Greta Garbo: a personificação do mito na arte assim como na vida

Da Suécia para os E.U.A., Greta Garbo deixou uma marca perturbante e incontornável na História do Cinema. Entre uma personalidade desde sempre recatada, um auto-exílio e, fundamentalmente, um rosto belo e apartado que suscitava, por isso mesmo, um interesse pelo mito criado, Garbo veio trazer ao grande ecrã o efémero da existência. O efémero que assim a imortalizou.


garbo.jpg Greta Garbo em “Rainha Cristina”, 1933.

Nascida como Greta Lovisa Gustafsson, em Setembro do ano de 1905 e na cidade de Estocolmo, Suécia, a actriz sueca que viajou entre o mudo e o sonoro ficou imortalizada sob o epíteto de Greta Garbo. Assim que pensamos num vulto como o de Greta, aquilo que nos assalta a percepção é, de imediato, a sua grandiosidade como ícone da Sétima Arte que perdurou na memória do Cinema até à actualidade. Porém, Greta, quando ainda Greta Lovisa Gustafsson, era oriunda de uma família pouco avantajada e, assim que se viu órfã, pelos quinze anos de idade, começou a trabalhar numa boutique de moda. Daí entrou no mundo da publicidade, saltando, de seguida, para a Real Academia de Arte Dramática em Estocolmo, pelo ano de 1922. Descoberta pelo realizador sueco Erik A. Petschler, começou por ser vista no grande ecrã como figurino, aparecendo em alguns filmes, maioritariamente curtas, em papéis secundários, entre os anos de 1920 e 1924.

A sua vida e carreira mudam quando, em 1924, Garbo protagoniza no filme sueco de Mauritz Stiller, “A Lenda de Gösta Berling”. Um sucesso de bilheteira mas, mais do que isso, “A Lenda de Gösta Berling” viria representar um futuro brilhante para Greta e Mauritz. Se no ano que se sucedeu Greta viajou até à Alemanha aceitando o convite de G. W. Pabst, um dos maiores realizadores do mudo e percursor daquilo que viria anos mais tarde a ficar conhecido na História do Cinema como o noir, após as filmagens de “Rua Sem Sol”, Mauritz e Greta partem rumo aos Estados Unidos da América para assinar um contrato com a gigante MGM. Ainda que com algumas dificuldades iniciais (consta-se que Garbo não alcançou o sucesso de forma imediata, sendo criticada pelo seu peso, aparência e dificuldades com a língua inglesa), a verdade é que Greta Garbo acabou, nos E.U.A., por se tornar uma das actrizes mais famosas, reconhecidas e faladas, ora do mudo, ora do início do sonoro, onde não teve dificuldades aparentes em se integrar, em especial graças à sua voz profunda e teatralmente sensual.

Ainda assim, Greta Garbo não terá ficado famosa somente pela sua incorrigível representação. Não. Garbo tornou-se admirada também pela sua beleza distante e pela incógnita que circundou a sua vida e emoções. A questão impôs-se: quem era, afinal, Greta Garbo? Quem era, por detrás daquela esfinge branca e gélida de olhar profundo mas distante, a mulher que fascinava agora o Mundo e levava tantas outras a desejarem iguala-la? Greta assumiu, desde cedo, um distanciamento abrupto dos meios de comunicação e do grande público no que à sua vida privada dizia respeito. Poucas foram as entrevistas que concedeu e, na verdade, poucas foram as informações concretas e fidedignas conhecidas sobre a sua vida amorosa. Nem tão-pouco a sua bissexualidade foi comprovada.

Dedicou a existência à representação e o rosto de Garbo imortalizou-se na tela. Todavia, não seria este distanciamento o suficiente para explicar o fenómeno Garbo. Para sermos exactos, o rosto de Garbo fez dela aquela figura imortal mas, ainda assim, efémera que todos conhecemos. Transmitindo uma ideia de perfeição absoluta e inalcançável – o que explica em grande parte a sensação, que tantos viriam a afirmar, de se estar perante um ser assexuado -, a beleza e expressão de Garbo veio dar início a uma nova era no cinema: aquela em que a compreensão do rosto humano é conducente a uma brutal inquietação das multidões. De uma beleza inabalável conjugada com um distanciamento que não surgia tão-somente na sua atitude, mas vinha desde já da sua expressão facial e do seu olhar sempre direccionado para o ambíguo, qual anúncio de tragédia, o interesse e admiração que Garbo suscitou no espectador derivaram directamente do seu rosto que, ainda que influenciado pelas personagens que veio a interpretar (veja-se o caso de “Rainha Cristina”, de 1933), em última instância transmitia a ideia de perfeição na solidão. Assim o era na tela e assim o era na vida. Pelo menos julgava-se, sobre o que a própria viria a afirmar: “Qualquer um que tenha um sorriso contínuo no rosto mostra uma tenacidade quase aterrorizante”.

greta-garbo.jpg Greta Garbo, (Wikicommons).

Diríamos que Garbo o percebeu, que se encontrava em plena consciência daquilo que era e do que o seu rosto representava para a Sétima Arte. A partir da década de 40 Greta Garbo condenou-se ao auto-exílio. Uns diriam que não suportara as más críticas ao filme “Duas Vezes Meu”, outros diriam que a pequena Katha sabia que aquilo que assegurava a sua essência na tela começava agora a degradar-se. O seu rosto pálido e perfeito com algo de transcendente não mais era o mesmo. A perfeição deveria permanecer, não tanto com existência factual – todos envelhecemos -, mas fundamentalmente como ideia. Seria esse, pois, o seu maior legado. Escondida entre véus e óculos de sol não mais apareceu no grande ecrã, restando somente o mito. Sobre Garbo, R. Barthes viria a afirmar: “O rosto de Garbo representa esse momento frágil em que o cinema vai extrair de uma beleza essencial uma beleza existencial”.

Se em 1949 filmou em segredo um teste de preparação do seu retorno, o aguardado regresso à grande tela nunca se veio a verificar, falecendo em Abril de 1990 em Nova Iorque, onde viveu as última décadas da sua vida dedicando-se à pintura, à poesia e à jardinagem. No grande ecrã deixou-nos filmes como “Orquídeas Bravas”, de 1929; “Grande Hotel”, de 1932; “Rainha Cristina”, de 1933; “Camille”, de 1936 ou, aquela que viria a ser considerada a sua última magistral interpretação, “Ninotchka”, de 1939.


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