a razão singular do segredo

sobre o que escrevem os que escrevem?

Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este).

o juiz dos divórcios: um cervantes pouco conhecido

"Especifique melhor as razões que movem vocês a pedir o divórcio" - pede o juiz. "O inverno de meu marido e a primavera de minha idade" - grita Mariana na sala de audiências.


"Deixe-me chorar, Vossa Excelência, que com isso descanso. Nos reinos e nas repúblicas bem ordenadas, tinha que ser limitado o tempo dos matrimônios, e, de três em três anos, tinham que acabar ou confirmar-se novamente, como contratos de arrendamento; e não que tenham que durar toda a vida, com perpétua dor para as duas partes."

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O lamento entre aspas é de Mariana. A colocação engenhosa é de Cervantes. Cervantes desenha Mariana como uma mulher acorrentada a seu casamento. Não é sem razão que ela abre as falas de "O juiz dos divórcios" ("El juez de los divorcios", originalmente).

"O juiz dos divórcios" é um texto pouco conhecido de Miguel de Cervantes, obscurecido certamente pela construção faraônica - em graça e em estatura - de Dom Quixote. É um interlúdio, na verdade. Um entremés, uma pequena peça burlesca e cômica encenada entre um ato e outro de uma comédia.

O interlúdio cervantino, no entanto, venceu o tempo e chegou até nós. Escrito no início do século XVII, "O juiz dos divórcios" é um interlúdio que versa sobre o que o título já entrega: um juiz que só julga divórcios. A curiosa judicatura era, por si só, uma piada, porque não havia divórcio possível na Espanha do século XVII, por influência direta do Direito Canônico.

Na verdade, "divórcio" não pode ser entendido no sentido que entendemos ordinariamente. Na Espanha dos séculos XVI e XVII, o único "divórcio" possível era o que chamamos hoje de "separação de corpos", processo pelo qual marido e mulher deixam de morarem sob o mesmo teto, mas continuam a ser (juridicamente) cônjuges um do outro.

Sem embargo da possibilidade de conceder divórcios, o dito juiz é paciente em ouvir, em guiar a apresentação de razões daqueles que pretendem o divórcio, mas - curiosamente - conservador, sempre enérgico em responder os argumentos dos pleiteantes, tentando diminuir as razões apresentadas e, por fim, tentando reconciliá-los.

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Quatro casais se apresentam no opúsculo. Como já dito o primeiro casal pleiteante é composto por Mariana e "o velhote" ("el vejete", originalmente).

"Juiz: 'Que pendência vós trazeis, boa gente?'
Mariana: 'Divórcio, divórcio e mais divórcio, e outras mil vezes divórcio!' [...] Vossa mercê, Senhor Juiz, me descase, se não quer que eu me enforque; olhe, olhe as rugas que levo no rosto, das lágrimas que derramo todo dia por ver-me casa com esta anatomia.
Juiz: 'Não chores, senhora; baixe a voz e enxugue as lágrimas, que eu vos farei justiça.' [...]
Mariana: 'Deixe-me chorar, Vossa Excelência, que com isso descanso. Nos reinos e nas repúblicas bem ordenadas, tinha que ser limitado o tempo dos matrimônio, e, de três em três anos, tinham que acabar ou confirmar-se novamente, como contratos de arrendamento; e não que tenham que durar toda a vida, com perpétua dor para as duas partes.'"

Veja-se, por ora, que Mariana tem nome e seu marido, não. Mariana argumenta, vocifera, chora e suplica, mas o velhote resume-se a responder algumas acusações. Mariana é vivaz. Quando perguntada sobre o principal motivo de seu pedido de divórcio, Mariana não dubita: "O inverno de meu marido e a primavera de minha idade."

Certamente, Cervantes tece fina ironia sobre os casamentos arranjados em sua época em que homens já velhos negociavam casamento com mulheres muito mais jovens e destaca que o casamento fracassa, porque um é no inverno e outra na primavera.

Diante da veemência de Mariana, o procurador e o escrivão opinam pela concessão do divórcio, num teatro tragicômico, mas o divórcio não é concedido, porque o juiz vê motivo suficiente para a concessão do pedido, visto que o rol de hipóteses concessivas era muito curto e restritivo.

Outros casais passam pela sala de audiências. Guiomar - que tem nome e voz - reclama de seu marido - um soldado sem nome -, porque, quando noiva, cria ser ele um homem "normal" ("moliente y corriente", na expressão cervantina), mas o homem revelou-se um asno na convivência marital.

O terceiro casal ingressa à audiência cheio de argumentos, mas termina com apenas um: "Para quê mais provas, se eu não quero morrer com ela e ela não quer viver comigo?" Ao que o juiz, de pronto, responde: "Se isso fosse o bastante para descasar os casados, infinitíssimos retirariam de seus ombros o jugo do matrimônio".

Por fim, um homem sozinho chega perante o juiz e conta que casou com uma prostituta, porque isso prometeu quando estava bêbado e teve de cumpri-lo depois, sóbrio. Mas o juiz faz pouco caso desta petição.

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Depois de ouvir os casos apresentados, o juiz parece desconversar e diz que algumas causas apresentadas precisam serem colocadas perante o Juízo por escrito, para melhor análise daqueles argumentos. Na verdade, é um grande mote para o fim do interlúdio e os casais permanecem casados.

Após essa desculpa, entram músicos na cena, que, anunciando o fim do interlúdio, arrematam cantando: "Tem essa opinião o Amor, que é o sábio mais esperto: que vale mais o pior concerto do que o melhor divórcio."

No fundo, o interlúdio cervantino endossa a ideia do matrimônio indissolúvel. De frente, é um opúsculo que ri das infindáveis desavenças matrimoniais. Mas, nesse intervalo, revela-se uma peça interressantíssima, uma vez que fala de um ofício tão impossível quanto curioso: o juiz de divórcios que não pode divorciar, ou melhor, pode, mas faz de tudo para que isso não aconteça. Talvez, uma figura sutil sobre as insuficiências das estruturas judiciárias para as causas familiares, sobre a irremediabilidade de alguns problemas da vida em família.

Cervantes, mesmo depois de 400 anos sem escrever, permanece atual e inovador.

**Traduções do original vertidas pelo articulista.


Raul C. de Albuquerque

Estudante de Direito apaixonado por Letras. Apesar desse quadro, não acha que está no lugar errado, afinal, o amor às palavras demonstra-se de diversos modos. Poeta desde que nasceu, mas só começou a escrever poemas aos sete anos. Apaixonado por livros, chá e música clássica. Tem especial prazer em descrever inutilidades em perfis (como este)..
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