a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

"Entre nós": cartas de um passado

O cinema brasileiro ganha mais uma preciosidade. "Entre nós" mostra o saldo detalhado de uma juventude intensa, marginal, pós-ditadura sob o olhar duro da vida adulta, acomodada, encurralada entre compromissos, emprego, família e responsabilidades. Mas cartas de um passado podem perturbar a ordem dos fatos.


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"Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los."

Assim definiu Jack Kerouac sua geração desregrada. Nesse espírito irreverente, a geração beat ganhou seu espaço no mundo da arte. "Entre nós" produz uma homenagem à juventude transviada, herdeira da revolta de poetas como Allen Ginsberg e Paulo Leminski, que o Brasil conheceu nos anos 70, 80 e até 90.

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O enredo começa em 1992, quando 7 amigos - todos poetas, todos marginais e revolucionários em potencial, todos bêbados - se reúnem numa casa do interior e conversam sobre seus escritos, seus amores e sobre o temido futuro. Acabam escrevendo cartas para seus eus no futuro, cartas que seriam enterradas numa caixa e só seriam lidas 10 anos depois.

Uma poética conversa anacrônica de egos. Uma poética do devir. Afinal o tempo - assim como o vento - sabe esculpir a beleza em terras desérticas.

Surpresa, no entanto, ocorre quando, após "enterrar" as cartas, Felipe (Caio Blat) e Rafa (Lee Taylor) pegam a estrada e acontece um grave acidente em que Rafa morre e Felipe sobrevive.

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Dez anos depois do enterro das cartas e da morte de Rafa, os amigos se reúnem novamente na mesma casa do interior. A roda viva havia atuado e amores haviam sido feitos e desfeitos, o sucesso havia chegado para uns e não para outros, a felicidade permanecia no horizonte, haviam constituído família ou não, haviam alcançado alguns sonhos, outros não.

O reencontro promove uma volta de sentimentos considerados mortos e a constatação mais clara: o tempo havia passado e mudado tudo.

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A leitura das cartas apenas coroa um clima de desordem entre o antes e o depois, entre o além e o aquém, o planejamento e a concretização. A vida regrada olha para o passado com uma fascinação reprimida: o amor espontâneo e a liberdade desenhada nas paredes da cela.

Parece que a juventude havia sido um "levantar poeira" em que qualquer miragem pode ser imaginada, mas o tempo passa e a poeira assenta deixando apenas o caminho árido a ser percorrido.

Com fotografia e iluminação incríveis, paisagens de tirar o fôlego e um enredo sobre tempos e cartas de um passado que permanece falando, "Entre nós" promete 1h37 de ótimas cenas e um bom tempo de ressaca existencial.

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Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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