a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

A História das histórias de amor (Parte 2/3)

"O amor é a fumaça que sobe com o vapor dos suspiros apaixonados." Isso disse o Shakespeare. Nunca fora de moda, o amor atravessou o Medievo e dele saiu pronto para novas roupagens. Na mão de dramaturgos, poetas, romancistas e revolucionários, foi protagonista de histórias ou só plano de fundo. As histórias de amor arrastam-se pela História - longamente.


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Nos ventos do Renascimento Cultural, o italiano Dante Aliguieri publica a - polêmica - "Divina Comédia". Embora tenha a finalidade de incomodar a Igreja, o escritor abre espaço para o amor - indispensável?

O escritor - que é também o protagonista - passeia pelo inferno e pelo purgatório acompanhado pelo grande Virgílio, mas, quando vai ao céu, Dante é guiado por Beatriz. Dante e Beatriz, o casal mais literário que a História conhece. Ele só a viu duas vezes: a primeira, quando tinha nove anos - apaixonou-se perdidamente -, a segunda, no enterro dela, quando ela tinha 24 anos. Mesmo tendo casado-se, a obra dele prova que nunca a esqueceu. Descrevê-la guiando-o pelo céu foi o modo que ele achou de eternizar esse amor.

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Cerca de dois séculos após a publicação da Divina Comédia, a História das histórias de amor ganha um de seus maiores marcos: Romeu e Julieta.

Um amor impossível: ele um Montecchio e ela uma Capuleto. Shakespeare, na tragédia "Romeu e Julieta", esboça a base de - quase - todos os romances impossíveis. A obra tornou-se eterna pelo modo como reverberou em releituras e na repetição dos seus modelos.

A história é conhecida: Romeu conhece Julieta numa festa e eles apaixonam-se; eles fogem da festa e trocam votos de amor eterno na varanda dos Capuleto; na manhã seguinte, casam-se em segredo com a ajuda do Frei Lourenço, sem levar em conta que Julieta está prometida ao Conde Páris, e à noite consumam o casamento; Julieta pede ajuda ao Frei para fugir do compromisso com o conde, ele lhe dá um remédio que a faria parecer morta, mas eles não avisam a Romeu sobre o plano e, ao saber da morte da amada, ele vai até ela e toma um veneno - este letal -; ao acordar, Julieta vê o amado morto, pega seu punhal e suicida-se. FIM!

Nasce assim o "infeliz amor recíproco" que vem sendo (re)contado desde o século XVI - ou seria desde o século XII com o triste fim de Tristão e Isolda?

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Mais dois séculos adiante, surge o "Sturm und Drang" - que significa "Tempestade e Ímpeto". O movimento surgiu na Alemanha como uma resposta ao racionalismo vigente na França e exaltava as emoções através de uma escrita humana e espontânea. E o amor tempestuoso nunca foi tão bem traduzido quanto nas palavras de Goethe, nem nunca tão bem personificado quanto em Werther. "Os sofrimentos do jovem Werther", de Goethe, é um livro icônico.

A história é simples: Werther vai ao campo para fugir do caos urbano, mas caos maior instala-se nele quando conhece Charlotte e apaixona-se por ela; ele tenta esquecê-la, pois ela é noiva de Albert, mas - ah, o amor romântico... - não consegue; como a hístória conta-se por cartas enviadas por Werther a seu amigo Wilhelm, não se sabe se o sentimento era recíproco, sabe-se apenas que Charlotte, mais prudente que Julieta, não abre mão do compromisso com Albert; assim sendo, Werther vê-se sem amor e sem saída e suicida-se. FIM!

"Amar, é não saber, não ter coragem
Pra dizer que o amor que em nós sentimos;
Temer qu’olhos profanos nos devassem
O templo onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis d’lusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!"

[trecho do poema "Se se morre de amor", de Gonçalves Dias]

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Sabe-se que "Werther" foi um livro que marcou sua geração: os jovens da época usavam azul e amarelo, pois eram as cores mais usadas pelo protagonista, e era grande o número de leitores que se suicidavam ao fim do livro, chegando a ser proibida a sua leitura em alguns países.

Nasce assim o "infeliz amor não recíproco" que vem sendo recontado desde o século XVIII - ou seria desde os tempos bíblicos em que Rubem apaixona-se por Bila - uma das esposas de seu pai -, mas ela rejeita-o?

Ainda no movimento romântico, destacam-se outras histórias: o próprio Goethe ainda escreve "Fausto" em que o apaixonado vende a alma ao demônio para ter a amada; em Victor Hugo encontram-se os extremos, o belo amor de Marius por Cosette - em "Os miseráveis" - e o amor feio e desinteressado de Quasímodo pela cigana Esmeralda - em "Notre-dame de Paris"-; em José de Alencar desenham-se diferentes amores, desde o amor puro entre Ceci e Peri - em "O Guarani" - até o amor vingativo de Aurélia por Fernando Seixas.

Depois de uma overdose de amores românticos, platônicos e idealizados, Gustave Flaubert reinventa o amor na sua face mais indigesta: o amor que trai para ser amor. Quando publica Madame Bovary, abala a reputação da sociedade pariense.

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A história é basicamente esta: Emma Bovary casa-se com um médico respeitado, mas é amor que lhe falta e ela perde-se a vida, a juventude e as posses atrás do tal amor vislumbrado tantas vezes nos romances românticos; pobre e velha, Emma suicida-se.

O livro causou um choque na sociedade, mas criou um modelo para a época: o bovarysmo, ou seja, a mulher que trai o marido por querer o amor romântico. Isso é visto no realismo russo com Tolstoi, em "Anna Karenina", ela joga-se de um trem em movimento ao fim da história; no realismo português com Eça de Queirós, em "Primo Basílio", Luísa morre ao fim de altas febres.

"Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!"
[trecho do romance "Primo Basílio", de Eça de Queirós]

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Na verdade, o realismo contrapõe dois amores: o amor romântico que a mulher que trai está buscando e o amor realista - dúvida quanto ao adjetivo, mas... - que o homem que perdoa a traição exerce. O amor... ah, o amor... sempre polêmico.

No Brasil, o bovarysmo chega sem força e sai de foco pela genialidade de Machado que muda o foco da discussão e foca nesse homem - sempre fracassado, frustrado, manipulado e castrado. Em Bentinho, o homem do realismo desenha-se: inseguro e possessivo, mas sempre fraco. Em Capitu, a mulher do realismo realiza-se: forte e decidida, capaz de tudo para ter o que quer, até trair. "Dom Casmurro" conta a última grande história de amor - amor? - do século XIX.

(Caros leitores, espero que tenham gostado dessa segunda parte e, consequentemente, estejam ansiantes pela última parte da História das histórias de amor. Até a próxima!)
***Leia a parte três desta postagem


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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