a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

apontamentos sobre hoje

Não é novidade que o mundo se tornou uma grande fábrica de utensílios inúteis e pessoas irrelevantes.


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Não é raro que venham me perguntar "Por que você faz Direito?". Isso é compreensível, visto que é um mundinho onde muitos entram "porque dá dinheiro" ou "porque quero fazer concurso público". Bem, eu não entrei no mini-mundo do Direito por nenhum desses motivos, gosto mesmo de estudar norma, sanção, códigos e afins, gosto mais ainda de ver a dança dos valores e dos conceitos através dos tempos.

No ensino médio, fui um aluno que teve notas boas tanto em química, física, matemática, quanto em história, geografia e literatura. Mas nunca neguei que iria para a área das Humanas, o que causava estranhamento e até stress em algumas pessoas, já que "engenheiro ganha muito" ou "o mundo quer gente que trabalhe com tecnologia". Frases que fazem sentido - sentido até demais - nesse sistema-mundo instrumentalista.

A despeito - ou até em razão - disso tudo, fiz vestibular para Direito e passei. (Bem, se eu quisesse ser revolucionário e antissistema, eu faria Letras Clássicas, mas eu só estava atrás de uma miragem de felicidade mesmo)

Não é novidade que o mundo se tornou uma grande fábrica de utensílios inúteis e pessoas irrelevantes. Adorno e Horkheimer - dupla dinâmica da Escola de Frankfurt - já viram isso no início do século XX. Sabe-se que


“na modernidade, toda a racionalidade – o direito, a moral, a arte, a ciência – foi submetida aos ditames da racionalidade instrumental. [...] A tecnificação da vida vai desembocar no ceticismo ético, já que a razão instrumental, expulsando propriamente a razão do campo da moral e do direito, reduz todo o problema moral a um problema de ordem técnica”.

OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Ética e racionalidade moderna. São Paulo: Loyola, 1993.

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Leitores, eu vivo num país em que a Chefe - e nunca "Chefa" - de Estado soltou a segunda pérola: "Advogado é custo, engenheiro é produtividade."
Convenhamos, ela está certa. Mandar estudantes de Engenharia de (insira aqui o nome de qualquer área da vida humana) estudar em (insira aqui o nome de qualquer universidade dos Estados Unidos) é lucro, porque eles voltam cheios de informações e técnicas e vão produzir milhões de dólares em softwares e hardwares e qualquer coisa que facilite nossa vida corrida.

A coisa parece antiga, o Rimbaud já escrevia "Que século de mãos!".

O problema é que professores e quaisquer pessoas que lidem com outras pessoas são automaticamente jogados ao abismo de "revolucionário", "saudosista", "filósofo", "sonhador". O professor no Brasil é, antes de tudo, um forte.
Quando paguei a cadeira de Economia, meu professor avisou "Tomem os salários como dados". Não lembro de minha reação a essa frase, mas. Acaba acontecendo isso com todas as áreas da sociedade:

- Tomem os valores como dados
- Tomem os problemas como dados
- Tomem as soluções como dadas
e
- Tomem as esperanças como retiradas

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Olhar para a vida social e tomar algo como dado é o que nos faz desprezar filósofos e pequenas discussões sobre "Por que não?". Nos dolorosos tempos da "filosofia de microondas" - não consome mais que três minutos - a gente dizer que leu um livro de 500 páginas é motivo de escândalo e surge como resposta automática a ideia de que "não tem o que fazer mesmo".
Nietzsche só é o que é hoje por duas coisas: 1. Sempre tem aforismos - ou "aquelas frasisinhas" - pra compartilhar no Facebook ou no Twitter. 2. No fundo, no fundo, sua filosofia resulta num grande zero.

Nessa dolorosa dança, caem de fome a poesia e a esperança de ver um mundo melhor - nem que seja o nosso mundo. Os nossos sonhos deixam de ser realizações da alma e passam a ser um iPhone, ou um celular com WhatsApp, ou um Macintosh, ou qualquer coisa que se torne obsoleta em breve e ficaremos como loucos atrás da nova versão ou do novo modelo, sempre com uma nova utilidade inútil. E a angústia permanece. Somos especialistas em colocar o alvo mais para frente e colocarmos nele o todo da nossa felicidade. Isso não pode permanecer assim.

Como o título indica, são apenas apontamentos sobre hoje, sobre esses dias tenebrosos. Bem, mantenham a esperança, pois já escreveu o Apóstolo Paulo que "a esperança não traz confusão".

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Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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