a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

a quaderna de joão cabral de melo neto

João merece ser lido em voz alta. Suas palavras têm um ritmo vivo raramente encontrado na literatura universal. A voz latina que soergue Quaderna une Sevilha e Recife num só canto, numa paisagem etérea ditada por telefone, desenhada como num retrato falado, em que quem recita as lembranças é o próprio poeta, o imortal.


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Dedicado a Fernando Ivo

Dentre os grandes poetas brasileiros do século XX, João Cabral de Melo Neto é um dos que mais dificuldades apresenta em ser classificado ou encaixado em algum movimento literário ou época histórica demarcada. Sua poesia transborda originalidade. Fazendo uso de vetusto e do local, o pernambucano ergue uma obra moderna e universal.

O ano é 1960. O local é Lisboa. João Cabral de Melo Neto, embaixador do Brasil na Espanha, já não era um recifense desconhecido, era já o premiado e reconhecido autor de Morte e Vida Severina, além de ser o escritor de um aplaudido ensaio sobre a obra de Joan Miró, que havia sido internacionalmente divulgada. Então, publica o livro Quaderna.

O livro tinha pouco mais de 100 páginas e reunia poemas escritos entre 1956 e 1959, além de ser dedicado a Murilo Mendes (sobre quem já escrevemos aqui). Para boa parte dos críticos, Quaderna não chama atenção pelo conjunto (como acontecera em Morte e Vida e em O Rio), mas por apresentar-se como uma constelação gloriosa em que cada poema refulge sem reservas, ostentando um luzir ora tímido ora majestoso. Na verdade, Quaderna é um compêndio de maravilhas.

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Estudos de Edgar Degas

O primeiro poema do livro é “Estudos para uma bailadora andaluza”, que já traz em si o assunto mais recorrente na obra: a mulher. Como o título já prenuncia, o poema é composto de seis cantos, que João chama de estudos, por parecerem esboços de pinturas, tal a sugestão imagética que guia o texto. As experiências literárias vividas pelo poeta na Espanha também estão estampadas nos versos, além do ritmo incrível que o escritor alcança no poema, guiando a leitura num compasso magistral.

“Sua dança sempre acaba
Igual que como começa,
Tal esses livros de iguais
Coberta e contracoberta:

Com a mesma posição
Como que talhada em pedra:
Um momento está estátua,
Desafiante, à espera. [...]

O livro de sua dança
Capas iguais o encerram:
Com a figura desafiante
De suas estátuas acesas.”

No livro, a mulher volta como centro semântico no poema “Paisagem pelo telefone”, em mais uma sugestão de imagens. A cena é bem demarcada: o poeta imagina Pernambuco pela fala da amada ao telefone. O erotismo não se perde nessa construção de paisagens; antes exsurge inesperado.

“Pois, assim, no telefone
Tua voz me parecia
Como se de tal manhã
Estivesses envolvida,

Fresca e clara, como se
Telefonasses despida,
Ou, se vestida, somente
De roupa de banho, mínima.”

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Também é de catedral importância no livro o Estado de Pernambuco. O recifense dedica ao Estado vários poemas como “De um avião”, “Paisagens com cupim”, “Litoral de Pernambuco” e “Cemitério pernambucano”, mas em “Jogos Frutais”, a figura feminina e a figura regional se encontram e o resultado é incrível.

“Ácida e verde, porém
Já anuncias
O açúcar maduro que
Terás um dia. [...]

Ao gosto limpo do caju,
De praia e sol,
Juntas o da manga mórbida,
Sombra e langor.

Sabes a ambas
Em teus contrastes de fruta
Pernambucana.”

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Por fim, e tendo em vista que esta não é a oportunidade ideal para explorar todas as pérolas que o livro guarda, reservo este fim para falar sobre “A palo seco”. O poema é incontornável na obra de João, porque lá estão seu ritmo marcante e suas imagens mais recorrentes. O texto resguarda em si uma gama considerável figuras que, de tão bruscamente sucedidas, formam um filme sonoro e compassado.

“Ou o silêncio é uma tela
Que difícil se rasga
E que quando se rasga
Não demora rasgada;

Quando a voz cessa, a tela
Se apressa em se emendar:
Tela que fosse de água,
Ou como tela de ar.”

João merece ser lido em voz alta. Suas palavras têm um ritmo vivo raramente encontrado na literatura universal. A voz latina que soergue Quaderna une Sevilha e Recife num só canto, numa paisagem etérea ditada por telefone, desenhada como num retrato falado, em que quem recita as lembranças é o próprio poeta, o imortal.


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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