a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

Raça: a metáfora da dominação?

Já escreveu Fernando Pessoa: "O mito é o nada que é tudo"


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“O mito é o nada que é tudo”. Assim, o poeta português Fernando Pessoa (2013, p. 41) define a construção de um mito: algo como um edifício que é erigido sem possuir um fundamento; um nada que, por algum motivo, se transforma numa dita realidade totalitária e totalizadora. Desse modo, adentramos no caótico contexto de raça como “uma construção mental que expressa a experiência básica de dominação colonial e que desde então permeia as dimensões mais importantes do poder mundial.” (Quijano, 2005, p. 01).

Não é possível dissertar com completude acerca da construção do mito racial sem considerar a ideia da colonização, uma vez que “a ideia de raça, em seu sentido moderno, não tem história conhecida antes da América” (Idem, ibidem). É visível na conjuntura social moderna que o conceito de raça não se restringiu às pesquisas nem às classificações científicas e/ou demográficas, mas, principalmente “na América, a ideia de raça foi uma maneira de outorgar legitimidade às relações de dominação impostas pela colônia.” (Idem, ibidem, p. 02)

O manto pseudo-científico do etnocentrismo, tecido durante a dominação do europeu sobre os nativos, coube muito bem ao processo de colonização, que não raro tomou traços de um racismo modernizante , cujo objetivo era “fundamentar um projeto político” que seria “neoliberal no plano econômico” e “genocida no plano sociológico” (Borgoño, 2005, p. 3, tradução nossa).

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O racismo que se inventou na América faz parte de um processo sutil de criação do Outro – que se iniciou no campo racial, mas abriria caminhos para as segregações de cunho econômico-social e cultural – e a literatura figura com um papel importante quando “intenta constituir um mito de origem referido a um passado arquetípico e a um futuro idílico” (Idem, ibidem), ou seja, quando alimenta aspirações de “raças puras” ou visões românticas do encontro entre o colonizado e o colonizador, porquanto a realidade americana viu tal encontro como sangrento e mutilador em muitos níveis, uma vez que, nesse processo, os dominadores “reprimiram tanto como puderam [...] as formas de produção de conhecimento dos colonizados, seus padrões de produção de sentidos, seu universo simbólico, seus padrões de expressão e de objetivação da subjetividade” (Quijano, op. cit., p. 5)

O processo de invenção do Outro, enquanto aquele que não se rendeu ou não se adequou ao sistema do colonizador, como observa Santiago Castro-Goméz (2005), não para na construção ideológica, mas estende seu poder libidinoso à área do Direito – quando o Outro não é reconhecido pelo Estado como sujeito de direitos – e até a área da Gramática – quando o Outro não é reconhecido como reprodutor da língua, antes se configura como o produtor de vícios ou erros no sistema linguístico.

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A construção do conceito de raça serve diretamente à sedimentação do racismo na América Latina. Sendo assim, a História – que retira da dominação colonial a autoridade para usar a primeira letra maiúscula e se declarar como a portadora da versão oficial dos fatos – oferece uma explicação, e até uma justificação, para a distribuição racial no espaço urbano, no mercado de trabalho e nas classes sociais, mas a literatura merece destaque nessas leituras de mundo por se tratar de uma leitora singular dos acontecimentos e dos signos da própria história.

Uma prova do uso da visão de raça contada pela História, que sempre prega a identidade de uma nação construída como a amálgama harmônica de raças puras, é destacada pelo intelectual chileno Alvarado Borgoño, quando ele percebe que, em seu país, “há uma coerência entre os aparatos de segurança no tempo da última ditadura militar que sustentavam sua ação na defesa de uma identidade inexistente.” (2005, p. 06, grifo e tradução nossos) E tal identidade inexistente, quando defendida por um sistema totalitário, passa a tratar o Outro estrangeiro como considerou o médico chileno Nicolás Palacios (1918, p. 528), quando disse que o estrangeiro é “como certo vírus que penetra sem dor no organismo e sem dor estende seu poder letal até a própria fonte da vida”.

