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Linguagem. - "Porque há o direito ao grito. Então eu grito"...

Rafael Ramos

Rafael Ramos, graduando em Letras pela UFJF. Creio que "viver é muito perigoso" e que a palavra é o nosso domínio sobre o mundo! Por isso eu não contenho o meu grito...

Literatura: uma arma pacífica de resistência

A literatura não é apenas arte, elemento deleitador e de fruição, mas também uma arma. É uma forma de denunciar, criticar, se expressar sobre e diante do mundo. Em seu conto "Intestino grosso", Rubem Fonseca chama a atenção para o poder que a literatura tem, ela pode e deve, no tempo e sociedade caóticos em que vivemos, ser utilizada como uma forma de resistência ao invés de servir apenas para nos distrair e alienar dos problemas que acontecem ao nosso redor.


Atualmente, as pessoas são obrigadas a se submeterem a um modelo de civilização refém do sistema econômico que advém da ganância da tecnocracia. Para esse sistema, a vida é uma competição que assegura um domínio baseado em uma miragem de poder. O objetivo social, então, vem a ser gerar empregos para os outros, os outros que são as molas, as engrenagens que impulsionarão o desenvolvimento da sociedade. Para tanto, é preciso educá-los para serem bons executores das funções necessárias. Dessa forma, a existência humana é reduzida a uma ferramenta, de um sistema frívolo e indiferente ao ser humano no que concerne ao seu individual.

tempi_moderni.jpg Cena do filme Tempos modernos

O cristal que esse sistema busca lapidar, entendido aqui como a racionalidade geométrica em prol de ideias desenvolvimentistas e capitalistas, é o ideal de ordem que as sociedades devem possuir. Porém, as cidades, lugar onde esse sistema melhor se aplica e pretende colher seus frutos, nada mais é do que um emaranhado de existências humanas que se interligam e se sobrepõem, é a chama, de acordo com a metáfora do livro de Renato Cordeiro Gomes, Todas as cidades, A cidade. 6729461g1.jpg

TODAS AS CIDADES, A CIDADE, de Renato Cordeiro Gomes, professor da PUC RJ renato-cordeiro- profdaPUCdorj.jpg

Sendo assim, a ordem desse cristal é falha, e a chama, ou seja, a existência humana, se bem observada, está presente para corroborar as falhas que existem através desse cristal. A tentativa dos tecnocratas de afirmar esse cristal é o que dá margem para que a existência da chama, tão confusa e caótica, seja tão problemática.

Nesse processo, as pessoas se esquecem que a chama é capaz de ofuscar o brilho desse cristal, e mesmo capaz de dissolvê-lo. A partir desse último enunciado, entende-se o sentido da frase de Rubem Fonseca em seu conto “Intestino Grosso”: “Eu gostaria de dizer que a literatura é inútil, mas não é, num mundo em que pululam cada vez mais técnicos” e sob a perspectiva dos conceitos expostos nos parágrafos anteriores, proponho uma breve análise do mesmo conto. 600full-rubem-fonseca.jpgRubem Fonseca

A literatura, através dos tempos, sempre possuiu algum valor, alguma função social, como já dizia o poeta clássico Horácio, por exemplo, “ensinar e deleitar”. Nos tempos em que vivemos hoje, como já disse Rubem em seu conto, a literatura também tem o papel de mostrar o que fica escondido por detrás desse sistema, o que fica ofuscado pelo brilho desse cristal. Ela serve para tirar o homem do seu local de comodismo, serve para ajudar-nos a ler a sociedade na qual estamos inseridos, além de ser a válvula de escape que o homem tem para se abster, por um momento que seja, do sistema opressivo e maçante do qual faz parte.

O homem não deve viver abitolado aos objetivos dessa ordem de civilização e desenvolvimento. Não devemos aceitar o sistema da forma como ele é, como ele nos oprime, como ele nos desgasta. A literatura, nesse contexto, é o instrumento que o homem tem para reivindicar, denunciar, compartilhar com os outros a sua visão e dessa forma fazer as pessoas pensarem. A partir desse raciocínio, torna-se claro o sentido de outra frase do mesmo conto: “Não dá mais para Diadorim".

A literatura deve ser usada para mostrar o outro lado da beleza do cristal, o lado que é chamuscado pelas chamas da luxúria desenvolvimentista. O lado que sai queimado por esse sistema. A literatura deve servir para mostrar a cidade, para mostrar a vida daqueles que mais sofrem, por estarem de fora do objetivo da tecnocracia e por não conseguirem acompanhá-lo e fomentá-lo, àqueles que vivem abitolados aos ideais desse sistema. Podemos, então, considerar “Intestino Grosso” como um tratado sobre o fazer literário contemporâneo, no qual o autor e o escritor-personagem querem ter seus olhos abertos às realidades que estão presentes, por exemplo, nos contos anteriores do livro Feliz Ano novo. feliz-ano-novo2.png

Neste ponto da discussão, torna-se pertinente pensar na seguinte questão: Dizer que essas pessoas não conseguem acompanhar e que estão totalmente de fora do sistema tecnocrata e capitalista de nossa sociedade é um tanto controverso. A visão geral de que o marginal é indolente e perigoso, muitas vezes ligado ao mundo do crime, violência, drogas e prostituição está no imaginário coletivo daqueles que não conhecem bem a realidade dessas pessoas. Essa conotação pejorativa possui raízes históricas e foi disseminada, inclusive, pelas próprias instituições oficiais. Mas a realidade não é exatamente como os estereótipos se apresentam. A antropóloga americana Janice Perlman realizou uma pesquisa em algumas favelas e refutou muitas das teorias das escolas de pensamento que se propunham a estudar a marginalidade. JP-BEST-PHOTO_321-200x300.jpg

