a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

Os retratos imorais de Correia de Brito

No dia do meu aniversário, uma das minhas maiores alegrias foi receber, de presente, um livro do Ronaldo Correia de Brito.


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No dia do meu aniversário, uma das minhas maiores alegrias foi receber, de presente, um livro do Ronaldo Correia de Brito.

Como leitor (e especialmente leitor pernambucano), eu já conhecia a fama e a boa crítica do autor e sempre namorei os livros do autor nas estantes das livrarias de Recife. Mas, sem grande razão, eu nunca levava pra casa uma obra dele. Já tinha chegado a ficar no café da livraria bisbilhotando as primeiras páginas, mas nunca levava. Até que ganhei o livro "Retratos Imorais" de aniversário (Meu Deus, amo essa vida).

Ronaldo Correia de Brito nasceu no Ceará e mora em Pernambuco. É médico formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Foi escritor residente na Universidade da Califórnia.
Se estas linhas fossem sobre outro autor, seriam notas biográficas bem dispensáveis. No entanto, quando falo de Correia de Brito, estas informações são imprescindíveis para compreender a sua obra. E menos prescindíveis ainda quando falo do "Retratos imorais", que, segundo o próprio autor, "não se prendem a um modelo comum de narrativa que caracteriza o conto, podendo assumir o formato de ensaio, crônica, anedota e até mesmo perfil biográfico." (p. 182)

O conto que abre o livro é "Duas mulheres em preto e branco" é de uma plástica absurda. Além das sutis ironias sobre a dinâmica social recifense, a discussão entre duas amigas de anos é apenas uma deixa para que a pena de Correia de Brito volta e meia se torne um pincel e desenhe cenas maravilhosas, imagens que falam por si só. Para mim, a cena mais incrível (e, portanto, a que me obrigou a reler o conto várias vezes) é a seguinte:

"O quarto revirado lembra a passagem do tsunami ou do furacão Katrina, um aposento de New Orleans fotografado por Robert Polidori, o caçador de desastres. Abajures arrancados das tomadas, gavetas de armários e cômodas abertas, poltronas de pernas para cima; a cama sem lençol, cortinas fora dos trilhos, meias, sapatos, vestidos, camisas e gravatas arremessados na raiva. Falta apenas lama recobrindo o cenário. Na zona onde a placa tectônica da Índia mergulha por baixo da placa de Burma, uma ruptura liberou a energia que fez surgir ondas gigantescas no Oceano Pacífico. Uma carta anônima desencadeou o tsunami de Letícia. Os ventos varreram a confiança no marido e na amiga. Num relance de espelho, Letícia sentiu-se a Louisiana abandonada." (pp. 12/13)

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O segundo conto, no entanto, afasta-se do centro urbano, mas sem perder o viés autobiográfico. "Romeiros com sacos plásticos" é outra obra que mais parece o folhear de um livro de fotografias, tal a quantidade de imagens que o auto cria. Como o nome prenuncia, o conto versa sobre a liturgia da romaria e suas cenas familiares tão próprias. No descrever do ideário católico nordestino, Correia de Brito anota que "todos se impõem uma via sacra de penitências e, enquanto não a cumprem, sentem-se impuros, cobertos de sujeira e pecados." (p. 35)

Talvez o mais forte em lembranças, "Pai abençoa filho" mistura memórias do autor com cenas bíblicas e outros takes rotineiros, sem esquecer a dinâmica dos seios familiares. E o faz de modo estupendo. Fala, por si só, o trecho: "Apertei suas mãos sem dizer uma única palavra, os dentes cerrados. Se deixasse escapar um singelo adeus, o açude represado de lágrimas romperia. [...] Eu me formaria em Medicina, levaria os irmãos mais novos ao Recife e ajudaria a educá-los. Árduo compromisso. Assumi-o no lugar do irmão mais velho, que se recusou a deixar a casa onde nascera. [...] Sem artimanhas nem disputas, sem intervenção da mãe passional, Jacó vencia Esaú." (p. 39)

Em "Catana", o autor revisita cenas do exercício da medicina. O conto acompanha um cirurgia em plena madrugada executada em um criminoso ferido por um cirurgião de já deveria ter largado. Em torno da problemática moral que envolve o ato, exsurgem lembranças e falas da equipe médica que efetua o procedimento.
O que parecia mais uma intervenção cirúrgica revela-se uma verdadeira Caixa de Pandora de onde se pode esperar qualquer coisa. Mais imagens maravilhosas e reflexões para serem degustadas por dias (meses, anos, toda a vida, com sorte).

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Em "Homem atravessando pontes", Recife é protagonista, e não apenas pano de fundo. As vias da cidade participam (e ouso dizer que guiam) a história. Um homem faz uso de um percusso para rever a própria vida. Os amigos, a esposa excêntrica, o sexo tântrico, os ecos do passado, tudo parece ajuntar-se num mosaico harmônico.

"Homem folheando álbum de retratos imorais" é, provavelmente, o ponto alto da obra. Não consigo tecer comentários senão indicar a leitura. O mote da aproximação sorrateira da morte irradia uma forte poesia sobre Deus, tempo, amor e vida.

As relações amorosas voltam à tona em "Homem com gastrite erosiva moderadamente leve". É a história de um representante de vendas que se utiliza de suas técnicas profissionais para empreender um relacionamento, num ônibus executivo noturno. A questão, que poderia ser inócua, faz surgir um vínculo pecaminoso e longo até que "antes que ela chegasse à cifra de 300 orgasmos plenos, ele confessou estar apaixonado por outra amante. Perdera o interesse no esquema que mantinham. A mulher chamou-o de cafajeste e cruel." (p. 144) O detalhe irônico reside no fato de que ela era casada desde que o conhecera, desde a vez do ônibus. O curto conto é um primor de ironia e percepção fática invejáveis.

Esses foram apenas os meus apontamentos do livro. A leitura é, como já disse, um folhear de livro de fotografias magníficas, fotografias panorâmicas, naturezas-vivas, autorretratos morais, retratos imorais. É, indubitavelmente, uma obra que compõe o repertório que melhor se produz em literatura nesta Terra de Vera Cruz.


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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