a realidade transfigurada

Crítica e análise da sétima arte

Bruno Duarte

Escrever alivia a alma

“O melhor lance”, de Giuseppe Tornatore

Ao conceber um universo cinematográfico composto pela pintura, escultura, música clássica, e ainda questionando o que é genuíno ou falso, o filme de Giuseppe Tornatore é admirável em apresentar um roteiro atraente, quase literário, que sutilmente desvela os caminhos da trama.


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O cineasta Giuseppe Tornatore é um dos melhores diretores do cinema italiano, destacando-se principalmente pelos clássicos filmes: “Cinema paradiso” (Nuovo cinema paradiso, 1988) e “Malena” (Malèna, 2000).

Na trama de “O melhor lance” (La migliore oferta, 2013) o protagonista Virgil Oldman (Geoffrey Rush) é um eminente avaliador de arte, contratado por uma cliente misteriosa, Claire Ibbetson (Sylvia Hoeks), para avaliar todas as peças antigas de sua casa. No entanto, Oldman só escuta a voz de sua cliente, que por possuir alto grau de “agorafobia”, a moça esconde-se atrás das paredes de sua mansão.

Nas primeiras cenas, Geoffrey Rush já apresenta de forma reverente as principais características que compõe o seu personagem Virgil Oldman, um homem repleto de maneirismos, comportamento sistemático e manias, que conferem um ótimo trabalho de construção de personagem do ator. Do mesmo modo, o espectador sente a solidão que vive o protagonista, que quando não está trabalhando encerra-se num quarto bunker, cuja parede é toda preenchida por quadros que apresentam o rosto de mulheres nas pinturas.

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Dirigido e roteirizado por Giuseppe Tornatore, o filme é genial em suscitar nos seus diálogos (para o espectador atento) o subtexto que está por trás da narrativa, que desde o início anuncia de forma sutil as complicações possíveis que podem ocorrer no desenvolvimento da estória. Observe esse primeiro diálogo entre Virgil Oldman e Claire Ibbetson:

Claire Ibbetson: Não tenho o hábito de falar muito com as pessoas.

Virgil Oldman: Creia-me, isso pode ser considerado extremamente afortunado. Falar com as pessoas é muito perigoso. Mas como foi você quem fez a chamada, o risco é todo seu.

As pessoas mais próximas de Virgil Oldman é o companheiro de trabalho Billy Whistler (Donald Sutherland) e Robert (Jim Sturgess), dono de uma loja de objetos mecânicos. Este último é um personagem que se compõe exatamente pelo oposto das características do protagonista. Desse modo, Robert é jovem, sociável, conquista várias mulheres e manipula as engrenagens complexas das relações humanas.

A diferença entre ambos os personagens é também ressaltada pelo figurino, já que Virgil Oldman veste-se formalmente, de terno. Em contrapartida, Robert apresenta-se de maneira descontraída, barba por fazer, que conferem ao personagem uma dinâmica volúvel.

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Nesse aspecto, também se nota as analogias que o filme promove com as engrenagens mecânicas expostas na loja de Robert, este considerado um hábil da mecânica, enquanto que Virgil Oldman representa o homem da arte. Observe esse diálogo interessante de Robert e Virgil Oldman:

Robert: Essas engrenagens são como as pessoas. Se ficam muito tempo juntos, acabam por tomar a mesma forma entre si.

Virgil Oldman: Então, acredita que o tempo possa fazer qualquer tipo de convivência possível.

A direção de arte é eficiente em criar a atmosfera de solidão em que vivem os personagens centrais. Virgil Oldman, solitário contempla o interior de seu bunker preenchido de quadros e Claire Ibbetson mora só numa imensa mansão secular. Uma das cenas mais tocantes do filme é quando Virgil Oldman dentro desse quarto conversa pelo telefone com Claire Ibbetson e olha os quadros, tentando imaginar como seria fisicamente aquela mulher cuja voz o seduz.

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Na mansão dos Ibbetson, a sala onde Claire Ibbetson e Virgil Oldman dialogam e interagem na maior parte do filme, compõe-se por paredes pintadas de artes bucólicas, paisagens campestres que, de certo modo, traduzem a estética classicista do relacionamento ideal, romântico, desses dois personagens.

A atriz Sylvia Hoeks interpreta de forma complexa a personagem Claire Ibbetson, pois além de ela possuir uma beleza estonteante, apresenta uma performance psicológica enigmática e dramática na maior do tempo, fazendo com que o espectador não tenha clareza das motivações reais dessa personagem.

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O filme organiza de forma magnífica no enredo e no cenário os objetos mecânicos (as engrenagens), as esculturas, as pinturas e a música clássica. Todos esses elementos estão dispostos organicamente na linguagem cinematográfica, e eles criam as analogias e as metáforas que estão por trás das relações dos personagens, bem como suas motivações.

Uma das frases mais geniais do roteiro é pronunciada pelo personagem Billy Whistler, espécie de cúmplice de Virgil Oldman que nos leilões simula a compra dos quadros com rostos femininos para o protagonista. Diz Billy num diálogo com Virgil:

Billy Whistler: Os sentimentos humanos são como as obras de arte. Eles podem ser simulados e parecem originais. Mas são simulados. Tudo pode ser falsificado, Virgil. Alegria, dor, ódio, doença, cura... o amor.

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“O melhor lance” é um filme intrigante, que apresenta um ligeiro descuido apenas na edição, visto que algumas de suas cenas repetem-se desnecessariamente. Na terceira vez que sucede determinada situação, o espectador já sabe como aquilo se resolverá, portanto, perde o efeito original da primeira vez em que ocorreu.

Da mesma forma, o terceiro ato, o desfecho da narrativa, que embora seja um pouco previsível, toca profundamente o espectador e desvela que “há sempre algo autêntico em cada uma das falsificações”.


Bruno Duarte

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