a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

nós, os judeus e as palavras

Uma grande percepção de Amós Oz e de Fania Oz-Salzberger é a de que o Deus de Israel é notadamente verbal. O Eterno ama usar palavras. E Seu povo parece ter aprendido a amá-las com a mesma força.


Estava passando tranquilamente com uma amiga pelo expositor central de uma livraria no Recife, quando vi o livro "Os judeus e as palavras" do Amós Oz com sua filha, a historiadora Fania Oz-Salzberger. O espanto foi inevitável. Eu já tinha lido algumas resenhas em sites internacionais quando do lançamento em inglês do livro, em 2012, salvo engano. Lembro de, na época, ter ficado fissurado no assunto - que, na verdade, sempre me interessou. Com um atraso de uns 3 anos em relação àquelas resenhas, segue a minha.

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Eu conheço a literatura do Amós Oz há um bom tempo. Comecei por acaso lendo "A caixa preta", de onde corri para "Judas" e "Cenas da vida na aldeia". Todos livros muito bem demarcados culturalmente: são judeus num mundo não-judeu. O choque de valores seculares contra o resistente mundo judeu está sempre na literatura do Oz. O que se explica quando se diz que o Amós Oz é um judeu agnóstico profundamente sionista.

Esse sionismo todo guia todo o livro, mas não chega a incomodar quem discorda substancialmente do Oz. O foco do livro é outro. E os escritores não escondem isso. Já nas primeiras páginas, os autores explicam que a ideia que guia toda a obra é a explicação de uma genealogia literária (e não literal) que constrói o mundo judeu. A despeito daqueles que usam a miscigenação para infirmar a tese da identidade judaica (e com isso solapar a ideia de um Estado de Israel), Amós e Fania soerguem a tese que eles próprios chamam, já no início do livro, "povo geológico" cujos anais históricos devem ser medidos com outras medidas.

"Se a Palavra - falada e escrita, recitada e citada - é a verdadeira chave da continuidade judaica, então qualquer tentativa de construir ou demolir o pedigree físico judaico deve ser deixada de lado. Independentemente da obrigação de casar-se dentro do rebanho, declarada desde Esdras e Neemias até a corrente ortodoxia, a continuidade judaica nunca se calcou em linhagens sanguíneas. [...] Nossa história não trata do papel de Deus, mas do papel das palavras. Deus é uma dessas palavras." (p. 65)

Assim, os autores começam a construir uma tese maravilhosamente inovadora: uma genealogia verbal. E, desse modo, o livro torna-se um meta-texto: pai e filha escrevendo sobre heranças verbais. O haver um livro escrito por pai e filha, em conjunto, sobre a genealogia verbal judaica já fundamenta o mote. Como arrematam - abrindo mão de uma modéstia que realmente seria inconveniente se houvesse -,"O Povo do Livro exibe, portanto, longas linhagens que fazem perfeito sentido. Se você for leitor." (p. 66)

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A profundidade e a verve de Amós Oz fundida ao conhecimento absurdo da Fania Oz-Salzberger fazem o livro ser uma pérola para qualquer curioso, ou estudioso, de História da Linguagem. Sem deixar de lado os registros canônicos, os autores vão fundo na pesquisa sobre as fontes orais do povo hebreu, com ênfase aos relatos mishnaicos e talmúdicos, trazendo imagens maravilhosas de tempos imemoriais e inimagináveis, como a discussão de um Rabi com o próprio Deus - debate em que Deus cede parcialmente de sua interpretação.

Uma grande percepção dos autores é a de que o Deus de Israel é notadamente verbal: Ele cria o mundo fazendo uso de palavras; Ele ordena que Moisés escreva a história do mundo e, principalmente, que escreva os Mandamentos; Ele usa profetas para falar com seu povo, e às vezes dialoga diretamente com os eleitos; Ele ordena que andem com filactérios atados ao corpo, com trechos da Torá; Ele manda que os pais conversem com seus filhos sobre a Torá a todo tempo. Enfim, o Eterno de Israel ama usar as palavras.

