Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal.

POR QUE OS GRANDES ESCRITORES SÃO COMO PARABÓLICAS?

Os escritores que sobrevivem ao tempo são a princípio receptáculos e na sequência transmissores de sinais invisíveis aos olhos mais desatentos. Eles ajudam na construção da nossa verdade pessoal e assim mexem no mundo, a questão é: como?


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Ao escrever Édipo Rei o grego Sófocles emitiu um sinal profundo a respeito da humanidade: o filho deseja a mãe. Machado de Assis ao escrever o conto O Anjo Rafael emitiu um sinal universal a respeito da psique humana: algumas loucuras são contagiosas.

Sófocles e Machado no psicanalítico século XX foram teorizados, o primeiro por Freud quando este desenvolveu as teorias do Complexo de Édipo, e o segundo pelos psicanalistas franceses Lasegue e Falret que desenvolveram a teoria da loucura a dois (Folie a Deux), que diz que um sujeito, comumente uma mulher, colocado/a em contato constante – geralmente em situação de isolamento - com outro sujeito que seja vítima de alguma loucura, poderá absorver esta loucura. O tratamento para a loucura a dois seria isolar as duas pessoas e diagnosticar qual das duas partes é responsável pela demência. Sintomas, causa e tratamento da folie a deux já haviam sido sinalizadas por Machado anos antes de os psicanalistas desenvolverem suas teorias.

Ainda comentando Machado, no fim do século XIX e início do século XX, o autor já emitia sinais da decadência da sociedade patriarcal brasileira, centrada no homem, decadência esta que tinha como uma de suas fortes consequências a liberdade feminina. Um sinal é sempre algo muito sutil, invisível aos olhos desatentos, assim em Dom Casmurro o escritor construiu uma Capitu sutilmente mais liberta do que o padrão de seu século e que não se submete facilmente ao seu Bentinho com cabeça patriarcal, assim sendo ela o transforma em um sujeito ranzinza – casmurro - que fica mirabolando as piores coisas em torno da sua mulher, principalmente o adultério, simplesmente por ela dar sinais de não ser aquela mulher de uma sociedade, de um século, que está ficando para trás.

Em Memórias Póstumas de Brás Cubas há um riso torto, um tapa de luva, ao excesso de razão e lógica que emana e dá vida ao naturalismo na literatura. Machado está sinalizando algo diante deste cientificismo exacerbado da época quando dá a voz do seu livro a um morto: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”. Há uma provocação ao biologismo do momento aí quando se faz a obra a partir de um relato post mortem.

Este determinismo cientificista que rege uns pensamentos se arrasta até hoje e no final do século XX teve seus sinais trabalhados por José Saramago, que igualmente a Machado criticou o excesso de razão em Ensaio Sobre a Cegueira, onde a cegueira é branca, resultado do excesso de luz.

No conto A Sereníssima República o mesmo Machado de Assis sinaliza que a transformação do Brasil de império para república é apenas uma troca de fachada de uma padaria que continua a funcionar da mesmíssima forma. A libertação dos escravos é relativa uma vez que no lugar de escravos estes agora serão chamados de trabalhadores assalariados, mas a carga de trabalho e a classe que trabalha continua a mesma. O fato é que surgem as periferias crescentes e a questão da violência urbana começa a se tornar gritante.

Seguindo este mesmo caminho do tempo, na década de 70 do século XX a violência urbana ganha tanta prospecção, como já havia sido captado pelo Machado, que Rubem Fonseca se torna um dos maiores nomes da literatura brasileira emitindo suas narrativas na maioria das vezes direcionadas à questão da violência.

Para comentar como os grandes escritores além de serem parabólicas de seu tempo são também receptáculos de uma universalidade, na mesma época que Rubem Fonseca emite sinais da violência urbana no Brasil, Cormac McCarthy escreve, entre outros, Meridiano de Sangue, que é considerado o romance mais sangrento da literatura estadunidense do século XX.

Há também o realismo mágico surgindo com Gabriel Garcia Marquez em uma Colômbia quase surreal devido a tamanhas corrosões que a violência e a política produzem no país.

Voltando para o Brasil, há no século XXI superpopuloso a obra Eles Eram Muitos Cavalos de Luiz Ruffato que constrói uma São Paulo dinâmica, diversa, cinza, plurivozificada, mas sem nem um personagem, sinalizando que a cidade é forma apenas e sua forma emula qualquer conteúdo da gente, que de tanta é quase inválida.

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A lista de escritores que são porta-vozes de seus tempos é imensa, felizmente (Homero, Cervantes, Shakespeare, Goethe, Joyce, Kafka, Borges, etc., etc., etc.). São os maestros, afinal, clássico é o que perpassa o seu tempo e sobrevive com fôlego. Todavia é importante lembrar que a marginalização na literatura sempre aconteceu e escritores magistrais nessa decodificação do mundo para os homens, por motivos que renderiam outros textos, acabaram menos lidos e muitas vezes sequer publicados.

A grande questão é saber se o Brasil é realmente violento ou se por conta desta cultura jogada aos nossos olhos pelo Rubem Fonseca vemos nosso país desta maneira? A Colômbia é mesmo “quase surreal” ou por conta do Gabriel Garcia Marquez nosso imaginário popular hoje a vê assim? A cidade de São Paulo é tão plural em suas formas que invalida seus indivíduos ou Eles Eram Muitos Cavalos coloca essa estética nas lentes da nossa consciência? O Excesso de razão nos cega com luz realmente ou Saramago que apimenta nossa visão? A libertação feminina brasileira teve sua fecundidade em algumas almas do século XIX ou estamos olhando a Capitu com olhos dissimulados?

É difícil dizer porque a gente não sabe se a vida imita a arte ou a arte imita a vida. Mas vê-se que grandes escritores são como parabólicas porque captam os sinais invisíveis de seus tempos e os emitem aos nossos olhos, transformando a nossa percepção da verdade e assim modificando o (nosso) mundo.


Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal. .
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