Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal.

Crise de identidade

Chega um momento em que qualquer sujeito se pergunta coisas fundamentais, mas parece que estas perguntas estão condicionadas a não serem nunca mais respondidas neste mundo vampiro.


IMG_20150402_165707.jpgEu mesmo aos doze anos

Tenho escrito os últimos textos aqui na minha coluna a apontar como a ordem se torna cada vez mais inquestionável, estabelece os padrões e oferece resistência pesada ao politicamente incorreto. A consequência nuclear disto é a inflexibilidade intelectual.

Em outro texto comentei que a quantia de informação que uma pessoa recebe em um único dia atualmente equivale à quantia de informação que uma pessoa recebia durante toda a vida no século XIX, isto nos faz pensar que somos senhores de alguma intelectualidade avançada enquanto somos apenas alvo de um sistema de informações vampiresco, que suga o nosso tempo, nossa ideia, nossa capacidade de reflexão, nos deixa tontos, nauseabundos e no fim oferece um sofá para a gente sentar consolado. Ou seja, não há flexibilidade intelectual diante desta enxurrada de informações que é a nossa vida.

O que queremos?

Queremos conforto apenas. O conforto das nossas casas, o conforto das nossas próprias certezas, nossas próprias crenças. Latimos raivosos àqueles que se atrevem a dizer o contrário do que nos fizeram acreditar até hoje. Gasta menos energia culpar o outro pelo problema que eu sou. “A corrupção é culpa da Dilma. Opa. Só um minutinho. Deixa eu pegar minha carteirinha de estudante falsa aqui no meu bolso pra meia entrada do cinema. Opa.”

Nunca se falou de política de maneira tão porca, tão raivosa, tão animal como atualmente no Brasil. Afinal, o problema é o mundo, o problema é todo o sistema político brasileiro, o problema é sempre o outro e este outro é tratado sempre com raiva, nunca com atenção. Gasta menos energia culpar o outro pelo problema que eu sou. Não há megalomania maior do que culpar a presidenta pela unha encravada.

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(A propósito, desta dificuldade homérica que é hoje em dia lidar com o outro – o desconhecido, o estranho, estrangeiro - há O Estrangeiro do Albert Camus como grande livro abridor de olhos, tal qual o conto O Outro do Rubem Fonseca.)

Quem somos?

Particularmente tenho uma ideia chinfrim sobre quem sou eu, quem me dera conseguir responder essa pergunta na primeira pessoa do plural neste texto curto. Mas é uma pergunta que surge a qualquer ser humano em algum momento da sua existência, viva ele em marte, na lua, ou aqui em Pato Branco. E já ouvi respostas várias pra esta pergunta, e uma das que mais gosto é “eu sou eu e minhas circunstancias”. Ótimo. O fato é que buscar esta identidade me parece nunca ter sido tão crítico à gente, justamente pela inflexibilidade forte que assombra esse mundo vampiro.

É por isso que o antiguinho está na moda?!

Não tenho muitas dúvidas disso. Se o Camus e o Rubem Fonseca ainda tinham forças pra buscar respostas sobre a própria identidade, nós estamos patéticos sentados naquele sofá do segundo parágrafo deste texto de blog, sem forças pra pensar a própria condição e pra responder “quem somos?”, estamos alugando o figurino de outra gente de outro tempo que algum dia conseguiu se estabelecer no mundo, e hoje admiramos.

Alguém vai admirar a gente?

Por quê admirariam se as timelines desaparecem?


Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal. .
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