Os judeus parecem ter aprendido o amor às palavras, porque, como anotam os autores, "a profecia é mística, mas a exegese é humana." Na suficiência da Escritura, os Rabinos restam com a difícil missão e o imenso poder de interpretar o dito pelo próprio Deus, porque, nos termos da Torá, "segundo a maioria deve se inclinar". Assim, o conselho rabínico (que depois se tornaria um órgão judicante) torna-se o legítimo intérprete da fala divina, com raríssimas concessões.

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As palavras de Amós e Fania abrem um verdadeiro abismo entre a tradição judaica e a tradição cristã, evidenciando que se falar em "tradição judaico-cristã" (expressão que eu mesmo usei muito na vida acadêmica) é de um reducionismo espartano incalculável. Os autores destacam na tradição judaica um "chuzpa", um descaramento, um atrevimento diante do Eterno, uma ausência de pudor em negociar com o próprio Deus. Coisa que nunca se vê na tradição cristã.

Além desses apontamentos incríveis, Fania Oz-Salzberger lembra-nos que nenhuma tradição antiga teve tantas mulheres vocais. Ela recorda que, segundo o relato bíblico, todas as mulheres de Israel seguiram Miriam cantando depois que atravessaram o Mar Vermelho; também Débora cantou seus hinos do alto do posto de Juíza em Israel; ainda Ana, a ex-estéril, tem registrado seu canto in verbis no livro escrito por seu livro, o profeta Samuel. À semelhança do seu Deus, as mulheres hebreias são profundamente verbais e vocais.

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À despeito da construção rabínica de silêncio feminino, a autora anota que o relato bíblico, e mesmo o talmúdico, nunca silenciou as mulheres. Além disso, não citam mulheres apenas como cantoras ocasionais, mas também como conhecedoras da tradição e hábeis utilizadoras desta. Tamar, por exemplo, usa a tradição para retomar seu posto de parente de Judá, o patriarca, numa história eletrizante que termina com uma frase clássica: "E disse Judá: 'Ela é mais justa do que eu!'"

Ainda sobre as mulheres vocais, os autores ressaltam figuras como a de Osnat Barazani: judia e rabi, a despeito de toda a estrutura patriarcal. Seu nome é citado com louvor, em virtude do poderio de seu conhecimento, em meio a um mar de homens velhos. Ademais, não são raros os casos de Rabinos que, ao alcançarem tal status, deixam claro que ali estão em razão do trabalho intelectual de suas mães. "As crianças e os livros. Os ossos da continuidade." (p. 114)

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E ninguém diga que esta tradição incita o engessamento do conhecimento. Na criação dos filhos, o espírito "chuzpa", descarado, atrevido, intrometido, volta. Como lembram os escritores:

"Não importa que a Torá seja inteira e eterna. Não importa que as cabeças mais formidáveis da história judaica estejam observando você do banco simbólico no fundo da classe. Espera-se que todo garoto no seu Bar Mitsvá, todo noivo em seu dossel matrimonial, diga uma chidush. Uma novidade. Não uma mera repetição da sabedoria antiga. [...] Mas de fato apresentar uma ideia nova, uma interpretação fresca, um elo inesperado. Cercado de gigantescas estantes de livros, você ainda é convidado a fazer uma declaração original."

Amós Oz e Fania Oz-Salzberger, juntos, numa rara união de profundidade e graça, contam uma história maravilhosamente verbal e incrivelmente atual. Eles afundam-nos num mar de palavras e imagens até que cheguemos à fossa abissal em que surgiu o primeiro ato de linguagem - e não nos afogamos, antes enchemos a alma e os pulmões de um silêncio tão cheio de significados quanto as tábuas que Moisés trouxe nos braços quando desceu do Sinai.

Melhor livro de não-ficção do ano. Sem mais.

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A foto que abre a postagem é do meu instagram, sempre posto minhas leituras por lá.


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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