a realidade transfigurada

Crítica e análise da sétima arte

Bruno Duarte

Escrever alivia a alma

“X-Men: Dias de um futuro esquecido”, de Bryan Singer

Baseado na HQ homônima, (X-Men: Days of future past, 2014) abre com uma premissa excelente, mas naufraga da metade para o final por apresentar um roteiro inconsistente e repetir o que já vimos nos filmes anteriores da franquia.


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Na trama, por volta de 2020, os robôs sentinelas mataram ou aprisionaram quase todos os mutantes da terra. Os únicos sobreviventes livres se mudam periodicamente de lugar para permanecerem vivos. Eles constantemente empregam uma estratégia de voltar alguns dias no tempo, evitando os ataques letais dos sentinelas.

A sequência de ação inicial que apresenta o futuro distópico dos mutantes enfrentando os sentinelas é espetacular. Esses robôs, embora digitalizados em excesso, revelam-se como antagonistas eficientes e quase indestrutíveis, uma vez que se adaptam e absorvem o poder dos mutantes durante a batalha. Desse modo, os poderes dos personagens não são eficazes, o que faz o telespectador temer pelo destino dos poucos sobreviventes.

Conscientes da impossibilidade de derrotar os sentinelas, Charles Xavier (Patrick Stewart) e Magneto (Ian McKellen) sugerem que Kitty Pryde (Ellen Page) envie a consciência de Wolverine (Hugh Jakcman) para o ano de 1973 e impeça Mística (Jennifer Lawrence) de assassinar Bolivar Trask (Peter Dinklage), uma vez que esse evento ocasiona o desenvolvimento do “Programa Sentinela”. Wolverine é o escolhido para a missão por possuir alto fator de cura, portanto, sendo o único mutante capaz de suportar uma viagem tão distante no tempo.

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Além disso, após Mística matar Trask, ela é capturada e no seu DNA está a origem da adaptação e apropriação dos sentinelas aos poderes dos mutantes no futuro. Nesse aspecto, o roteiro mostra-se falho e duvidoso, visto que ficou estabelecido nos outros filmes da franquia que Mística possui a habilidade de se transformar em qualquer pessoa ou mutante, mas não absorver os poderes deles nesse processo. Portanto, como os sentinelas do futuro, construídos por meio do DNA dela, podem se adaptar e assumir os poderes dos mutantes? Haja tecnologia!

Enfim, Wolverine volta para o passado e encontra Charles Xavier com a habilidade de caminhar novamente e deprimido. Ele usa um soro criado por Fera (Nicholas Hoult) para regenerar a coluna, no entanto, como efeito colateral fica sem os poderes de telepata. Condição esta desinteressante, pois isso rejeita a proposta de o personagem ser paralítico, tal como ficou estabelecido no final de “X-Men: Primeira classe” (X-Men: First class, 2011), diga-se de passagem, por enquanto continua sendo o melhor da franquia.

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Sendo assim, temos um Charlies Xavier (do passado) que caminha, em crise e sem os poderes na maior parte do filme, o que não funciona. Além disso, o Wolverine (do passado) ainda não adquiriu o adamantium, logo, a eficiência do herói é limitada em algumas cenas. Após o referido personagem reunir Magneto (Michael Fassbender), Xavier e Fera, todos vão atrás de Mística para impedir o assassinato de Bolivar Trask.

(Esta parte contém spoilers)

Quando os mutantes conseguem impedir Mística de assassinar Bolivar Trask, Magneto, numa reviravolta radical, decide matá-la alegando que enquanto ela estiver viva, os mutantes correm perigo por causa do seu DNA. Lembrando que Mística e Magneto eram companheiros, possivelmente amantes. Esse plot twist além de ser incoerente, pois a situação estava quase resolvida, promove uma complicação artificial no enredo. Assim, novamente, Magneto transforma-se no principal antagonista da intriga.

Repete-se tudo aquilo que já havíamos visto em todos os filmes dos X-Men. Inclusive a cena do Wolverine indo de encontro ao Magneto é quase a mesma do (X-Men: The last stand, 2006) quando ele corre em direção ao inimigo que lhe joga objetos pontiagudos na floresta. O mesmo pode-se dizer da trilha sonora nada estimulante de John Ottman, que foi tão bem renovada por Henry Jackman em “X-Men: Primeira classe”, como por exemplo, a música tema de Magneto, no atual filme não é empregada, lamentável.

Wolverine, Magento e Xavier.jpg

Em “X-Men: Primeira classe”, a reviravolta de Magneto era coerente com o desenvolvimento do personagem, pois ele queria vingar o assassinato de sua mãe e impedir que russos e norte-americanos aniquilassem os mutantes no final. Em “X-Men: Dias de um futuro esquecido” as ações de Magneto são absurdamente excedidas. O personagem insere metal nos sentinelas e passa a controlá-los contra os mutantes que estão tentando salvar o futuro. O que indica que ele não ouviu bem o que Wolverine lhe disse no avião: “Você e Charles me enviaram do futuro”. Traduzindo: “Estamos juntos nisso”!

Há ainda as incoerências de os sentinelas (do passado) estarem sob comando de Magneto, inclusive, um sob comando de voz, e ainda assim este atacá-lo. Do mesmo modo, temos outra incoerência numa cena do futuro quando Magneto após bloquear uma nuvem de estilhaços vindos da nave que foi explodida, um metal perfura o seu abdômen! Um metal?!

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Nas cenas de ação, o destaque vai para Magneto e Mística. Do mesmo modo, os mutantes do futuro que fazem a segurança do local para Kitty manter Wolverine no passado. Entretanto, a maior parte do filme que se passa no tempo passado é digressiva e tenta conferir dramaticidade excessiva à crise de Xavier, sendo óbvio para o telespectador que ele voltará a ter esperança. A mensagem é bonita, mas previsível.

Algumas cenas de humor funcionam, principalmente, entre Wolverine e Fera, outras são previsíveis demais, anulando o efeito desejado. O personagem Mercúrio (Evan Peters) aparece pouco, mas a cena dele derrubando os guardas escutando a música “Time in a bottle”, de Jim Croce, é excepcional, pois combina ação, humor e ótimos efeitos visuais.

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Apesar dos problemas apontados, o filme se sustenta pela qualidade dos atores. Não há dúvida, trata-se de um elenco impecável. No entanto, o mesmo não se pode afirmar da direção e do roteiro, que mostram-se falhos em vários aspectos. O diretor Bryan Singer e o roteirista Simon Kinberg estão confirmados para o próximo filme da franquia, “X-Men: Apocalypse”. Diante da minha expectativa, o subtítulo não deixa de ser ambíguo.

Cena pós-créditos:

A cena pós-créditos mostra o clássico antagonista, Apocalipse, no Egito Antigo sendo venerado por uma massa de pessoas e manipulando blocos de pedra para construir uma pirâmide.


Bruno Duarte

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