a realidade transfigurada

Crítica e análise da sétima arte

Bruno Duarte

Escrever alivia a alma

“O homem duplicado”, de Denis Villeneuve

O filme “O homem duplicado” é uma adaptação que surpreende os fãs do cinema, bem como respeita a inteligência do telespectador. Além de apresentar uma narrativa permeada de referências simbólicas, o longa emprega de forma eficiente a linguagem cinematográfica.


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Denis Villeneuve é um diretor canadense que vem gradativamente se revelando um ótimo cineasta. Desde que chamou a atenção da crítica cinematográfica, em 2010, com o excelente “Incêndios” (Incendies), indicado ao Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro, o diretor vem realizando trabalhos notáveis, tais como o thriller “Os suspeitos” (Prisioners, 2013), estrelado por Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal.

Repetindo a parceria com Jake Gyllenhaal, Villeneuve lançou “O homem duplicado” (Enemy, 2013), trata-se de uma adaptação livre do roteirista Javier Gullón, baseada no romance homônimo de José Saramago, de 2002. Devido ao fato de o filme se distanciar em vários aspectos do livro, esta crítica restringe-se apenas ao longa-metragem.

O filme abre com a citação: “caos é ordem ainda não decifrada”. Na trama, Adam (Jake Gyllenhaal) é um professor universitário de História entediado pela rotina do trabalho, mora sozinho e possui uma amante chamada Mary (Mélanie Laurent) que o visita quase todas as noites. O tema de suas aulas é sempre o mesmo: a ditadura e os mecanismos de controle das massas.

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Um dia, na sala dos professores, um colega de trabalho lhe indica um filme para assistir. Adam pega o filme na locadora e ao vê-lo percebe que um dos atores da película é idêntico a ele. Intrigado, Adam investiga e descobre que o seu duplo chama-se artisticamente Daniel Saint Claire, mas o nome verdadeiro é Anthony Claire (Jake Gyllenhaal), ator que fez vários filmes em papéis secundários.

De estrutura complexa, o filme de Villeneuve faz uso de uma linguagem cinematográfica sofisticada, trata-se de uma narrativa de ritmo lento que exige do telespectador alto grau de atenção em cada detalhe da trama. O ator Jake Gyllenhaal faz um trabalho magnífico de atuação, não só nas expressões faciais de cada personagem, mas também na linguagem corporal que os difere.

(Essa parte contém spoilers)

“O homem duplicado” inicialmente sugere que estamos diante de uma película com a temática da clonagem ou do duplo (sósia). No entanto, a narrativa é bem mais densa do que aparenta, pois compreende-se que o protagonista está numa crise diante da vida conjugal, e isso lhe causa um transtorno de identidade. Assim, Adam e Anthony são a mesma pessoa. Ele está vivenciando um conflito interno entre o desejo de liberdade sexual e o compromisso que deve assumir na família, dado que a sua esposa Helen (Sarah Gadon) está grávida.

O filme possui várias passagens simbólicas para mostrar a crise de consciência do personagem central. De início, têm-se uma fotografia em tons amarelo/escuro presente nos créditos de abertura, nas roupas do personagem Adam, na sua pasta e no apartamento onde mora.

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Essa paleta amarela/escura representa a solidão e o desejo do personagem de estar sozinho. De maneira oposta, a fotografia é utilizada para mostrar a vida de Anthony, marcada em tons branco/cinza que indica a vida conjugal e os compromissos que dela decorrem. O tema exposto nas suas aulas contribui para o entendimento da estória, pois o personagem não quer se sentir controlado, mas sim liberto.

Após Adam ligar para Anthony e ambos marcarem um encontro, as duas referidas fotografias começam a se entrelaçarem na vida dos dois personagens. No final descobre-se que a verdadeira identidade é a de Anthony Claire, professor universitário de História e casado com Helen. As características expostas de Anthony ser solteiro, motoqueiro e ator era uma projeção simbólica de liberdade que o mesmo ambicionava.

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No começo, Adam parece ser o professor solteiro e Anthony aparenta ser o ator, o que confunde o telespectador em algumas partes, pois um apresenta traços que, na verdade, pertence ao outro e vice-versa. Isso representa a crise aguda de identidade do protagonista. Desse modo, a existência da personagem Mary, que no início é amante de Adam e, depois, desejo sexual de Anthony, fica ambígua. Provavelmente ela é uma concubina do passado ou uma mulher que o protagonista desejou, portanto, passou a se imaginar com ela.

A aranha é um símbolo que perpassa todo o filme, do mesmo modo que as suas teias, representadas sutilmente nas redes do ônibus e no para-brisa quebrado do carro após o acidente. As aranhas representam simbolicamente as mulheres que são “mãe”. O protagonista está em crise no casamento, pois a sua esposa está tornando-se uma mãe. Desse modo, ele busca prazer nas mulheres "não aranhas", ou seja, as mulheres livres do clube (prostíbulo).

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As primeiras cenas do filme mostram Helen sentada na cama, sozinha em casa, e Anthony indo ao clube. Nesse lugar os homens estão olhando mulheres nuas e uma delas pisa em cima de uma aranha, colocada ali de propósito numa bandeja. Ele observa a cena com as mãos no rosto, expressando culpa e dolo. Essa cena inicial explica a impactante cena no final do filme, ou seja, a esposa grávida não quer ser “pisada” pelas amantes do marido. Em suma, não quer ser traída.

O longa se passa em Toronto, nessa cidade existe um monumento de uma aranha gigante, a "mama", o que encaixa perfeito na trama. Ademais, o filme evoca vários temas, tais como, liberdade, casamento, opressão, filhos, controle, desejo sexual, etc. A direção de arte é magnífica, e o mais importante, não subestima a inteligência dos telespectadores. Em virtude da complexidade narrativa, várias questões podem ser apontadas. Recomendo assistirem o filme mais de uma vez.


Bruno Duarte

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