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Linguagem. - "Porque há o direito ao grito. Então eu grito"...

Rafael Ramos

Rafael Ramos, graduando em Letras pela UFJF. Creio que "viver é muito perigoso" e que a palavra é o nosso domínio sobre o mundo! Por isso eu não contenho o meu grito...

A Hora da estrela: Narrativa literária X Narrativa cinematográfica

Já é de praxe que grandes livros (ou livros nem tão grandes assim) se tornem filmes hoje em dia. Muita gente prefere não se dar ao trabalho de ler, prefere apenas assistir ao filme, é muito mais cômodo. Mas, dependendo do livro, assistir apenas ao filme pode fazer com que percamos aspectos essenciais da narrativa. Comparando o suporte cinematográfico e o literário da narrativa de A hora da estrela, um dos ápices da literatura brasileira e da obra de Clarice Lispector, veremos de que forma cada um desses suportes contribui ou destitui a narrativa de algum aspecto originalmente presente no plano de expressão escrita.


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Baudelaire é reconhecido como um dos mais influentes e conscientes artistas que refletiram sobre a Modernidade. Sua maneira representativa, pela qual ele expunha em sua obra a estrutura e as peculiaridades de sua época, foi basilar para a compreensão da arte e da vida moderna. O olhar de Baudelaire, destituído de halo, parece nos querer mostrar toda a realidade da cidade moderna, a verdade da vida sem filtro algum, enxergando a natural beleza e poesia que há em cada indivíduo que perambula pelas sarjetas, cafés, vielas da cidade. download (1).jpg Nesse seu dessacralizado e, por conseguinte, moderno olhar desponta a alteridade. Podemos observar isso perfeitamente em seu pequeno poema em prosa “Os olhos dos pobres”, no qual Baudelaire(imagem à direita)incorpora a visão daqueles que estava a observar. Ele não somente os observa, ele tem a sensação que a visão dos pobres lhes proporciona. Introduzi Baudelaire para ilustrar, brevemente, a questão da alteridade em seu texto, pois é um aspecto também presente no romance de Clarice em questão.

No romance A hora da Estrela, podemos observar esse mesmo mecanismo de transposição de identidades, porém, esse jogo é feito em três planos: o do autor (Clarice), o do narrador (Rodrigo), e o da personagem (Macabea). Clarice não se mantém oculta atrás da persona de Rodrigo que cria para narrar o romance, como podemos notar na dedicatória, na qual ela revela ser a autora “na verdade”. Fato que inclusive quebra o pacto de realidade que buscavam os realistas, de que a história deve se narrar por si mesma. Dessa forma, Clarice cria um narrador que expõe o seu processo criativo e mostra o autor que ainda há por trás do narrador, criando, também, três planos narrativos: o da imigrante nordestina, o do escritor Rodrigo, e o do processo de composição da narrativa.

Rodrigo se projeta na personagem de Macabea para poder narrar os fatos, muitas vezes nos revelando que ele se permite pensar por ela, pois são, narrador e personagem, quase como dois seres intrínsecos, como podemos observar no trecho: – Não sei se posso ver sangue. Talvez porque sangue é a coisa secreta de cada um, a tragédia vivificante. Mas Macabea só sabia que não podia ver sangue, o resto fui eu que pensei. trecho que você encontra na página 71, da edição de 1998 da editora Rocco. A-HORA-DA-ESTRELA-2009.JPG

Nesse ponto, vemos de que forma o texto de Baudelaire se comunica com o de Clarice e de que forma a alteridade emerge de ambas as obras. Ambos os autores se transpõem para a realidade do outro menos favorecido. Ambos enxergam o mundo a partir de novos olhos. Entretanto, no processo de transfiguração de Clarice no romance em questão, ela insere outra persona entre o autor do texto e a figura para qual ela se transpõe, adotando sua percepção de vida. Clarice busca ser o outro, se despersonalizar para, talvez, entender mais dela mesma, assim como fazia Fernando Pessoa através de seus heterônimos. É uma captação da essência do outro através da linguagem, antes uma tentativa de expressar a condição, ou as condições humanas, do que apenas um exercício de expressão de subjetividade. Os autores conseguem isso através do fingimento artístico. Clarice assume em sua dedicatória que ela precisa desses recursos para se manter: “Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas mim, preciso dos outros para me manter de pé, tão tonto que sou...” (página 9, se você quiser recordar) Bonito, não é?

