a realidade transfigurada

Crítica e análise da sétima arte

Bruno Duarte

Escrever alivia a alma

“No limite do amanhã”, de Doug Liman

“No limite do amanhã” é uma ótima ficção científica que concebe de forma exemplar os temas de viagem no tempo, invasão alienígena, batalhas espetaculares e a jornada de desenvolvimento do protagonista.


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Tratando-se de blockbusters, não há dúvida que “No limite do amanhã” (Edge of tomorrow, 2014), de Doug Liman, é uma das melhores surpresas do verão norte-americano. O filme é baseado na série de obras "All you need is kill" (2004), de Hiroshi Sakurazaka. Na trama, a terra é invadida por alienígenas chamados de miméticos, cujos movimentos e ataques, geralmente, são mortais aos seres humanos.

Dessa forma, os militares criaram uma federação para conter a invasão que está alastrando-se pela Europa, ameaçando chegar à Inglaterra. Essas informações são introduzidas no filme rapidamente pelo recurso de notícias televisivas. As analogias que o longa promove com as grandes guerras mundiais não são coincidências. Há referências evidentes sobre a Batalha de Verdun, da primeira guerra, e o dia D, da segunda grande guerra, que conferem sentido à trama do filme.

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Para combater os miméticos, o exército desenvolve um traje de combate formado por um exoesqueleto de metal (Jackets) equipado com metralhadoras e bombas, que atribui maior força física ao soldado. O major William Cage (Tom Cruise), oficial dos EUA, assistente de imprensa, chega à Inglaterra para cobrir uma ostensiva do exército na França (batalha que faz referência ao dia D). No entanto, após desentender-se com o general inglês Brigham (Brendan Gleeson), Cage é enviado para a linha de frente da guerra.

No início do filme o personagem de Tom Cruise apresenta um caráter ambíguo, esquiva-se de responsabilidades sérias e tenta chantagear o general Brigham para não ser enviado a batalha. Durante a incursão do exército na praia, Cage, totalmente inexperiente, não sabe usar o traje de guerra, tendo dificuldades inclusive para acionar as armas básicas da armadura.

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Nesse caos o personagem encontra-se com um mimético Alfa e explode-se com este, ficando coberto com o sangue do alienígena. Por meio desse elemento, Cage adquire a habilidade de voltar no tempo toda vez que morre. Sendo assim, ele passa a reviver o mesmo dia várias vezes, visto que nessa batalha da praia, todos os soldados sempre morrem.

A repetição diária dos acontecimentos permite que o herói tenha uma jornada de formação, evoluindo a cada dia, como soldado e ser humano. Desse modo, o filme apresenta uma interessante narrativa de desenvolvimento amparado pela repetição. Imagine você poder voltar no tempo e evitar um erro que cometeu numa determinada situação? Antecipar os movimentos do inimigo numa guerra? Assim, Cage avança a cada dia.

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Nisso reside o trabalho magnífico de montagem e direção de Doug Liman, que emprega várias elipses no intuito de não cansar o telespectador ao rever as mesmas tomadas inúmeras vezes. Sendo assim, ele seleciona somente as cenas em que ocorrem mudanças pertinentes na intriga, fornecendo um ritmo de ação ótimo para o filme.

Temos ainda a personagem Rita Vrataski (Emily Blunt), principal guerreira que lidera o exército contra os alienígenas. Cage a conhece no campo de batalha e ela percebe que ele possui a habilidade de voltar no tempo, pois Rita também teve essa habilidade, mas a perdeu. Desse modo, Cage passa a encontrar-se com Rita antes de iniciar a ostensiva na praia, e ela o treina diariamente.

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O filme também apresenta uma trilha sonora bem construída, utilizada para expressar os efeitos do tempo repetido no protagonista, que, ora os vivencia com entusiasmo, ora com desalento. O mesmo pode-se afirmar do roteiro e da produção, que são eficientes em conceber uma invasão alienígena sem o abuso dos efeitos visuais, recorrendo, às vezes, ao poder da sugestão, deixando o telespectador imaginar alguns acontecimentos.

Além disso, a narrativa equilibra de forma orgânica o drama dos personagens, as cenas de ação e o elemento fantástico de viagem no tempo, não conferindo momentos em demasia para um ou para outro. Mas no fundo, trata-se de uma estória de desenvolvimento do personagem principal, a trajetória evolutiva de suas ações.

Entre tantas virtudes, temos ainda a tensão sexual entre os personagens Cage e Rita que felizmente não é abordada de forma piegas, mas construída coerentemente, pois o sentimento de Cage pela guerreira advém das inúmeras vezes que ele a encontra e explica a situação novamente, e não são poucas.

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Com efeito, o aspecto mais interessante do filme é a jornada de desenvolvimento do personagem Cage, passando pelas etapas clássicas do grande homem: o chamado para a aventura, a recusa desse chamado, o auxílio sobrenatural, as provações, a formação e o sacrifício no final. Nota-se que é uma estória universal de aventura do herói, encontrada em quase todas as mitologias.

O longa ainda surpreende no terceiro ato, visto que quando o telespectador pensa que a situação da guerra se resolverá, há novas peripécias e desafios para os personagens centrais da trama. Portanto, “No limite do amanhã” é uma excelente narrativa cinematográfica, dirigida de forma segura por Doug Liman e representada por ótimos atores. Além disso, o longa ensina que a jornada de que qualquer ser humano não é isenta de várias provações.


Bruno Duarte

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