a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

O amor clássico em Vinícius

"Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure."


_ Para início de conversa, falar de Vinícius, para mim, é questão pessoal demais. Aprendi poesia com o Poetinha, minha mãe era - e ainda é - apaixonada por sua poesia, e decorei o Soneto de Fidelidade antes dos 10 anos. Para mim, Vinícius foi um poeta, como nenhum outro foi, ele uniu a arte da poesia com a arte de viver... Não só cantou amor, mas o viveu. Enfim, vamos ao artigo.

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"Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure."

Esses versos de Vinícius ocupam um lugar raro e muito privilegiado na cultura brasileira, ao lado talvez apenas do aforismo drummondiano "No meio do caminho tinha uma pedra". Vinícius é gênio não só pela poesia propriamente - que é indiscutivelmente única -, mas pelo modo como ele trouxe à tona um amor árcade que ficou mal quisto, o amor reduzido - ou seria exponencializado? - ao sexo.

Tomás Antônio Gonzaga, embolorado nas prateleiras e ignorado até pelos estudantes que precisam lê-lo para o vestibular, foi o auge do Arcadismo brasileiro, é considerado ainda pré-romântico. Ele escreveu - o instável livro - "Marília de Dirceu", onde coloca seu amor clássico em termos diretos demais:

"Esta chama é inspirada
Pelo Céu; pois nela assenta
A nossa conservação.
Todos amam: só Marília
Desta Lei da Natureza
Não deve ter isenção.'

Vinícius usa a sua poesia - que transborda e esborra - para dar nova roupagem a esse amor tangível e latente e declara:

"Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude."

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Sobre a vida do Vinícius, nove casamentos, infinitas musas e um só caso contam tudo, ele confessa na sua última entrevista:

_ E como foi aquela história de um amor fulminante que nasceu numa sala de museu, entre você e uma jovem loura que se viam pela primeira vez?

_ Era uma exposição de Portinari. A menina era muito interessante, uma graça. Eu dava uma olhada num Portinari e outra nela. E ela também. Eu sei que viemos de lados opostos e, quando a gente se encontrou, foi até um troço emocionante. Eu falei assim: “Eu te amo sabe?” Ela começou a chorar. Aí, pronto. Ela estava noiva, mas acabamos tendo um romance que durou um ano mais ou menos.

Da entrevista cedida por Vinícius de Moraes a Narceu de Almeida Filho, em 1979

Quem conhece os versos cálidos de Vinícius se perde quando sabe que ele um dia escreveu:

"Ai! teus cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!"

do poema "Poemas para todas as mulheres"

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Drummond disse certa vez que "Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural". Como dizia o poeta:

"Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu"


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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