a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

Das sombras, o amor visto por Correia de Brito

"O amor das sombras" é, como o nome insinua, uma gôndola a conduzir o leitor sob doze túneis frios, úmidos e escuros, entoando lembranças de paixões nutridas em noites densas e consumidas no findar das madrugadas. Na ausência da luz, o amor aparece como um tubérculo, alimentado no anonimato subterrâneo até deixar escapar uma folha na superfície.


Completo aqui a trilogia desta coluna sobre a obra do Ronaldo Correia de Brito com seu livro mais recente: "O amor das sombras", lançado oficialmente no dia 31 de Agosto de 2015, última segunda-feira. Falo disso com certa propriedade e pontual alegria, porque lá estive e participei do bate-papo da noite de publicação, juntamente com o autor e o professor Anco Márcio Tenório, do Centro de Artes e Comunicação da UFPE.

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"O amor das sombras" contém doze contos de insônia. "Noite", "Bilhar", "Amor", "Véu". Os títulos curtos contrastam com a longevidade quase incontornável dos questionamentos que abarcam e propõem. Os contos enunciados por, algumas vezes, não mais que três sílabas ensejam reflexões que podem nos incomodar por meses, anos - talvez toda a vida, com sorte.

Tenho comigo a impressão - construída sem muitas reflexões longevas - de que um bom livro de contos está entre o acorrentamento espartano dos contos compilados (que não é legal, definitivamente) e a total desconexão dos textos (que igualmente não é legal). Bem, "O amor das sombras" está nessa aurea mediocritas, nesse caminho dourado do meio, em que os contos não possuem uma ligação óbvia e simultaneamente não são totalmente desvinculados, mantendo uma relação sutil e muito sofisticada de intertextos que surpreendem o leitor.

Como é recorrente na obra do Ronaldo Correia de Brito, as narrativas são eminentemente familiares ou são tecidas com fios que perpassam o seio familiar, em maior ou menor grau. A poesia de alguns momentos pouco explicáveis, de cenas sem razões muito claras, é arrebatadora, prometendo conduzir o leitor a um nível mais profundo de perguntas sobre as personagens, podendo descobrir - eventual e muito provavelmente - algumas respostas para dilemas próprios nos empasses vividos pelas pessoas que figuram nos relatos.

Para não ficarmos nos elogios abstratos - e, por definição, distantes - selecionei três contos para comentar. Não necessariamente os meus prediletos, mas certamente os que creio mais aptos a serem como estandartes do conjunto que o livro forma. Os contos "Noite", "Bilhar" e "Amor", cada qual a seu modo, representam bem o animus que guia, ainda que imperceptivelmente, todo o livro.

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"Noite" abre o livro. E é um abre-alas maravilhoso. Num cenário duro, seco e escuro, uma família estagnada no tempo - cuja casa é iconicamente um museu aberto à exposição - vê a marcha impoluta e igualmente sorrateira da modernidade, revolucionando os valores que regem as relações interpessoais. Do peso à leveza. Os Limaverde Pinheiro sentem as muralhas de sua cidadela ruírem quando Rafaela, uma jovem da família, morre ao fugir com um dos trabalhadores da fazenda. O namoro promissor destruído em nome dessa paixão fugaz e fulminante é sinal incontornável de que novos ventos sopram a areia do semiárido terreno da grande família.

A ousadia da jovem devasta o mundo de alguns parentes, mas em Mariana, tia já idosa, o efeito é poderosamente diverso. Mariana, já velha, vê na morte gloriosa - e já se verá a glória do ato pecaminoso - um passado possível, porém não efetivado. Mariana vislumbra na morte libertadora de Rafaela a memória de um caminho não percorrido. É a glória que só o amor - no sentido ensaiado por Shakespeare e erigido por Werther - pode dar à morte: a glorificação do instante impossível da plenitude humana, a glória do sacrifício por si.

