a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

Baudelaire: convite e provocação

Baudelaire, o poeta maldito, porque "os adoráveis remorsos sempre nos saciam"...


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"Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada/ Não bordaram ainda com desenhos finos/ A trama vã de nossos míseros destinos,/ É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada."

Em 1857, Charles Baudelaire lança o incendiário livro "As Flores do Mal", uma coletânea de 100 poemas com lirismo introspectivo, pesado, inconvencional e negro. Tão revolucionário que 6 poemas foram censurados - e que foram trocados por outros seis "mais belos que os suprimidos", segundo o próprio.

Baudelaire nasce em 1821, numa família religiosíssima, cujo pai era sacerdote e a mãe, beata. Mas, seu pai morreu quando ele era muito jovem e sua mãe casou-se com um oficial do Exército. Seu padrasto, então, enviou-o para o internato no Collège Royal, em Lyon.

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De lá, ele foi transferido, por alguns atos de insubmissão, para o Collège Luis-Le-Grand, de onde foi expulso por indisciplina em 1839. Expulso do internato, Charles vive em Paris a vida que sempre sonhou (o que ele mesmo chamava de "vie libre"), uma vida dissoluta, período no qual ele "torrou" sua herança e acumulou dívidas. Nesse mesmo período, Baudelaire entra no meio artístico e literário parisiense.

"Les fleurs du mal" é, sem dúvida, um marco inicial para o que chamamos de Poesia Moderna, a obra que surpreende pelo caráter revolucionário e confrontador. Charles Baudelaire é um dos grandes nomes da poesia universal.

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O primeiro poema do livro funciona como um convite indiscreto "Au lecteur"

"A estupidez, o erro, o pecado, a mesquinhez/ habitam nosso espírito e o corpo viciam/ e os adoráveis remorsos sempre nos saciam [...]"

Longe do puritanismo, o poeta deve representar, segundo Charles, a sincera condição humana e conclui ao fim do poema:

"No lamaçal de nossos vícios imortais,/ um há mais feio, mais iníquo, mais imundo!/[...]/ É o Tédio! - o olhar esquivo à mínima emoção,/ [...]/ - Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!"

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A provocação baudelairiana não se caracteriza pela sutileza mas pela violência com que acomete, xinga e ataca o leitor. O sexto poema do livro ("Os faróis") termina com uma provocação, que sinceramente parece ser de inigualável ironia e precisão:

"Sem dúvidas, Senhor, jamais o homem vos dera/ testemunho melhor de sua dignidade/ do que esse atroz soluço que erra de era em era/ e vem morrer aos pés da vossa eternidade."

Algo de Gregório de Matos, mas o eu-lírico ácido parece não se colocar como a "ovelha desgarrada" que quer ser cobrada de volta. Antes, Baudelaire ri da ovelha que quer ser cobrada (e ri de Deus também?). A provocação segue-se não por capricho, mas por que o poeta sente a necessidade de rir-se da hipocrisia e contar do que realmente habita o nosso espírito e vicia nosso corpo.


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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