a realidade transfigurada

Crítica e análise da sétima arte

Bruno Duarte

Escrever alivia a alma

“Sob a pele”, de Jonathan Glazer

A ficção científica “Sob a pele”, de Jonathan Glazer, é um filme insólito que emprega de forma eficiente a linguagem cinematográfica e a trilha sonora para contar uma história lacunar, permeada de metáforas, símbolos e alegorias.


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“Sob a pele” (Under the skin, 2013) trata-se de uma narrativa peculiar, concebida por planos fixos e estilísticos, apresentando poucos cortes de cena. Na trama, uma mulher (não é revelado o nome da personagem), vivida por Scarlett Johansson, atrai homens para um lugar reservado onde suas vidas são consumidas.

Aos poucos percebemos de forma sutil que a protagonista é uma alienígena, incumbida de uma determinada missão na terra, junto com outros de sua espécie. Aparentemente ela é subordinada ao personagem motociclista (Jeremy McWilliams), também alienígena, que a auxilia e, de certo modo, vigia-a.

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Apesar de o filme mais sugerir do que afirmar, fica claro que eles não são humanos e estão na terra por motivos específicos, às vezes, não inteiramente revelados. Assim, o longa torna-se uma obra aberta, que depende da interpretação do telespectador para preencher as simbólicas cenas imagéticas que essa linguagem cinematográfica apresenta.

Outra peculiaridade positiva do filme de Glazer é a sua quase ausência de diálogos, sobretudo a partir do segundo ato. Na sequência final, praticamente não há nenhum diálogo, apenas algumas cenas que configuram um clímax inesperado. Desse modo, o arco narrativo da trama sustenta-se especialmente pelas suas imagens icônicas, excepcionalmente arquitetadas pela direção de arte.

Além disso, há uma trilha sonora impecável de suspense e mistério, que indica a natureza ameaçadora da personagem central quando atrai os homens para seu ambiente mortal.

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Embora “Sob a pele” seja uma obra aberta que sugere diversas interpretações, pode-se constatar dois planos narrativos centrais que organizam a história do filme. O primeiro, que funciona como pano de fundo, é a possível incursão alienígena na terra que está ocorrendo pelos bastidores da vida cotidiana. E o segundo plano, o principal, apresenta a jornada de transformação da protagonista.

(Esta parte contém spoilers)

De início, a personagem central cumpre efetivamente a sua tarefa, ou seja, atrai três homens e abduz um. Ela mata três, mas liberta um. Aliás, sobre este último indivíduo, o filme revela-se ambíguo. Não se sabe se ela o libertou, ou se foi o sistema de seleção que desprezou a vítima por esta apresentar uma “deficiência” genética.

Nesse lugar para onde a alienígena leva os homens, estes são mortos caindo num líquido e decompostos por dentro, restando apenas suas peles, para que os seres extraterrestres assumam sua feição, literalmente, vestindo essas peles humanas (isso fica sugerido, não afirmado).

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Após esse último homem sair ileso desse sistema de seleção mortal (ou liberado pela alienígena), a protagonista foge e torna-se uma desertora de sua raça. Desse modo, ela passa a experimentar hábitos humanos, aparentemente, tentando encontrar uma natureza humana dentro de si, vagando pela floresta e pelo litoral da Escócia.

Desse momento em diante, a antes caçadora torna-se agora objeto de caça dos homens. Interessante observar essa inversão que a narrativa promove na protagonista. A sua aparência atraente (leia-se a pele de uma mulher revestindo seu corpo alienígena), que antes era uma qualidade para cumprir sua missão, agora se torna um artifício que a inviabiliza de parecer normal, comum, entre os humanos.

Portanto, “Sob a pele” é um filme ímpar, incomum, que apesar de desfrutar da marcante presença erótica de Scarlett Johansson, não foi produzido para qualquer telespectador, sobretudo, em virtude de sua linguagem nada convencional. Em contrapartida, há vários temas interessantes presentes nessa composição dramática, tais como, aparência, essência, existência, futilidades, desejo, sexo casual, etc..

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Como afirmei anteriormente, é uma obra de arte aberta, logo, várias interpretações podem ser concebidas, as próprias mortes na água misteriosa, depois, no final, com o fogo, certamente possuem significados que transcendem o enredo. Uma das mensagens centrais que o filme evoca é que a condição humana experimentada na pele pode constituir uma experiência pior do que ser finado por um sistema de entidade biológica extraterrestre.


Bruno Duarte

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