Mariana, em virtude do ato erótico-sacrificial de Rafaela, lembra-se de uma pequena loucura que cometera quando mais jovem, quando viajou para conhecer a esposa de seu irmão, que acabava de ficar viúva em razão da morte trágica deste. Então a velha confessa:

"Falei o quanto desejava conhecê-la, descobrir por que meu irmão se apaixonara tão perdidamente, a ponto de ser mandado para outra cidade, o que resultou na sua morte. Lindalva começou a chorar e pediu que eu não a culpasse, sempre achara que só trazia infelicidade às pessoas. Num impulso me abracei com ela, apertei-a contra o meu peito e comecei a cheirar seu pescoço, os cabelos, o busto, as axilas, buscando o perfume de Alcides, uma lembrança física do irmão tão desejado. [...] De repente, entrou num quarto e voltou com um retrato de Alcides, o último que ele havia tirado no Exército. [...] Eu não despregava os olhos da foto, parecia ter reavido Alcides. _ Tome, ela disse. Você amou esse homem bem mais do que eu."
Ronaldo Correia de Brito, em "Noite", do livro "O amor das sombras".

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"Bilhar", por seu turno, sucede imediatamente "Noite". O conto permanece na investigação obscura e sombria (que parece inspirar o título do livro) das raízes mais profundas de certos temores e de alguns desejos. Num cenário árido e escasso de sofisticações, cresce uma família cercada por traições, doenças e mortes. Fantasmas que disputam com os vivos a oportunidade de falar. O nome encontra seu motivo quando, numa disputa de sinuca, dois homens decidem, sem ter noção do que punham em jogo, seus respectivos futuros.

Numa valsa de adeuses (e devo a expressão a M. Kundera), os casais do conto parecem ser cada vez mais frágeis, vez que expostas são suas feridas e mostram-se bem solúveis os vínculos que os ligam. A disputa por Diana dos Anjos travada entre Oscar e Alfredo numa mesa de sinuca é apenas um dos muitos sinais da vaidade que corteja os casamentos do relato.

Nesse meio mítico, em que pouco se sabe da fronteira entre a verdade e o inventado, José, o filho do casal inconstante, precisa de um referencial para guiar-se em sua vida. Num poema de Quevedo, de um espanhol barroco inacessível, o jovem parece encontrar alguma corda apta a salvar-lhe do poço que era aquele caos familiar particular.

"A sombra desaparece na parede. Só os mortos não possuem sombras. Alfredo morreu e eu continuo a desejá-lo e temê-lo. Preciso devassar a casa, porém meus pés não desgrudam do chão. Lembro a Samaritana, a água pura da fonte, as promessas de amor e vida conjugal. No caminho de todas as aldeias existe um poço e uma mulher oferecendo água e matrimônio. Alfredo me promete a queda. Tento percorrer com a vista as lombadas dos livros nas estantes. Não consigo."
Ronaldo Correia de Brito, em "Bilhar", do livro "O amor das sombras".

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Por derradeiro, comento "Amor". Este conto é, sem qualquer sombra de dúvida, uma obra-prima. Provavelmente foi o texto que mais me impactou e me fez sublimar em divagações em todo o livro. O "Amor" de Correia de Brito aproxima-se muito do "Amour" de Haneke, porquanto ambos empreendem esforços no sentido de ressignificar o termo tão desgastado. No lugar das pieguices rotineiras, o autor coloca uma relação fria e sombria que acorrenta toda uma família. O lar verte-se em porão. O patriarca detém as chaves da casa, dos céus e do inferno, manipulando todo o cosmos familiar.

Enclausuradas neste porão - disfarçado de lar -, a esposa e as filhas só possuem um caminho para sobreviverem: imaginar o mundo lá fora com o que entregam os outros sentidos, que não a visão, vez que esta resta aferroada aos muros da casa. O que não obsta - por óbvio - a pontual ressurgência de um incontinente e violento desejo de liberdade. O conto guia o leitor num caminho fantástico de construção de imagens com o que a memória imperceptivelmente suscita. Repito: uma obra-prima.

"Palpitantes, mãe e filhas sonharam com a liberdade na rua. Mas a chave da porta estava no bolso do homem que só chegaria depois. Até ele voltar, Delmira não conseguiu fazer uma única tarefa doméstica. Os olhos ficaram presos na mágica aparição, o corpo tonto de música desejando rodopiar e subir pelos ares."
Ronaldo Correia de Brito, em "Amor", do livro "O amor das sombras".

Creio suficientes as notas pontuais. "O amor das sombras" é, como o nome insinua, uma gôndola a conduzir o leitor sob doze túneis frios, úmidos e escuros, entoando lembranças de paixões nutridas em noites densas e consumidas no findar das madrugadas. Na ausência da luz, o amor aparece como um tubérculo, alimentado no anonimato subterrâneo até deixar escapar uma folha na superfície.


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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