Traçando um paralelo com a narrativa d’A hora da estrela em filme, um dos aspectos mais importantes do livro de Clarice desaparece. A figura do escritor preocupado, do autor que tem compaixão por Macabea e que resolve contar sua história, simplesmente, deixa de existir. No filme, a história de Macabea pode se contar por si mesma através da sucessão de imagens. O apreciador da narrativa em filme ganha no âmbito imagético e sensorial, visto que já recebe da tela todas as imagens prontas, com a trilha sonora, com o enquadramento da câmera e etc. fatores que ajudam a criar clima, sensações e empatia no telespectador. De qualquer forma, o sensorial e o imagético não deixam de existir para o leitor que lê o livro. Acontece que o trabalho, agora, dependerá exclusivamente da mente desse leitor, de seu conhecimento de mundo e horizonte de expectativa que construirão a partir do plano de expressão escrita no livro suas sensações e as imagens em sua mente. É desse "trabalho" que muita gente não gosta, vai entender...

hora-da-estrela01.jpgO telespectador perderá alguns dos três planos de narrativa que já mencionei. Não havendo alguém para contar a história de Macabea, cabe ao telespectador fazer o papel de Rodrigo: aquele que vê a história da moça e por ela se compadece (ação que o leitor,obviamente, também pode fazer). O Telespectador do filme perde também alguns aspectos importantíssimos que só existem através da linguagem da escritora, aspectos que na linguagem são expressos de forma sutil como a erotização da personagem ou alguns de seus pensamentos e devaneios íntimos, que Rodrigo em sua onisciência é capaz de nos revelar. A linguagem cinematográfica tende a ficar mais restrita na narração de forma mais objetiva, enquanto na literatura a narração pode ser imersa em uma subjetividade que traz a tona vários aspectos que o filme não é capaz de expressar da mesma forma. E o filme não demonstra porque não quer, pois seria possível.

Vários detalhes que constituem e que nos ilustram o psicológico de Macabea, e até mesmo de outros personagens no livro, são perdidos no filme. Na versão cinematográfica, por exemplo, perdemos as várias pistas que o narrador nos dá sobre o caráter de Olímpico, não chegamos a saber que ele, no passado, já matara alguém. download (3).jpg José Dumont como Olímpico de Jesus e Marcelia Cartaxo como Macabea. Cena do filme A hora da estrela (1986), de Suzana Amaral No filme, ele parece apenas um homem de caráter não confiável, que rouba, que sonha demais, que se deixa levar facilmente e que não cumpre com sua palavra. Perdemos também as várias digressões que o narrador Rodrigo faz ao longo de sua narrativa, por conseguinte, perdemos o terceiro plano da narrativa: o do processo de composição: Rodrigo o portador do discurso da alteridade, algo que lhe dói, algo que ele sente necessidade de se ater, mas que lhe transtorna.

A pessoa autora que escreve em ambos os textos que tratei aqui, nos deixa entrever que a sua atitude de escrita é como se fosse um ato para expurgar a culpa de ser alguém mais abastado do que aqueles de quem estão a falar. Tanto Rodrigo, quanto o autor de “Os olhos dos pobres” sentem demasiada compaixão, respectivamente, por Macabea e sua existência miserável no mundo, e pelos pobres a admirar o luxo. E sentem certa vergonha por terem mais do que necessitam para viver, enquanto os objetos de suas observações mal entendem a (des)necessidade de tudo isso.

O filme completo A hora da estrela (1986), de Suzana Amaral:


Rafael Ramos

Rafael Ramos, graduando em Letras pela UFJF. Creio que "viver é muito perigoso" e que a palavra é o nosso domínio sobre o mundo! Por isso eu não contenho o meu grito....
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