a primavera dos povos

Porque é possível renascer...

Luís Pereira

Chamo-me Luís Pereira e acredito que "é no problema da Educação que assenta o grande segredo do aperfeiçoamento da Humanidade" - Kant

Não, não se trata de uma expansão islâmica

O mundo tem assistido desde largas semanas à ascensão territorial, militar e mediática de um grupo terrorista que deseja instaurar um regime político-religioso extinto há séculos no espaço europeu e próximo europeu. O surgimento e sedimentação do autodenominado "Estado Islâmico" só pode comprovar o falhanço de todas as práticas abusivas, secretas e antiprivacidade realizadas em nome da segurança externa. Interesses diplomáticos? complexidades diplomáticas? Algo mais?...


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Falar de "ISIS" ou "Estado Islâmico" não é só falar da mesma coisa. Este bando de revoltados treinado para tudo o que é excrescência da humanização e da sensibilidade social tem simbolizado e feito sentir a força do termo "brutalidade" nas pessoas, das atrocidades cometidas em nome de Alá. Por outras palavras, tem-se dedicado a terrorismo puro e duro, sem fundamento religioso na letra do livro sagrado islâmico, sem complacência, sem vergonha. Ainda que não se possa atribuir um fundamento religioso aos atos que vemos na televisão pois os textos sagrados não justificam de forma alguma tais atos (por muito que os próprios repitam até à exaustão que sim), este é um bando que ao procurar justificação, torna-se fundamentalista, o que não significa necessariamente olhar-se para os fundamentos expostos , em si. A partir do momento em que se desconecta o significado das ideias do texto da intenção e desejo original desta religião fortalecida por Maomé, entra-se em desvio de interpretação e, como tal, em fundamentalismo (não em fundamentação sequer).

Tal como refere Abdool Karim Vakil, líder da comunidade islâmica em Portugal, o Islão é uma "religião de paz", e que nada tem a ver com as decapitações macabras feitas por estes terroristas. O que os extremistas do "Estado Islâmico" realizam são exageros, atos desconexos com a letra original do texto sagrado, e que, nas diferentes épocas históricas, acabam por existir associadas a diferentes religiões. Ainda que o contexto social, cultural e de pensamento de um dado período não possa ser dissociado desses fenómenos, os cristãos não se podem esquecer, por exemplo, do extremismo realizado pela Inquisição, principalmente, na Europa, na era moderna.

Podemos não estar habituados, enquanto ocidentais maioritariamente e diretamente herdeiros da cultural e educação cristã (essencialmente católica), a pensarmos nos exageros da cultura que nos possa dizer mais respeito. Contudo, o momento atual de terramoto cultural e de genocídio das minorias culturais e religiosas (ao estilo do regime nazi) na zona do Iraque e da Síria, contando com as intenções proclamadas pelo "Estado Islâmico" de reconstituir um califado extensivo até à Península Ibérica (ao estilo das ocupações muçulmanas existentes na Europa medieval), mais do que a implementação da "sharia", leva a que os povos se submetam a uma regressão social-mental e cultural que só em situações-limite de sobrevivência podem ter alguma aceitação.

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Não, não se trata de uma expansão islâmica porque o que nos propalam não é o Islão. Temos que conseguir realizar a devida justiça às bases e aos princípios islâmicos (o que passaria por conhecer melhor o que para muitos de nós pode ainda ser turvo, estranho ou, simplesmente, desconhecido) e separá-los da política e da ideologia de força e de desumanização de grupos que são terroristas e que surgem em contextos sociopolíticos mais ou menos alargados de fragilidade, confusão e possível desestruturação.

Ao nível da política internacional e das relações externas, reconheço os graves e complexos problemas que este grupo veio trazer à conjuntura mundial, para além dos problemas mais impressivos que diariamente causam aos locais que, das quatro, uma: ou estes últimos ainda não tiveram o azar de se depararem com este grupo; ou aderiram aos seus preceitos; ou fugiram para os campos de refugiados; ou estão mortos.

Este grupo, mais radical do que a Al-Qaeda, que saiu deste, acaba por ter uma implantação sólida e estratégica na Síria. Não apoia o Chefe de Estado sírio que esteve (ainda está?...) em guerra civil com os rebeldes e não é claro se estes extremistas apoiaram-no, ou não, antes contra os mesmos rebeldes. A dúvida metódica norte-americana é precisamente essa: para não se envolver diretamente na guerra, fornecer armamento pesado aos exército curdo, do "PKK", considerado terrorista e ansioso pela independência e reconhecimento externo do território do Curdistão (que a Turquia, pelo menos, não deseja) e que tem sido a única força a bloquear estrategicamente a expansão do "Estado Islâmico", pode ser mais um "haraquiri" (excluindo a parte da honra a que os japoneses se referem com este termo) ao estilo daquele que criou a figura de Bin Laden, e não só.

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É absolutamente estranho que, principalmente da parte dos serviços secretos norte-americanos, se defenda a necessidade de se realizarem pesquisas de informação confidencial, recolha de dados pessoais eletrónicos, interceção de chamadas, etc., em prol da nossa segurança (com tudo de ilegal e de contrário à letra e ao espírito do Direito Internacional que isso traz) e, posteriormente, surjam, do "nada" (em termos mediáticos) extremistas desta índole, recrutados de diversos países europeus, por exemplo, com a força militar e estratégica que demonstram... Já que nem fomos questionados acerca da aceitação disso, fica a ideia de que a "segurança", que tem justificado esses atropelos aos direitos pessoais, não interessa sempre. Mas se fomos obrigados a dar parte do nosso direito à privacidade, devemos esperar que tal tenha sido para uma proteção plena da nossa segurança...

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Por último, confesso que não vejo uma alternativa fácil, no imediato, a essa espionagem informativa confidencial e, como tal, resigno-me parcialmente à ideia de que, sem essa "espionagem", talvez mais outros atentados perfeitamente sangrentos e desumanos tivessem ocorrido. Mas já que o extremismo em nome do Islão (que é diferente de dizer-se "extremismo islâmico"), de causas também ou fundamentalmente Ocidentais, ganhou proporções de conflito armado desde o início, como se pode esperar resolver, desde o início da perceção do problema, com estratégias diplomáticas, ao nível dos Estados, esta forma de terrorismo, quando foi originado à custa de diversos e diferentes estratégias de conflitos armados anteriores, abrindo feridas socioreligiosas profundas?


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