a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

Novas bodas em Caná, da Galileia de Correia de Brito

A Fazenda Galileia, sede do romance de Ronaldo Correia de Brito, é o local singular em que o imanente roça sua pele contra o transcendente, e desse atrito surgem fagulhas que lampejam, no fim e ao fundo, a beleza do Absoluto.


Entre meu último artigo publicado aqui e este que há de se espraiar pelas próximas linhas, eu conheci pessoalmente o escritor Ronaldo Correia de Brito, em virtude justamente o último artigo. Marcamos um café na Praça de Casa Forte (em Recife, para quem não conhece) e conversamos sobre quase tudo. Foi uma tarde incrível, que acabou por adentrar à noite, motivo pelo qual conscientemente abri mão da minha aula de Direito Empresarial, que seria a primeira aula daquela sexta-feira.

Mas, enfim, o artigo não é sobre nosso café, e sim sobre o livro "Galileia", provavelmente a magnum opus do autor, pelo menos certamente é sua obra mais aclamada pela crítica, sendo vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura. No dia do café, eu ainda não tinha chegado nem à metade do livro, então nem me aventurei nas impressões. Bem, finda a leitura, aventuro-me agora.

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O livro conta a história de um retorno, mas o retorno narrado não é meramente tópico - no sentido de voltar à terra natal - mas também cronológico. E com isso eu quero tentar dizer que voltar a Fazenda Galileia é, para Ismael, Davi e Adonias, um volver ingrato e revelador ao que ficou pendente do passado.
Advindos de outras terras, nas quais aprenderam a viver fingindo como se a passada Galileia não existisse, os filhos voltam como quem está para encontrar uma lembrança recalcada, cientes de que muito lá ainda está a falar.

Galileia é, na verdade, a fazenda em que a história dos Rego Castro desenrola-se, desde seu despontar ao seu auge virtuoso, e disso à completa decadência. Uma genealogia tão cheia de meandros como a do próprio Cristo, que abre o Evangelho segundo Mateus, envolvendo mortes crueis, profetas silenciados, pecados ocultos e virtudes inominadas.

Adonias, Davi e Ismael são três Rego Castro que deixaram Galileia com sede de novos horizontes. Mas a proximidade anunciada da morte do patriarca Raimundo Caetano traz-os de volta à fazenda e, por conseguinte, reacende lembranças.

O romance, por tratar de um relato notadamente sertanejo, baseia-se com força recorrente nas tradições orais e no poder emanado do contador de história, essa figura quase mítica na dicção da qual redesenha-se a verdade dos fatos e a sabedoria da vida.

"Com o passar do tempo, adaptam os nomes desconhecidos ao vocabulário local, os princípios alheios aos seus, e de palavra em palavra recriam as narrativas. Surgem fábulas, novelas e romances conforme os sonhos e as necessidades de quem narra. Tio Salomão garante que dessa maneira se formaram as lendas da família Rego Castro, sobretudo as que se referem ao nosso passado ibérico e holandês."

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As metáforas que ornamentam o romance criam imagens riquíssimas que inserem na esquecida e desolada Galileia situações de profundo caráter existencial, tangendo temas universais como o amor, o desamor e a morte. Raimundo Caetano, o patriarca, personifica a força mítica do pai de família sertanejo, essa postergação do pater familias romano, sacerdote do deus familiar, encarnado no sobrenome que vincula tanto quanto o sangue. Por isso, sua morte ameaça a continuação da história cujo início é indefinido, porquanto turvado pelas muitas histórias contadas, mas que parece ver bem próximo o seu fim.

"As pernas paralíticas não embalavam o corpo, o corpo não adormecia a mente, a mente trabalhava sem trégua, tecia rolos de fio de pensamentos, como os teares em que se fabricam as redes. Enredado nas lembranças, sem ter mais ninguém a quem abrir o coração, porque era o último da sua espécie, Raimundo Caetano sentiu-se condenado à morte sem direito a apelação."

