a perspectiva

a arte e o design em cada campo do conhecimento...

Rodrigo Tedim

Formado em Design, Artes Plásticas, Propaganda e Marketing, acredita que o mundo é construído nos detalhes onde o olhar estético é inevitável

Um Antropólogo em Marte

Acabo de ler um livro do neurologista Oliver Sacks. Confesso que cheguei a este livro pela curiosidade pertinente que o título propõe, (que no caso é o mesmo deste texto, na ânsia de inquietar outras pessoas como eu, rs). Logo após tomar conhecimento do tema tratado no livro, me encantei com o professor Sacks. Ele apresenta sete histórias. São estudos de caso de sete pacientes. Porém uma das histórias, em particular, me chamou a atenção: um pintor de 65 anos, por decorrência de um acidente, passa a enxergar o mundo em preto e branco.


black-and-white-tips.jpg

Sr. I, assim chamado pelo professor para preservar a identidade do paciente, sofre um pequeno acidente de carro e desenvolve um raro caso de acromatopsia cerebral onde a parte do cérebro responsável pela visão das cores é danificada e o indivíduo passa a enxergar tudo em tons de cinza. Há casos em que essa lesão é momentânea porém com o Sr. I o quadro foi irreversível.

Acromatopsia-ou-cegueira-de-cores-voce-sabe-o-que-e-.jpg

Ao ler sua história passei a enxergar com os olhos do Sr. I (ou pelo menos imaginar como seria). Durante mais de meio século viver em um mundo de cores e do dia pra noite ser arrancado de você um elemento primordial básico. Segundo o paciente, as primeiras semanas foram tomadas por uma "depressão quase suicida" onde um simples tomate tinha a coloração de um rato. Imagine o quão difícil seria para uma pessoa viver nessa condição. Agora imagine para um artista. Passara a vida trabalhando com as cores, mas agora isso era apenas um fato histórico e não algo que tivesse acesso ou pudesse sentir diretamente. O mais curioso é que sua memória também tornou-se monocromática. Era como se seu passado, seu passado cromático, tivesse sido roubado.

old-memories-black-and-white-abstract-art-by-laura-gomez-square-size-laura-and-karina-gomez.jpg

Após algum tempo, começara a aceitar sua condição. Seu desamparo inicial passou a dar lugar a um sentimento de determinação: pintaria em preto-e-branco. Essa resolução foi reforçada por uma experiência singular, vivida por ele, após cinco semanas do seu acidente indo de carro para seu atelier: viu o nascer do sol na estrada, os raios vermelhos todos transformados em preto. "- O sol nasceu como uma bomba, como uma enorme explosão nuclear. Alguém já viu um amanhecer como este antes?" Inspirado pelo nascer do sol, voltou a pintar - na verdade uma tela em preto-e-branco que chamou de "Aurora Nuclear". Após o episódio, ele descobre que sua visão noturna é muito mais aguçada e passa a visitar lugares e cidades durante a noite.

116021_254x191.jpg Dr. Oliver Sacks. Neurologista e professor da Universidade de Columbia, NY.

Eis o ponto onde quero chegar: a condição humana de se adaptar com a incrível sensibilidade artística. Somos seres mutáveis e adaptáveis. Basta olharmos a história. Porém essa tal "seleção natural" as vezes é cruel e descarrega em um Ser o desafio de mil anos. Essas situações-limite (por vezes trágicas e em geral dramáticas) colocam a psique humana em prova. Há quem não sobreviva a tais condições porém ao olharmos para o outro grupo ficamos fascinados com o que aprendemos. As visões e experiências de quem vive ou sobrevive em meio a tantos desafios só nos faz crescer. Nos torna tolerantes e compreensíveis entendendo que não existe apenas um mundo. Cada olhar nos mostra uma história. Cada olhar traz uma verdade. Só olhando por outra perspectiva entenderemos que existe a "sua verdade", a "minha verdade" e a "verdade". Mas isso é apenas o olhar do meu universo.


Rodrigo Tedim

Formado em Design, Artes Plásticas, Propaganda e Marketing, acredita que o mundo é construído nos detalhes onde o olhar estético é inevitável.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Rodrigo Tedim