a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

A História das histórias de amor (Parte 3/3)

"O peso do mundo é o amor". Desse modo, Ginsberg inicia seu poema "Canção". Tal verso é a imagem do homem do século XX (e consequentemente, do século XXI): um homem cansado de tantas imagens diferentes acerca do mesmo assunto.
Sempre polêmico. Sempre misterioso. Sempre ininteligível. "L'amour, hum, hum, pas pour moi!"


Parte 1 -- Parte 2

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Vira-se o século - e que virada!
O século XX inicia-se já na embriaguez das vanguardas europeias, no ópio das tendências estéticas, no encanto das inovações tecnológicas e no embalo de novas concepções de amor e sexo.
Nas mãos de Freud, o "amor sublime" cai por terra e cabe-nos rejeitá-lo ou aceitar nossa posição animalesca no mundo, assim até o puro amor entre mãe e filho entra em xeque. Na onda de uma arte revolucionária, também compreendem-se textos mais vorazes e menos contidos buscando novos ângulos nas imagens de sempre.

No século XX, o amor comum saiu de moda. O amor doentio e/ou inusitado entre em voga.

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O que é visto na literatura, no cinema e nas artes em geral é um amor que beira a loucura, mas não a loucura romântica, é a loucura diagnosticada, a loucura do esquizofrênico e do psicopata.
Nesse amor talvez destaque-se, a trama do polêmico Polanski, "Lua de fel". Nela, o amor entre um escritor e uma dançarina toma proporções inesperadas, sendo assim, uma história envolvente com cenas marcantes e descrições peculiares.

Nasce também um novo olhar sobre o sexo. Um olhar que o distancia do amor. Popularizado por Hollywood, o sexo casual e desvencilhado do sentimento toma o centro das atenções, mas - numa espécie de carma - sempre surge um amor, mesmo em tempos de cólera...

"O amor nos tempos da cólera", aliás, é o livro do grande Gabriel García Márquez que - contra a corrente - volta ao amor platônico. No romance, um amor distante - mas cativante - e longo que prende os amantes em suas redes. Florentino e Firmina vivem um amor paciente e cheio de contratempos, mas o amor vence - pieguice?

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Voltando ao papel do sexo no imaginário do amor na literatura do século XX, topamos na obra de D.H. Lawrence. O inglês é autor de "O amante de Lady Chatterley", polêmico romance que mostra o caso entre uma burguesa e um operário com descrições minuciosas de cenas de sexo, e "O Arco-íris", romance que conta a história de três gerações de fazendeiros e suas descobertas quanto ao sexo oposto - o livro foi considerado "obsceno". (e ainda havia gente achando que "50 tons de cinza" era novidade, coisa nunca antes vista!)

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Ainda no campo da visão do sexo sobrepujando o amor, destacam-se Winston e Júlia - protagonistas do romance "1984" de George Orwell. Ele cultivam uma relação sem compromisso, algo ainda chocante em 1949, ano em que o romance foi lançado. Talvez o seguinte trecho explique esse tal sexo sem amor:

"-Gostas de fazer isto? Não me refiro a mim, somente. Gostas da coisa em si?
-Adoro!
Acima de tudo, era o que ele desejava ouvir. Não somente o amor de uma pessoa, mas o instinto animal, o desejo simples, indiscriminado;
"
(Trecho de "1984" de George Orwell)

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Em terras tupiniquins, o amor inusitado também chegou e ficou. Nas histórias de Guimarães Rosa, o inesperado toma lugar, o maior exemplo disso provavelmente é o romance entre Riobaldo e Diadorim em "Grande Sertão: Veredas". O jagunço que "se apaixona" por um companheiro de jagunçada e se flagra lembrando de seus límpidos olhos verdes, e o leitor acaba entrando na angústia de Riobaldo que atribui o caso ao "diabo na rua". Mas o caso parece resolver-se ao final, quando, à morte de Diadorim, sabe-se que ele era, na verdade, Diadorina. E o protagonista fica entre o alívio - de não estar apaixonado por um homem - e a tristeza - de não ter vivido aquele amor.

Bem. Nos tempos mais recentes, a literatura de mercado continua apostando no amor - porque amor vende! - e tem criado histórias cheias de uma autoajuda deprimente ou de uma dúbia liberdade sexual, tudo numa versão genérica e mal copiada.

O escritor francês André Gide, Nobel de Literatura, escreveu certa vez que "é com bons sentimentos que se produz a literatura ruim". A frase é concordável, mas não incontestável. O amor - em si um bom sentimento - tem produzido boas histórias desde que histórias existem...

***** Espero que tenham gostado da série de postagens. Foi um prazer escrevê-la.


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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