a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

A surreal poesia de Murilo Mendes

Mendes, que foi chamado de "Mestre" por João Cabral de Melo Neto, entrega a plástica e o lirismo de excelência que compõe aos amores que solvem a própria vida num instante de arrebatamento. Gauche, o poeta ainda vê no amor o novo Éden, o inalcançável, o passado irreconstruível.


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"Ainda não estamos habituados com o mundo.
Nascer é muito comprido."

É assim que Murilo Mendes termina sua "Reflexão nº 1". Esse poeta mineiro nascido em 1901 carrega em si a marca do poeta do século XX, sua sensibilidade às divergências fá-lo um autor ímpar no século dos extremos: o século das vanguardas, das guerras, das ciências, da busca pela compreensão do lugar do homem na vida e no Universo.

Na esteira do Modernismo brasileiro, Murilo Mendes publica seu livro inaugural, de título simples, Poemas, em 1930. O livro já traz em si grandes influências do movimento surrealista francês, bem como a crítica ao ufanismo que marca a primeira fase do movimento modernista do País. O que se vê nos seguintes poemas:

"Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!"

Murilo Mendes em "Canção do Exílio"

"A noite é uma soma de sambas
que eu ando ouvindo há muitos anos.

O tinteiro caindo me suja os dedos
e me aborrece tanto:
não posso escrever a obra-prima
que todos esperam do meu talento."

Murilo Mendes em "Noturno resumido"

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Em 1934, Murilo Mendes converte-se ao Catolicismo, então sua veia surrealista, nutrida pela leitura dos franceses, ganha novos motivos. Assim, o poeta dos extremos recebe nova missão: comungar fé, o encanto científico e a crítica modernista em sua poesia.

Nesse sentido, Mendes, que fora criado lendo Alphonsus de Guimaraens, Baudelaire e Victor Hugo, tenta colocar na mesma tela estas influências e as que recebeu de Manuel Bandeira e Mário de Andrade. Logo, sua poesia torna-se uma poesia dialética, no sentido de unir opostos fazendo ascender suas comunhões e perder força suas incongruências. Por isso, Marcondes de Moura (em seu ensaio "As passagens do poeta") escreve que:

"A obra de Murilo Mendes se impõe muito mais pelas diferenças do que pelas semelhanças; seu lugar na história da lírica brasileira do século XX é antes deslocado e dissonante, como se as aproximações anteriormente sublinhadas fossem apenas de contorno ou de caráter muito geral. A tarefa maior, então, é tentar surpreender aquilo que a singulariza."

Assim, nessa persecução da comunhão de opostos, surge sua poesia católica surrealista, com temas incomuns e igualmente clássicos. A família parece ser um tema rotineiro na obra do autor mineiro:

"Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!
Cai no álbum de retratos."

Murilo Mendes em "Pré-história"

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Como católico, Mendes ainda fez presente também a marca sacra dos temas como pecado, culpa, perdão e Deus. Revelando elevada sensibilidade estética e religiosa, o poeta presenteia-nos com inefáveis imagens:

"Eu fui criado à tua imagem e semelhança.
Mas não me deixaste o poder de multiplicar o pão do pobre,
Nem a neta de Madalena para me amar,
O segredo que faz andar o morto e faz o cego ver.
Deixaste-me de ti somente o escárnio que te deram,
Deixaste-me o demônio que te tentou no deserto,
Deixaste-me a fraqueza que sentiste no horto,
E o eco do teu grande grito de abandono:
Por isso serei angustiado e só até a consumação dos meus dias.
[...]
Não me liguei ao mundo, nem venci o mundo.
Já me julguei muito antes do teu julgamento.
E já estou salvo porque me deste a poeira por herança."

Murilo Mendes em "Novíssimo Job"

Por fim, também o amor-eros lhe foi motivo recorrente. Mendes, que foi chamado de "Mestre" por João Cabral de Melo Neto, entrega a plástica e o lirismo de excelência que compõe aos amores que solvem a própria vida num instante de arrebatamento. Gauche, o poeta ainda vê no amor o novo Éden, o inalcançável, o passado irreconstruível. Falecido em 1975, Mendes deixa-nos uma obra inacabável em sentido e incessante em novidades.

"Minha amiga cruel e necessária, Berenice,
Deixa-me descansar a cabeça no teu seio
E sonhar um instante que não existo,
Que não existes, que não existe Deus,
Nem o mundo, nem o demônio, nem a vida, nem a morte."

Murilo Mendes em "O amor sem consolo"


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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