Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal.

SOLIDARIEDADE R-EVOLUCIONÁRIA (OU ENSAIO SOBRE O SUFOCO)

Quem sabe se uma visão verdadeira sobre solidariedade tivesse surgido alguma década antes, tivesse se difundido a ponto de respeitarmos e compreendermos o outro para além de fronteiras de países, os minutos de massacre na boate parisiense fossem minutos a mais de música no mundo e a criança não tivesse aparecido morta na praia europeia, mas esta ideia talvez não se difunda e as metralhadoras reinem de volta no meio de inocentes e a criança volte à praia, o homem frente ao tanque de guerra, o urubu espere o menino morrer pra se alimentar dele, as crianças surjam nuas novamente do mato no Vietnã...


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Se pensa comumente que este contato rápido e fácil entre as pessoas tende a diluir as fronteiras do mundo. De fato – como disse Bauman – a modernidade é liquida, as relações são superficiais. Mas estes são os mesmos dias em que se massacra inocentes em Beirute, no Brasil, em Paris e na Sìria, uma criança morta chegou boiando em uma das praias europeias por não ter direito a cruzar algumas fronteiras, e isto é um sintoma grave: enquanto as relações pessoais são liquidas, as fronteiras políticas são de uma rigidez poucas vezes vista antes e a solidariedade é uma opção revolucionária.

O capitalismo já está esgotado embora tenha apenas trezentos e poucos anos, o que é muito breve se o compararmos ao sistema feudal, que durou mais de mil anos. Apesar de a competitividade proposta pelo sistema de capital ter levado a humanidade a avanços tecnológicos fundamentais à preservação da vida, e originalmente ter solucionado o problema da produção de alimento para a população faminta de séculos atrás, seus sinais de esgotamento são evidentes, afinal, com base nesta competição e no acúmulo desenfreado hoje se produz dez vezes mais ração animal do que comida humana, quase metade dos alimentos para gente produzidos no mundo são desperdiçados, uma em cada oito pessoas no mundo passa fome enquanto metade da população mundial tem problemas com obesidade.

A saúde pública assim se torna um problema sistemático – próprio do acúmulo de capital – antes uma questão de distribuição do que um problema de investimento da esquerda ou direita política.

Desta maneira este sistema levou trezentos e sessenta pessoas no mundo a terem o mesmo poder aquisitivo que se divide entre o “resto” do planeta, os outros oito bilhões.

O que em termos de Mark Zukcerberg representa que ele tem dinheiro o suficiente para comprar um país como o Uruguai.

O que em termos de Brasil representa oitenta por cento da riqueza ser dividida entre vinte por cento da população e os vinte por cento restantes da riqueza ser dividido entre os outros oitenta por cento “restantes” da população.

O que em termos de se olhar pela janela significa que você hoje enxerga periferias babilônicas e pequenos centros privilegiados majoritários ditadores de tendências e opiniões. Nesse ínterim Bertold Brecht disse que “ao rio que tudo carrega chamam de violento, mas ninguém chama de violentas as margens que o oprimem”.

Quando alguém sai do supermercado com o carro cheio de compras e ergue o vidro para a criança no sinal que pede moedas, se porventura a criança estraçalhar este vidro, o absurdo está na violência da criança ou no vidro que cega e ensurdece o privilegiado?

Igualmente à saúde pública, a segurança pública é um problema sistemático, e não apenas de investimento de direita ou esquerda. Mais cadeia não resolve, assistencialismo só ameniza.

Me perdoem, mas considero ignorante forçoso o que se recusa a enxergar o capitalismo como algo ultrapassado: é só olhar a paisagem, por exemplo, este tipo de desenvolvimento não tem como ser sustentável, é contraditório, incoerente, o planeta sustenta um câncer. As crianças chinesas brincam nas ruas usando máscaras por conta da poluição das cidades.

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Curiosa ou contraditoriamente o capitalismo ensina às suas crias que o que é ultrapassado há de ser descartado, renovado. Neste viés uma onda de jovens alemães está agindo na contramão do sistema: enquanto este prega o acúmulo, na Alemanha surge a tendência do desacumulo, da troca, do contato direto entre pessoas que tenham algum objeto que lhes interesse, seja roupa, carro, caixa de som, guitarra, celular, sapatos, tênis, bola de basquete, bicicleta, etc., e que as duas partes estejam dispostas a trocar. Mas o objeto mais curioso é a própria comida: no site https://foodsharing.de/ (entre outros, inclusive apps para smartphone) é possível mapear e descobrir onde há comida disponível para doação, é possível oferecer comida para doação, é possível saber qual tipo de comida está disponível para doação e onde esta doação está disponível.

Desta maneira a ideia está fortemente difundida dentro da Alemanha, mas movimentos neste sentido parecem não conseguir ganhar força em outros países do mundo como no caso brasileiro, onde embora existam inúmeros brechós e alguns sistemas de coleta de restos do mercado municipal em SP, essa tendência não ganha substância, e atitudes nobres de escambo e atos beneficentes são mais isolados do que deveriam ser.

O silenciamento pelo sufoco é a resistência que toda iniciativa revolucionária sempre encarou.

Afinal, se pensarmos revolução como uma re-evolução, uma renovação, uma revisão crítica dos paradigmas e estabelecimento de uma nova ordem, esta postura solidária dos jovens é revolucionária uma vez que prega o desacumulo dentro de um sistema de acúmulos. É a solidariedade dentro de um sistema ególatra. É o respeito ao outro dentro de um sistema que se organiza com base na violência.

asdasfa.png Quem sabe se esta ideia tivesse surgido alguma década antes, tivesse se difundido e se ampliado a ponto de respeitarmos e compreendermos o outro para além de fronteiras de países, os vinte e cinco minutos de massacre na boate parisiense fossem vinte e cinco minutos a mais de música no mundo e a criança não tivesse aparecido morta na praia europeia, mas esta ideia talvez não se difunda e muito possivelmente as metralhadora reinem de volta no meio de inocentes e a criança volte à praia, o homem frente ao tanque de guerra, o urubu espere o menino morrer pra se alimentar dele, as crianças surjam nuas novamente do mato no Vietnã...

Aprendemos pouco com os erros históricos, talvez revoluções novamente apenas baseadas em política e guerras civis e nunca do indivíduo para o mundo, de dentro pra fora.

Sejamos solidários.


Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal. .
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