a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

Sobre ser gauche

ou "A gente te entende, Drummond"


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Numa entrevista que gravei há quase um ano, flagrei-me pensando sobre se há algo que une todos os poetas no mesmo território. Bem... não foi algo fácil, como devem imaginar, mas Drummond me respondeu a pergunta, em seu "Poema de Sete Faces":

"Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida."

Para alcançar a totalidade do sentido dos versos, deve-se saber que gauche significa "esquerdo" em francês - por "esquerdo", entenda-se "diferente", "incompatível" ou "deslocado". Daí passei a cogitar que o fato de sentir-se gauche une todos os poetas de verdade - o sentimento de não-pertencimento. O desespero pelo que não "se encaixa" une todos os poetas numa caverna e eles permanecem lá, o mesmo desespero que levou alguns à loucura e/ou suicídio é que incita a poesia viva e gritada. A expressão é tão grandiosa que o grande Manoel de Barros só fez traduzi-la quando escreveu "O menino que era esquerdo e tinha cacoete pra poeta".

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Sobre esse sentimento de não-encaixe, escreve o poeta, maldito por excelência, Charles Baudelaire, em seu poema "L'albatros", do livro "Les Fleurs du Mal":

"O Poeta se compara ao príncipe das alturas

que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;

exilado no chão, em meio à turba obscura,

as asas de gigante impedem-no de andar."

Baudelaire escreve que o Poeta "ri da seta" das palavras, dos versos, das rimas, pois a língua e a poesia não lhe são problemas, causam-lhe até encanto, mas "exilado" na vida comum, no plano dos atos, das cobranças, dos horários, dos prazos de entrega, as mesmas asas (que o fazem voar) atrapalham-no no andar.

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O múltiplo (e multiplamente gauche) Fernando Pessoa, em seu ortônimo "ele mesmo", escreve em seu poema "Andaime" sobre o que ele não é (e acaba concluindo que ele não é o que deveria ser):

"Gastei tudo que não tinha.

Sou mais velho do que sou.

A ilusão, que me mantinha,

Só no palco era rainha:

Despiu-se, e o reino acabou.

[...]

Sou já o morto futuro.

Só um sonho me liga a mim -

O sonho atrasado e obscuro

Do que eu devera ser - muro

Do meu deserto jardim."

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Meu argumento em favor de minha teoria vem da poetisa mais mais que eu conheço: Cecília Meireles. Ela escreve em tom de revelação óbvia que seu estado de "poeta" é tão incomum que nem pode se encaixar nas denominações "alegre" ou "triste", há algo mais gauche que não saber se é/está feliz ou triste?!

"Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta."


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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