a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

A jaula de Alejandra Pizarnik

A poetisa argentina Alejandra Pizarnik é um desafio para os que tentam encaixá-la em algum movimento literário. Na década de 60, auge da poesia política em seu país, ela detinha-se na sua poesia simbolista e de caráter intimista - guardava-se em sua "jaula". Sua obra e seu suicídio aos 36 anos colocam-na em destaque no cenário da produção poética portenha do século XX.


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"Lá fora há sol.
Não é mais que um sol,
mas os homens o olham
e depois cantam.
[...]
Lá fora há sol.
Eu me visto de cinzas."

Os versos acima são de Alejandra Pizarnik em seu poema "La jaula". Pizarnik é uma daquelas poetisas que nos atraem pelo ignoto. Seus primeiros poemas, publicados no livro "La tierra más ajena" de 1955, expressam uma incompreensão de si própria e do que a envolve. No primeiro livro, a influência simbolista é inegável, o sentimento gauche vigora e é visto em muitos trechos. No poema "Solamente", ela questiona a verdade e chega a uma conclusão surpreendente:

"já compreendo a verdade

estala em meus desejos

e em minhas infelicidades
em meus desencontros
em meus desequilíbrios
em meus delírios

já compreendo a verdade

agora
vou buscar a vida"

No poema "Noche", do mesmo livro ainda, ela pergunta:

"Tanta vida, Senhor!
Para quê tanta vida?
"

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Seu terceiro livro, "Las aventuras perdidas", reafirma uma postura alheia à realidade. No poema "El despertar", ela revela como não consegue compreender o que acontece dentro e fora dela:

"Senhor,
a jaula se tornou pássaro
e voou
e meu coração está louco
"

Seu quarto livro é "Árbol de Diana" - que leva a apresentação de ninguém menos que Octavio Paz. Ele é uma compilação de poemas aforísticos. Pequenos pensamentos, pequenos delírios, fragmentos de uma loucura maior. A jaula volta a aparecer no fragmento 36 do livro:

"na jaula do tempo
o sono olha seus olhos sós
o vento lhe traz
a tênue resposta das folhas
"

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Em seu sétimo livro, "El infierno musical", Pizarnik retoma a prisão do ser humano. A jaula volta a ser citada no poema "La máscara y el poema", ela escreve:

"Ao por do sol, irão por a acrobata em uma jaula, a levarão a um templo em ruínas e a deixarão ali sozinha."

Enquanto seus contemporâneos e conterrâneos - Juan Gélman, Juana Bignozzi, entre outros - investiam numa poesia engajada, Pizarnik ousa resguardar-se e reconhecer-se dentro da jaula. Jaula esta tão combatida e maldita por Sartre que disse "Não se trata de enjaular os contemporâneos: eles já estão na jaula."
Todos viram-se chamados para fora da jaula, ela, porém, viu-se presa à jaula e dali fez sua poesia.

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Pizarnik - "a filha do vento" como referiu-se a si mesma em muitos poemas - suicidou-se no dia 25 de setembro de 1972, em Buenos Aires, quando tinha apenas 36 anos, ingerindo 50 pastilhas de um fármaco sedativo. Ela estava passando um fim de semana fora da clínica psiquiátrica em que estava se tratando de um quadro complicado de depressão, depois de duas tentativas de suicídio.

Um de seus últimos poemas chama-se "... el alba venid..." e parece avisar o que viria.

"ao vento não escuteis
ao vento.
toco a noite
à noite não toqueis,
à alva,
vou partir,
à alva não partais, à alva
vou partir.
"


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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