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Outra herança maldita do colonialismo – que, como tantas outras, permanece em vigência – é a unificação da alteridade. Este ponto tem exemplo claro nos estudos demográficos ao longo dos anos da dominação colonial, visto que, no início da presença européia na América, os pesquisadores ibéricos não pouparam esforços em identificar diferentes povos, culturas, rituais, memórias e identidades, mas, cinco séculos após a conquista, todas essas informações catalogadas reduziram-se a um rótulo: indígena. O mesmo ocorreu com os negros roubados da África para a América: entre zulus, bantos, congos e tantos outros, todos se reduziram a uma única identidade: negro. (Quijano, op. cit., p. 10). A rotulação de um indivíduo faz parte do processo moderno de reificação, enquanto coisificação da ideia ou objetificação do subjetivo, pois termina por reduzir um conjunto inestimável de memórias, heranças, identidades e características a uma só categoria: a raça.

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A invenção moderno-colonial da raça foi muitas vezes reforçada pelas produções literárias ao longo dos séculos, sendo o próprio academicismo uma forte herança cultural do colonialismo. Em prosa e em verso, os alguns escritores alimentaram uma visão idealizada do nascimento da nação e das relações colônia-metrópole, construindo mitos fundacionais (Hobsbawm, 1990), como intentou, por exemplo, José de Alencar com seus romances indianistas.

“Se considerarmos a História como a construção da vida e da realidade através do discurso – ou dos discursos dominantes –, José de Alencar tem o seu lugar como um ‘historiador’.” (Carvalho, 1998).

Alencar, em seu livro Iracema, propôs o nascimento do ser brasileiro como o encontro daquele que “tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas” (2014, p. 05) com a índia “virgem morena dos ardentes amores” (Idem, ibidem, p. 32). De onde se compreende que além de excluir o negro da composição da inventada brasilidade, o escritor faz do brasileiro “o primeiro filho que o sangue da raça branca gerara nessa terra da liberdade” (Idem, ibidem, p. 65), personificado no infante Moacir, o filho da dor.

Outros deram subsídios culturais para a infundada ideia de uma nação como raça pura, sob influências eurocêntricas, eugênicas e claramente racistas. No entanto, a literatura também foi, por vezes, arma usada contra o racismo. Escritores negros, mulatos e brancos utilizaram suas penas em prol da quebra dos paradigmas raciais e, frente às constatações sobre seus traços corporais e de sua cor da pele, perguntaram como o “Anjo Negro” do Simbolismo brasileiro:

“– Mas, que importa tudo isso?! Qual é a cor de minha forma, do meu sentir? Qual é a cor da tempestade de dilacerações que me abala? Qual a de meus sonhos e gritos? Qual a de meus desejos e febre?” (Cruz e Souza, 1961)


*Bibliografia utilizada:
ALENCAR, José de. Iracema. Disponível em: Data de acesso: 15/02/2014
CARVALHO, Isaías. Iracema: a suspensão do Outro em Alencar. Cadernos do Expogeo, Espaço Cultural Expogeo, Salvador, Vol. 09, Julho/1998.
BORGOÑO, Miguel Alvarado. La pulsión por la identidad: Nicolás Palacios, maldito y moderno. Literatura y Lingüística, Universidad Católica Silva Henríquez, Chile, núm. 16, 2005.
CASTRO-GOMÉZ, Santiago. Ciências sociais, violência epistêmica e o problema da “invenção do outro”. In: LANDER, Edgardo (Org.) A colonialidade de saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Colección Sur Sur, CLACSO, Ciudad de Buenos Aires, Argentina, pp. 169-186, setembro/2005.
CRUZ E SOUSA. Obra completa. Org.: Andrade Muricy, Rio de Janeiro: Aguilar, 1961.
MIGNOLO, Walter. La razón postcolonial: Herencias coloniales y teorias postcoloniales. Revista chilena de literatura, Santiago de Chile, n° 47, pp. 91-114, novembro/1995.
PALACIOS, Nicolás. Raza Chilena. Valparaíso: Imprensa y Litografia Alemana, 1904.
PESSOA, Fernando. Mensagem: Obra poética I. Org.: Jane Tukitian. Porto Alegre: L&PM, 2013.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade de poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (Org.) A colonialidade de saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Colección Sur Sur, CLACSO, Ciudad de Buenos Aires, Argentina, pp. 227-278, setembro/2005.


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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