a realidade transfigurada

Crítica e análise da sétima arte

Bruno Duarte

Escrever alivia a alma

“O espelho”, de Mike Flanagan

O cineasta Mike Flanagan, diretor, roteirista e editor de “O espelho”, apresenta uma narrativa de terror eficaz, visto que torna absolutamente interessante uma estória comum do gênero. Leia aqui porque o diretor soube criar artisticamente um filme seminal de horror.


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Como fã do terror, atualmente, considero que o gênero está em crise, sobretudo, se analisarmos a presença tão marcante e desgastada da modalidade cinematográfica found footage (filmagens encontradas), popularizada pelos filmes “A bruxa de Blair” (1999) e, recentemente, pelas intermináveis sequências de “Atividade paranormal” (2007). Inegavelmente, ambos os filmes revolucionaram a forma de contar o horror no cinema, uma vez que empregaram o estilo “documentário” e/ou “vídeos pessoais” no gênero, renovando-o em múltiplos aspectos. O resultado disso foi positivo, mas a moda excedeu seus limites.

Na trama de “O espelho” (Oculus, 2013), dois irmãos Kaylie Russell (Karen Gillan) e Tim (Brenton Thwaites), tentam comprovar que a origem da tragédia de sua família no passado está relacionada a um espelho antigo, composto por uma energia maligna que afeta a personalidade e o comportamento de todos ao seu redor. Além disso, o artefato altera a percepção da realidade, fazendo com que os personagens transitem entre a realidade e a alucinação, logo, tendo problemas para distinguir uma da outra.

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Em virtude disso, Kaylie utiliza um conjunto de câmeras e aparelhos para registrar qualquer atividade paranormal que o espelho possa vir a apresentar. Contudo, o filme não é concebido no estilo found footage, as câmeras aqui são empregadas como recurso para contar a estória e não como estilo fílmico do diretor. Desse modo, presencia-se em certas cenas a utilização da mise en abyme, dado que Kaylie filma os eventos para provar que o espelho é amaldiçoado. Portanto, temos uma filmagem dentro do próprio filme, na qual ambas as câmeras (da personagem e do diretor) são aproveitadas para registrar as ações dos personagens e o que está acontecendo na casa.

Em virtude de o objeto sobrenatural ser um espelho e este refletir a realidade, a direção emprega essa característica na própria linguagem cinematográfica do filme. Na composição da mise en scène, o diretor Mike Flanagan passa a “espelhar” o tempo diegético passado e presente, intercalando-os de modo eficiente na narrativa para contar o que aconteceu ao casal de irmãos no passado e aquilo que está sucedendo no presente. O tempo passado e o presente são separados por sete anos, não preciso dizer ao leitor o que acontece quando se quebra um espelho. Com efeito, até isso foi pensando organicamente no enredo.

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Flanagan, também editor do filme, apresenta um trabalho cuidadoso e competente para encadear as sequências de cenas que envolvem as ações do tempo passado e as do presente, sempre no referido processo de espelhamento diegético. Outro aspecto orgânico na estória é a cena de Kaylie comendo uma maça (e a sua impactante alucinação), nítida analogia com a Eva da Bíblia quando não segue a lei do paraíso. Aqui, a maça novamente representa a perdição da personagem por tentar desafiar forças que desconhece.

Interessante notar que as cenas que se passam no tempo presente, também são espelhadas, ora pela rima visual, ora pelo diálogo entre as personagens. Observe a cena em seguida do prólogo do filme, em que o namorado de Kaylie, Michael Dumont (James Lafferty) oferece “ajuda” a ela para provar que o espelho é um artefato sobrenatural. Imediatamente, na cena seguinte, quando Tim está arrumando suas coisas para sair do hospital, o Dr. Shawn Graham (Miguel Sandoval) diz que ele teve “ajuda” psiquiátrica, enquanto que sua irmã lidou sozinha com a perda familiar. Nesse caso, o tema “ajuda” é espelhado dialogicamente pelos personagens em cenas paralelas.

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(Recomendo que só leiam o restante deste texto depois de assistirem ao filme). A tensão crescente da narrativa lembra bastante o episódio da série Arquivo-X, “A viagem” (6x21), diga-se de passagem, um dos melhores da sexta temporada. Nessa estória, os personagens Fox Mulder e Dana Scully estão presos num cogumelo gigante e esforçam-se mentalmente para sair dele, tentando distinguir o que é real e o que é alucinação, para salvarem suas vidas. Em “O espelho”, assim como os personagens, o telespectador também não sabe o que está acontecendo efetivamente, e só descobre realmente o que houve simultaneamente com eles, o que garante cenas imprevisíveis e surpreendentes.

Interessantíssimo é o terceiro ato, pois o desfecho da trama revela ainda a audácia do roteirista de conferir um trágico destino para os personagens centrais na ação do tempo presente. Coerente com a sua proposta de espelhamento narrativo, concebida do início ao fim, neste último ato, a tragédia do casal dos irmãos se repete, de uma maneira ainda mais terrível que a do passado. O epílogo espelha o trágico início e mostra que os irmãos subestimaram o objeto sobrenatural quando optaram por enfrentá-lo novamente. De certo modo, o final fica em aberto, proporcionando, talvez, uma possível sequência.


Bruno Duarte

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