas passando fome enquanto metade da população mundial têm complicações com a obesidade, de acordo com a ONU (Organização da Nações Unidas) e a OMS (Organização Mundial da Saúde).

Somos uma espécie, de alguns privilegiados e egoístas, que tende a ser acomodada e buscar somente alimento e conforto.

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Por isso temos essa tendência natural de querer organizarmo-nos socialmente criando regras que façam da vida a coisa mais prática possível: criando padrões para não precisarmos refletir sobre cada indivíduo, e rotinas para não ter que descobrir diariamente como ter que sobreviver, entre outros. A vida social, portanto, se torna organizada a partir dessa nossa tendência à economia de energia e conforto.

Não há conforto maior do que as certezas. Afinal, hoje se sabe que quando mudamos nossas vias neuronais cerebrais - quando questionamos nossas regras, rotinas e padrões, quando repensamos nossa maneira de agir, imaginamos, refletimos, buscamos algo melhor – há na gente um grande gasto de energia, portanto todos estes hábitos sociais que criamos - rotinas e padrões - são estratégias humanas para que não tenhamos que gastar energia usando a nossa imaginação e a nossa bendita criatividade.

Daí o surgimento da industria cultural, que é formada pelo repetitismo de enredos como reafirmação do já conhecido, para ser consumida de maneira confortável por legiões de pessoas cansadas – afinal a carga de trabalho hoje é a maior da história do mundo - e indispostas a lidarem com o diferente, sem paciência para um final infeliz que porventura lhes denuncie a vida real. São filmes, músicas, livros, novelas, etc. feitos para gente que não quer ser questionada, gente sem energia para gastar pensando nas situações das suas vidas.

De barriga cheia não há motivos para questionar a ordem, portanto quando se está de barriga cheia só há motivos para acreditar que o universo é justo, só há olhos para o conto de fadas, de pança cheia a massa só quer o entretenimento da novela das nove que todos já sabem o final por ser o mesmo enredo, repetido há trinta anos; sentado na sala de cinema comendo pipoca só há motivos para adorar o Tarantino que continua derramando na tela o mesmo sangue que suja as calçadas das periferias diariamente e me reafirma como alguém privilegiado, porque este sangue não me suja. Não há cinemas nas periferias.

Com metade da população do mundo engordando e sem querer gastar energia fazendo uma auto reflexão em busca de um mundo melhor, a indústria cultural só cresce, vendendo sempre mais do mesmo e reafirmando a estes “privilegiados” a sua condição de privilégio.

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Mas a gente percebe, mesmo sem querer reagir, como a cultura se torna cada vez mais emburrecedora conforme o capitalismo se desenvolve. Pois, como ouvi outro dia por aí, “Há ainda alguma arte que se salve”. (Quem não se sentiu um otário por ter achado legal o tratamento dado à condição dos negros naquele lixo de Django Livre após ter assistido Doze Anos de Escravidão? Quem não se sentiu no mínimo burro, deveria abrir os olhos)

Neste mesmo sentido o diretor Héctor Babenco também se orgulha de "fazer filmes numa época em que não se vendia pipoca no cinema", conforme disse em entrevista ao Serginho Groisman. Ele quer dizer que fez filmes para se sonhar com um mundo melhor, mas hoje as pipocas invadiram os cinemas e as pessoas enchem a barriga para olharem para a tela.

E em "Paris é Uma Festa" Hemingway afirma que passava fome e visitava o museu, e que foi a época em que a arte mais fez sentido na sua vida. Ele sentia que as coisas poderiam ser melhores diante de uma obra de arte autêntica.

Essas expressões honestas, verdadeiras, profundas e com poder de transformação, estão cada vez mais raras em um mundo cada vez mais raquítico intelectualmente, onde as políticas estão voltadas cada vez mais somente à administração e qualquer ideia transformadora é considerada absurda. (A Sony achou que todos aplaudiriam sorrindo sua comediazinha meia boca em cima da imagem do Kim Jong Un, e estava certa, porque todos iriam rir, comer pipoca e aplaudir mesmo, uma vez que o diferente pra gente é motivo de piada ou escárnio apenas.)

A industria cultural então produz enlatados para gente burra que acredita gozar de algum privilégio social, mas em verdade é explorada a ponto de não ter energias para sequer pensar em se libertar da sua condição miserável de quase robô, quase animal.


Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal. .
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