a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

O "pássaro azul" de Bukowski

Bukowski, autor amado e cultuado pela sua escrita sincera e sem pudores, guarda em si bem mais que um velho safado... ele é um poeta completo.


charles_bukowski_by_donchild-d307jxx.png

A vida desregrada e os poemas desprovidos de pudor deram a Bukowski, além do status de "cult", o título de "velho safado" - título que o fez conhecido pelo globo. Mas Bukowski não é só um velho safado, é um poeta de amplo espectro que vai dos poemas "podres" aos poemas filosóficos passando pela poesia intimista.

Bêbado e bem acompanhado... essa é a imagem automática de Charles Bukowski, poeta estadunidense - que nasceu na Alemanha. Sua poesia tem várias facetas, a mais divulgada - e até cultuada - é a sua produção de cunho... a poesia do Bukowski que, de tanta sinceridade e nudez, soa erótica.
Veja o trecho do poema "tão louco quanto sempre fui":

"bêbado e escrevendo poemas
às 3 da manhã.

o que importa agora
é mais uma
boceta
apertada

antes que a luz
se apague

bêbado e escrevendo poemas
às 3h15 da manhã."

Outro bom exemplo dessa lira é o trecho seguinte do poema "garotas voltando para casa":

"as garotas voltam para casa em seus carros
e eu me sento à janela e
assisto.

[...]

mas sigo lembrando da garota no vestido azul
que desceu do carro azul
vi sua calcinha

você não sabe o quão excitante a vida pode ser
por volta
das 5h35 da tarde."

bukowski123.jpg

Mas nem só de confissões pouco castas vive o poeta, e nem só de prostitutas nem de "ver calcinhas" vive o velho safado. A lira romântica de Bukowski ganha espaço entre situações casuais e o desejo do duradouro (se não for do eterno). Pouco divulgada, mas igualmente genial. O desejo de um amor é bem expresso por ele no seguinte excerto do poema "garotas calmas e limpas em vestidos de algodão":

"preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher
mais do que da máquina de escrever, mais do que do
meu automóvel, mais do que de
Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que posso
senti-la no ar, posso senti-la
na ponta dos dedos, posso ver calçadas construídas
para seus pés caminharem,
posso ver travesseiros para sua cabeça,
posso sentir a expectativa da minha risada,
posso vê-la acariciar um gato,
posso vê-la dormir,
posso ver seus chinelos no chão.

eu sei que ela existe
mas em que parte deste planeta ela está
enquanto as putas continuam me encontrando?"

bukowski1.jpg

Bem além do vasto campo do amor e do sexo, Bukowski também entra numa área memorialista que tende ao saudosismo, à reflexão sobre o tempo. E isso ele explica no poema "oh sim":

"há coisas piores que
estar só
mas nos custa décadas
até que percebamos
e geralmente
quando conseguimos
é tarde demais
e não há nada pior
que
ser tarde demais"

charles_bukowski_polemica_emision_thumb.jpg

E o próprio Bukowski tenta explicar essa sua insistência numa poesia depravada e descompromissada com o eterno e com o amor convencional num poema confessional. Em "Bluebird", o velho safado insinua que, no fundo, não passa de um velho que decidiu prender seu "pássaro azul". Para finalizar o artigo, "Bluebird":

"há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?"


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Raul C. de Albuquerque