Janice Perlman em 2010 No livro em que expõe o resultado de todo o seu estudo, O mito da marginalidade, Janice contradiz muitos dos conceitos idealizados até então, pois afirma que muitas das características que se apregoa aos marginais, favelados e etc. não fazem parte de seu cotidiano. o-mito-da-marginalidade-favelas-e-politica-perlman-janice-e--1154-357321-G.jpgExiste vida associativa nas favelas. Os favelados vivem intensamente o contexto urbano e o experimentam, apresentam estabilidade familiar e aspirações racionais ligadas à profissão, dinheiro e educação, estão abertos a inovações e não são politicamente apáticos ou radicais. Sendo assim, os que vivem à margem do grandioso sistema, fazem, sim, parte do mesmo e contribuem, dentro de suas possibilidades restritas, com ele.

rocinha1.jpg Favela da Rocinha

Retomando a discussão em seu viés literário, o intuito dessa função que a literatura ganha em nosso tempo é causar uma mudança, é mostrar a verdade, é nos fazer conhecer o lado do outro, que por conta de nosso individualismo e foco em acompanhar o regime tecnocrata, deixamos completamente ignorado. Também tem por intenção nos fazer refletir sobre tudo isso.

Rubem Fonseca é um dos escritores que percebem o poder que a literatura tem como uma arma pacífica de resistência a todo esse sistema aqui discutido e também de mudança social. Pode parecer um tanto utópico dizer que a literatura é uma arma social, posto que aparentemente seja apenas texto, mas de fato é. Para que haja uma conscientização e, então, uma mudança, deve haver uma forma de fazer as pessoas refletirem, tendo um ‘contato’(mesmo que apenas pela leitura), com o mundo que a sociedade prefere ignorar.

Um mundo que precisa ser realmente limpo, e não colocado sob o tapete. A limpeza aqui deve ser entendida não como mudar a realidade dessas pessoas trazendo-as para um mundo mais parecido com o nosso, visto que isso é impossível e desrespeitoso às suas culturas, mas sim dar-lhes condições de obterem aquilo que precisam para sobreviver mais dignamente, sem precisar recorrer à criminalidade ou viver uma existência cavernosa.

Por essas razões, a literatura de um escritor como Rubem Fonseca, por exemplo, é tão incisiva e se propõe tão realisticamente “vulgar”. O autor quer, pois, nos incomodar, quer nos tirar de nossa zona de conforto, quer mostrar toda a realidade existente, quer que pensemos sobre ela, quer que conheçamos parte da natureza humana que não conhecemos ou que simplesmente fingimos que não nos pertence. A função excretora do órgão que dá nome ao conto, por exemplo, tratada livremente na literatura de Fonseca, causava incômodo (e ainda causa a alguns leitores mais conservadores) e era motivo para taxarem seus escritos de pornográficos.

A função excretora é algo natural e vital para o ser humano, por que é encarado como vulgar, então? O próprio autor discute essa questão. O nome do órgão que faz parte de nosso sistema excretor, título do conto e título do livro do escritor-personagem, é a metáfora construída por Rubem para demonstrar a função ejetora que a literatura pode assumir, repelindo a aceitação passiva do sistema reprodutor da sociedade tecnocrata. A frase do conto demonstra que Rubem crê, dado o “mundo em que pululam cada vez mais técnicos”, que a literatura deve ser utilizada como um poderoso discurso capaz de causar defecção aos discursos alienantes presentes na sociedade .

Além disso, percebemos, justamente pela frase já citada: “Não dá mais para Diadorim”, que Rubem é um escritor completamente ciente de que cada escritor deve ser um homem que vive o seu tempo, que o enxerga tal como é e que se conscientiza dos problemas que este tempo traz. Sendo assim, os escritores não devem continuar a reproduzir a estética e os temas de outrora.

Estamos em um tempo caótico de destruição, de violência, de valores deturpados, e se quisermos confrontar tudo isso, devemos escrever sobre tanto e sem nos preocupar em seguir uma estética que renega a nossa humanidade e que não pode, seguindo os padrões canônicos de outrora, denunciar as verdadeiras falhas que a tentativa de implantar esse modelo cultural de civilização etnocêntrico europeu deixou em nossa sociedade.

Podemos compreender “Intestino Grosso” como a “profissão de Fé” de Rubem Fonseca, pois o conto se propõe como uma teoria literária que identifica o ato de escrever com o ato de ficar face a face com a vida, e não se esquivar de mazela ou “pornografia” alguma da sociedade. Nesse conto, o autor explica o motivo de expor ficcionalmente as verdadeiras fraturas expostas do corpo social que a Ditadura Militar tentava, à força, esconder, discute os valores deturpados que são atribuídos ao pornográfico e ao obsceno e debate o papel de sua literatura no cenário contemporâneo do Brasil. Ao citar o personagem de Guimarães Rosa, Rubem direciona sua crítica à superficialidade do debate literário no Brasil, mais preocupado em discutir o uso de palavrões do que com a ascensão incessante da miséria e da violência nas periferias durante aquele período de repressão estatal.

Rubem nos atenta para o fato de que o processo civilizatório é falho e sua implantação no Brasil se deu de forma violenta. Violência esta sempre velada por um discurso oficial de civilização e formalidade, que é contraditório.


Rafael Ramos

Rafael Ramos, graduando em Letras pela UFJF. Creio que "viver é muito perigoso" e que a palavra é o nosso domínio sobre o mundo! Por isso eu não contenho o meu grito....
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