a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

Kafka e Foucault: saída no hay

Sobre como eu não sei o que fazer quando leio Foucault, muito menos quando leio Kafka... O livro "Vigiar e Punir" e a novela "Na colônia penal" abrem dúvidas e dúvidas... Eu não vejo saída.


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Quando passei em Direito, me senti na obrigação de ler "Vigiar e Punir", de Michel Foucault. Não sei se foi uma boa ideia...

O livro do filósofo pós-estruturalista é maravilhoso e detalhista na (para usar um termo do campo) desconstrução da ideia de punição que reside no imaginário social. Na argumentação (e no pessimismo) de Foucault, o sistema punitivo estatal está longe de ser algo antigo, longe de ser algo natural, longe de ser algo justo, longe de ser algo benéfico para a sociedade.

Ele não poupa dados históricos nem relatos crus para provar como se deu a passagem da barbárie explícita do método punitivo do Antigo Regime:

"Finalmente foi esquartejado [relata a Gazette d’Amsterdam]. Essa última operação foi muito longa, porque os cavalos utilizados não estavam afeitos à tração; de modo que, em vez de quatro, foi preciso colocar seis; e como isso não bastasse, foi necessário, para desmembrar as coxas do infeliz, cortar-lhe os nervos e retalhar-lhe as juntas..."

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Mas "por algum motivo" os verdadeiros espetáculos públicos que eram os cumprimentos das penas na sociedade europeia (e principalmente francesa) foram minguando e acabaram por desaparecer. Mas alguém pode dizer que "Não foi o acaso, não foi o capricho do legislador que fizeram do encarceramento a base e o edifício quase inteiro de nossa escala penal atual: foi o progresso das idéias e a educação dos costumes." Seria uma visão otimista da situação, a chegada a uma síntese do problema.

Mas Foucault não vê com esse olhar (que a ele soa ingênuo), o filósofo vê a prisão como uma mudança de âmbito da barbárie, mas ainda assim, barbárie.

"Conhecem-se todos os inconvenientes da prisão, e sabe-se que é perigosa quando não inútil. E entretanto não 'vemos' o que pôr em seu lugar. Ela é a detestável solução, de que não se pode abrir mão"

Mas... E aí?! O que fazer, Sr Foucault?! Não se sabe... Saída no hay...

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Então, aparece Franz Kafka, o profeta do totalitarismo, da vertigem de existir. Li Kafka pela primeira vez há tempos e lembro claramente da sensação claustrofóbica que me deu quando li "A Metamorfose", li num gole só, quando acabei o conto estava meio ofegante e contraído sobre a cama. Kafka tem um não-sei-quê assusta.

Kafka não dá outra saída, só há a morte:

Para Gregor Samsa, em "A Metamorfose", o fim é este:

“Permaneceu nesse estado de reflexões vazias e pacíficas até que o relógio da torre bateu três horas da madrugada. Ainda vivenciou o início do alvorecer geral do dia lá fora, além da janela. Em seguida, sem que ele o quisesse, sua cabeça inclinou-se totalmente para baixo e das suas ventas brotou, fraco, o último suspiro”

Para Georg Bendemann, em "O Veredicto", o fim é este:

"Queridos pais, mas eu sempre amei vocês! - e cedeu, caindo. Justo naquele instante havia sobre a ponte um fluxo interminável."

Na novela "Na colônia penal", o fim indica a morte de quem se deu e a angústia de quem ficou.

"Quando o explorador terminou de ler [a lápide] e se ergueu, viu que os homens se riam, como se tivessem lido com ele a inscrição e esta lhes tivesse parecido risível, e esperavam que ele compartilhasse dessa opinião. O explorador simulou não ter percebido isso, repartiu algumas moedas com eles, esperou até que tornassem a correr a mesinha sobre a sepultura, saiu da confeitaria e encaminhou-se para o porto. [...] Provavelmente queriam pedir-lhe no último momento que os levasse com ele. [...] Mas quando chegaram embaixo o explorador já estava no bote, e o barqueiro acabava de desatá-lo da margem."

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O que se faz incrível em Kafka é sua profecia, pois ele não viu os horrores das Guerras Mundiais (que foram o motivo do pessimismo filosófico que se consagra em Foucault). Ele pressente-as e as descreve em detalhes dolorosos. Escreve Le Blanc que:

"A angústia é consubstancial ao homem e define-se como participando do espírito; logo, ele não pode dela se libertar. Com efeito, se o homem não tivesse consciência da possibilidade, se não tivesse espírito, inteligência, ele não conheceria a angústia, de onde se conclui que a angústia está ligada à espiritualidade do homem. Em conseqüência disso, é tão impossível libertar-se da angústia quanto de si mesmo"

E agora?! O que fazer?! Saída no hay... ?!

(se quiser ler mais sobre Franz Kafka, clique aqui)


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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