a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

Um obituário e uma esperança

Porque sabemos que imortal é metáfora, a esperança é necessária e a morte é pontual.


Um mês de Julho não acabou ainda, mas já assaltou-nos irreparavelmente. Foram três os escritores que se encantaram nesse mês.

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Ivan Junqueira
Data de encantamento: 03/07/2014

Ivan foi poeta, ensaísta, crítico e tradutor (traduziu T.S. Eliot, Yourcenar, Proust e Baudelaire). Sua obra de esmero irretocável rendeu-lhe a cadeira nº 37 na Academia Brasileira de Letras (a mesma cadeira de João Cabral de Melo Neto e de Assis Chateaubriand). O imortal morreu aos 79 anos por falência múltipla dos órgãos.

"(Ali, no canto apagado da sala,
meu sorriso é apenas um brinquedo
que a mãozinha da criança quebrou.)

E o resto é mesmo tristeza.
"
Ivan Junqueira, no poema "Tristeza" do livro "Os mortos"

"O que é a imortalidade? Um sopro que nos carrega para os confins da orfandade,

onde o espírito se nega
e de si já não recorda
após a última entrega?"


Ivan Junqueira, no poema "Eternidade"

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João Ubaldo Ribeiro
Data de encantamento: 18/07/2014

Ubaldo Ribeiro foi romancista, ensaísta e cronista. Sua obra de originalidade clara, de brasilidade exalante e de pertinência surpreendente foi premiada com a cadeira nº 34 (sucedendo Castello Branco) da Academia Brasileira de Letras. O imortal, que venceu o Prêmio Jabuti (1972, 1985) e o Prêmio Camões (2008) morreu aos 73 anos em decorrência de uma embolia pulmonar.

"Amanhã" significa, entre outras coisas, "nunca", "talvez", "vou pensar", "vou desaparecer", "procure outro", "não quero", "no próximo ano", "assim que eu precisar", "um dia destes", "vamos mudar de assunto", etc. e, em casos excepcionalíssimos, "amanhã" mesmo. Qualquer estrangeiro que tenha vivido no Brasil sabe que são necessários vários anos de treinamento para distinguir qual o sentido pretendido pelo interlocutor brasileiro, quando ele responde, com a habitual cordialidade nonchalante, que fará tal ou qual coisa amanhã. João Ubaldo Ribeiro, em "A vida é um eterno amanhã", do livro "Um brasileiro em Berlim"


"Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas, que daqui a pouco chegarão com o mar. Vai morrer na flor da mocidade, sem mesmo ainda conhecer mulher e sem ter feito qualquer coisa de memorável."
João Ubaldo Ribeiro no clássico início de "Viva o povo brasileiro"

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Rubem Alves
Data de encantamento: 19/07/2014

Rubem era psicanalista, teólogo protestante, educador e escritor. Sua obra tinha traços de Eterno, o prolífico autor de mais 120 obras das mais diversas áreas, inclusive na literatura infantil. Venceu o Prêmio Jabuti em 2009. O imortal (sim, o imortal) morreu aos 80 anos em decorrência de falência múltipla dos órgãos.

"Sentia que o relógio chamava para o seu tempo, que era o tempo de todos aqueles fantasmas, o tempo da vida que passou… Tenho saudades dele. Por sua tranqüila honestidade, repetindo sempre, incansável, 'tempus fugit'. Ainda comprarei um outro que diga a mesma coisa. Relógio que não se pareça com este meu, no meu pulso, que marca a hora sem dizer nada, que não tem histórias para contar. Meu relógio só me diz uma coisa: o quanto eu devo correr para não me atrasar..." Rubem Alves na contracapa de seu livro "Tempus fugit"


"Para isto se escrevem as cartas de amor. Não para dar notícias, não para contar nada, não para repetir as coisas por demais sabidas, mas para que mãos separadas se toquem, ao tocarem a mesma folha de papel. (...) Quem quer que tente entender uma carta de amor pela análise da escritura estará sempre fora de lugar, pois o que ela contém é o que não está ali, o que está ausente. Qualquer carta de amor, não importa o que se encontre nela escrito, só fala do desejo, a dor da ausência, a nostalgia pelo reencontro."
Rubem Alves em "Cartas de amor"

Vão morrendo os imortais...

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Neste momento, está entre a vida e a morte (inelutável, iniludível) o escritor pernambuco-paraibano Ariano Suassuna que, com seu apego à cultura nordestina e erudição notável, ocupa a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras. Resta, pois, uma esperança. Porque sabemos que imortal é metáfora, a esperança é necessária e a morte é pontual.


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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