a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

Haikai: entre Bashō e Leminski

A arte do haikai: história, ironia e poesia em três versos.


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ideograma que representa "kawa", ou seja, "rio"

"Que belo que é
não pensar ao ver um raio:
'A vida é fugaz'."

O três versos acima são de Matsuo Bashō, poeta japonês do período Edo. Bashō é tido como o poeta que fez do haicai (ou haikai) (ou haiku) uma forma fixa poética consagrada, estabelecendo sua atual configuração. Ele chegou a usar o haicai como um modo de livrar-se da vida rotineira, fazia viagens longas para registrar cenas e transformá-las em três versos de pura poesia condensada.

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Matsuo Bashō, poeta do período Edo.

A fórmula consagrada por Matsuo é composta por três versos: o primeiro e o terceiro sendo pentassílabos (5 sílabas poéticas, ou 5 ideogramas) e o segundo septassílabos (7 sílabas poéticas, ou 7 ideogramas). A forma talvez se perca na tradução (já diria o grande Ferreira Gullar: "poesia é intraduzível"), mas chegaram até a língua portuguesa belíssimos haicais do grande Bashō:

"Silêncio:

as cigarras escutam
o canto das rochas"

"Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago"

"Crepúsculo:

as ervas parecem seguir
os rebanhos que recolhem"

A tradição do haikai chega ao Brasil junto com os imigrantes japoneses e, antes de desembarcar no Porto de Santos, o imigrante Shuhei Uetsuka já escreve:

"A nau imigrante

chegando: vê-se lá do alto
a cascata seca."

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Guilherme de Almeida, poeta modernista, cadeira 15 da ABL

O haicai amadurece no Brasil na produção de Guilherme de Almeida que acrescenta critérios de sonoridade e ritmo aos haikais, além de passar a dar-lhes títulos, de tão próprios, passaram a ser chamados haicais guilherminos. Poeta modernista, Guilherme tem nos seus haicais, provavelmente, o melhor de sua poética:

"E cruzam-se as linhas
no fino tear do destino.
Tuas mãos nas minhas."

"Romance" de Guilherme de Almeida

"Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha."

"Pescaria" de Guilherme de Almeida

"Houve aquele tempo...
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!)"

"Hora de ter saudade" de Guilherme de Almeida

"Na cidade, a lua:
a joia branca que boia
na lama da rua."

"Noturno" de Guilherme de Almeida

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No Brasil, depois da regulamentação do haicai por Guilherme de Almeida, vem a liberdade marginal da poesia do grande e sempre atual Paulo Leminski. Tradutor, admirador e seguidor de Bashō, Leminski dedicou grande parte de sua obra aos haicais, por crer haver neles força e concisão necessárias a sua poesia, e neles deixou-nos reflexões incompletas, cartas abertas, poemas-piada e mortes rápidas:

"confira
tudo que respira
conspira"

"duas folhas na sandália

o outono
também quer andar"

"as folhas tantas

o outono
nem sabe a quantas"

"amei em cheio

meio amei-o
meio não amei-o"

"abrindo um antigo caderno

foi que eu descobri
antigamente eu era eterno"

"essa vida é uma viagem

pena eu estar
só de passagem"

Acabo este artigo com o último haicai do mestre Matsuo Bashō:

"Doente em viagem
sonho em secos campos
ir-me enveredar"


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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