a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

Quando a objetiva nos torna sujeitos

Milan Kundera vai além da constatação de que as objetivas preferem os corpos belos em seus vestuários opulentos, ele percebe o real motivo que faz com que estas câmeras movam-se de seus alvos contumazes: a desgraça.


"O olho de um só era substituído pelos olhos de todos. A vida transformara-se numa única e vasta orgia sexual na qual todo mundo participa. Todo mundo pode ver, numa praia tropical, a princesa da Inglaterra festejar nua o seu aniversário. Aparentemente, o aparelho fotográfico só se interessa por pessoas célebres, mas basta que um avião se espatife perto de você, que saiam chamas da sua camisa, para que você se torne célebre e incluído na orgia geral que nada tem a ver com o prazer, mas anuncia solenemente que ninguém pode se esconder em lugar nenhum e que cada um está à mercê de todos."
Milan Kundera, em "A imortalidade"

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O livro "A imortalidade", do escritor tcheco Milan Kundera, é de 1990, mas seu poder profético é implacável. Não é necessário ir muito longe para perceber que as câmeras fotográficas (oportunamente chamadas de "objetivas") continuam preferindo as belezas reais, globais, a despeito da grande massa de rostos comuns. Mas Rimbaud estava certo: o verdadeiro poeta (e aqui estendo ao escritor de modo geral) é um vidente. A literatura é uma grande profecia, muitas vezes catastrófica, sem sombra de dúvida.

Kundera vai além da constatação de que as objetivas preferem os corpos belos em seus vestuários opulentos ou mínimos, ele percebe o real motivo que faz com que estas câmeras movam-se de seus alvos contumazes: a desgraça.

A desgraça é, por sua vez, um conceito que merece um olhar mais demorado. É eminentemente cristão: desgraçado é aquele que está longe da Graça de Deus, que foi destituído do poder de habitar sob a Sombra do Eterno. Mas o mundo foi desencantado, como percebeu Weber, Deus saiu das equações filosóficas contemporâneas correntes. Então, hoje, desgraçado é aquele que foi destituído da graça estatal, é aquele cujo direito ao acolhimento e à pátria (num sentido lato) lhe foi furtado.

O desgraçado do século XXI já não é o abandonado por Deus, mas o abandonado pelo Estado, que tanto promete e tão pouco faz. E a fotografia o quer.

O menino caído é, antes de tudo, um sem-nome. Saber seu nome não faz qualquer diferença. A fotografia o imortaliza em seu momento de desgraça, e isso, por si só, já basta aos famintos olhos das multidões. Simon Schama, em seu livro "O poder da arte", destaca que a Arte, aparentemente plácida e silenciosa, pode gritar a qualquer momento e retirar-nos, ainda que momentaneamente, deste mundo frívolo e repetitivo, conduzindo-nos a um outro nível de vínculo com a Humanidade.

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Aliás, repetição é uma palavra oportuna para versar sobre a polêmica foto. A imagem da criança síria morta na praia turca é, simultaneamente, uma repetição e a cessação de outra repetição. Explico. A ideia é, prima facie, uma loucura, mas logo se apresenta de modo claro.

A imagem da desgraça humana materializada numa criança definitivamente não é novidade. Como percebeu o Grupo de Estudos "Desconstrução e Direito", "a criança na praia é o retorno do menino vigiado pelos abutres, que é o retorno dos pivetes aquecidos pela calçada. Sempre mais uma vez de uma vez esses eventos nos chegam, nos chocam e nos conformam a uma passividade de piedade e medo. A repetição infernal é uma violência ainda mais brutal e ideológica, porque leva a acolher o destino dessas vidas como findos, porque esvazia aquilo e aquele que vem, para que volte ao normal do cotidiano."

No sentido proposto pelo D&D, a imagem não passa de uma nefasta repetição do mal, banalizando-o até que se aceite em silêncio barato. As mortes históricas, ápices das atrocidades (des)humanas, passam à normalidade, incorporam-se lentamente à nossa imagem de mundo. A tragédia - ou melhor, a desgraça - passa a compor a naturalidade da vida.

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De outro viés, a imagem é uma estagnação, uma interrupção de circuito - e nisso reside certa esperança. Cada um desses arroubos provocados pelo espanto de uma obra são canais potenciais à plenitude de ser. Cada obra inquietante tem o potencial condão de abrir um pouco mais o nosso campo de visão, fazendo-nos ver muito mais do que antes víamos. Em meio às frivolidades da vida virtual, imersa em seus joguinhos e retweets insignificantes, surge algo com o poder de absorver nossa energia vital, mesmo que por alguns instantes. Por isso, a imagem da criança morta na praia pode carregar-nos a um novo horizonte, em que poderemos enxergar os Outros.

E quando falo "Outros", refiro-me aqui ao conceito tecido por Santiago Castro-Goméz, em que o Outro é todo aquele que eu digo ser o que corrompe tudo aquilo que eu e os meus construímos: a língua, a cultura, a estrutura social, etc. O menino morto era um Outro até ser capturado pela objetiva, mas sua desgraça observada tornou-o sorrateiramente um sujeito, nós começamos a ver nele um alguém - e não mais um algo, um invasor, um fugitivo. Vimos nele alguém desgraçado. Mas sobretudo um Alguém, capturado em virtude de sua desgraça.

Mas não sabemos quando virá a nova repetição a estagnar nossa vida frívola e reiniciá-la, embora saibamos que certamente virá.

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Este artigo é publicado com especial agradecimento ao Grupo de Estudos "Desconstrução e Direito", cujo texto aqui cito e que me perturbou por dias. Lembrando Kafka, quando escreveu que não queria saber da literatura que não fosse um soco no estômago.


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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