Os três homens, experimentados nas capitais e mesmo no Exterior, chocam-se ao reencontrar a Galileia. Longe dos tempos de abastância, a fazenda é retrato da decadência - e do desaparecimento gradual de um modo mui peculiar de ver e viver. Adonias, ao ver o cenário, dispara: "Quanto mais olhava aqueles túmulos azuis e brancos, o terror aumentava. Cadê as glórias do passado sertanejo, exaltado por genealogias e historiadores? Só me caberia um cemitério insignificante, num lugar esquecido."

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Os nomes das personagens não são escolhas vãs. A abundância de nomes de origem bíblica acaba por vincular cada ente ao seu desfecho trágico. Ismael é o filho bastardo, renegado por seu pai, vertido com uma estranha ao seu povo, assim como o filho de Abraão com sua escrava. Salomão vive metido em seus livros, sempre em busca da razão das coisas, do mesmo modo que o monarca israelita. Natan vive querendo ter razão, tal qual o profeta que alertou Davi de seu pecado, na narrativa hebraica. Davi, por sua vez, é músico, assim como o monarca salmista do povo hebreu.

Inobstante a ocorrência dos nomes, cenas da narrativa bíblica são revisitadas no romance com novos tons. Eu, que venho de uma família com quatro gerações de cristãos protestantes, tive profunda catarse ao rever as imagens que construí lendo a Bíblia. A cena da morte do filho adulterino de Davi com Bate-Seba é realmente inconfundível.

Além da poesia vertida nas imagens que Correia de Brito constrói na mítica fazenda, não escapa a fina ironia que o escritor dedica à vida frívola e mesquinha das capitais. Eu particularmente ri muito com o trecho: "Acontece cada história absurda nesses intercâmbios. Algumas crianças não se adaptam às famílias que as recebem, e mesmo assim os pais insistem em mantê-las fora de casa, a custo de uma carga de sofrimento muito alta. Mas se os filhos não estudarem longe, sobre o que conversarão esses profissionais de classe média, nos aniversários e casamentos?"

Ainda a aforística do romance é de uma maestria rara. Cirúrgico em alguns pontos do livro, o autor sintetiza pensamentos em lances rápidos de poesia. "Toda compulsão vive de um pagamento adicional."

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Chegando ao fim destes comentários, as figuras femininas da história têm um papel curiosamente central no desenrolar dos fatos, mas falam muito pouco na narrativa. A matriarca, por exemplo, tem parte em todos os grandes fatos da tragédia familiar, mas fala pouquíssimo. Suas falas são, na verdade, sugeridas, entrevistas na ordem das coisas, nos acontecimentos de Galileia.

"Investigo cenas do feminino camufladas em jarros de flores, louças de barro pintadas à mão, caramanchões de buganvília. Pequenos sinais de mulheres silenciosas, aparentemente submissas, explodindo aqui e acolá em toalhas bordadas, redes com marcas de ponto cruz, cortinas de franja, panos e colchas."

O romance Galileia apresenta um casamento. Assim como as famosas bodas em Caná da Galileia, em que Jesus realizou seu primeiro milagre notório - transformar água em vinho -, a narrativa de Ronaldo Correia de Brito promove uma interação quase erótica entre o tangível e o intangível, a fazenda é uma amálgama sinuosa de presente e passado, bênção e maldição, amor e morte. Mais que uma tragédia familiar, afigura-se como uma sequência de retratos ostentando a decadência de um existir que parece esmorecer.

A Fazenda Galileia, sede do romance de Ronaldo Correia de Brito, é o local singular em que o imanente roça sua pele contra o transcendente, e desse atrito surgem fagulhas que lampejam, no fim e ao fundo, a beleza do Absoluto.

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As citações deste artigo postas em itálico e entre aspas foram retiradas do livro: CORREIA DE BRITO, Ronaldo. Galileia. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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