a realidade transfigurada

Crítica e análise da sétima arte

Bruno Duarte

Escrever alivia a alma

“Transcendence – A revolução”, de Wally Pfister

O filme “Transcendence – A revolução” apresenta um elenco de dar inveja a qualquer cineasta. Em contrapartida, a estreia de Wally Pfister na direção não transcende e nem revoluciona os elementos básicos da sétima arte.


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Certamente, depois de assistirem (Transcendence, 2014), algumas questões surgem entre os telespectadores: Afinal, do que trata este filme? É uma ficção científica? Uma história de amor além da vida? Uma narrativa que discute as possíveis ameaças da inteligência artificial? Tudo isso junto? Enfim, o longa de estreia na direção de Pfister, não define-se a respeito do tema/mensagem que propõe-se a discutir e/ou suscitar.

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Na trama, o doutor Will Caster (Johnny Depp) trabalha num projeto de inteligência artificial, ao lado de sua inseparável esposa Evelyn Caster (Rebecca Hal) e do seu amigo Max Waters (Paul Bettany). Após ser envenenado por radiação num atentado, tendo poucos dias de vida, Will Caster opta por transferir sua consciência para um computador e, por consequência, para a rede mundial de internet.

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Cabe ressaltar que a premissa do roteiro mostra-se eficiente do primeiro ao segundo ato, conferindo uma tensão constante vivida pelos personagens centrais. Entretanto, da metade para o final, a narrativa perde seu tom primário e passa a transitar entre múltiplos gêneros (suspense, ficção científica, drama, aventura, etc.). Porém, fracassa em todos esses campos, mostrando que não têm a competência necessária para articulá-los de forma eficiente na estória. O resultado é lamentável, porque, às vezes, o roteiro introduz temas interessantíssimos, mas não aprofunda nenhum deles de forma satisfatória, deixando-os na superfície do diálogo.

Observa-se que Will Caster não possui nenhuma complexidade como personagem, ele é apresentado de maneira unidimensional, simples e quase apática. Com efeito, o talento artístico excepcional de Johnny Depp é completamente desperdiçado.

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A direção também revela-se falha em vários aspectos. Nas cenas em que, a princípio, se emprega o enquadramento de câmera em plano aberto, o diretor aplica o fechado, e naquelas que deveria ser um plano fechado, ele usa o aberto. Além disso, o excesso de alguns planos detalhes prejudica a mise-en-scène em algumas partes da narrativa.

A campanha de marketing apresenta Johnny Depp como o protagonista. Contudo, isso não procede, pois o filme é sustentado pela personagem Evelyn Caster (Rebecca Hal), que, aliás, é a melhor performance de atuação dessa produção. Isso que temos a presença dos talentosos Morgan Freeman, Cillian Murphy e Paul Bettany, mas todos sem nenhum material decente para trabalhar.

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Com todo esse elenco impecável, lamentavelmente os personagens são precariamente desenvolvidos, visto que não temos conhecimento de suas motivações e/ou conduta moral. Além disso, há algumas elipses que prejudicam o entendimento da estória. Durante os cinco anos da diegese, pouco se sabe do destino dos personagens secundários nesse tempo, o que deixa o terceiro ato confuso quanto às ações dos mesmos.

Enfim, apesar dos problemas apontados acima, "Transcendence" é um filme que conta com ótimos atores e que, de certo modo, apresenta uma premissa interessante, porém, pouco desenvolvida e revestida por uma linguagem cinematográfica absolutamente ineficiente em seus elementos mais básicos.


Bruno Duarte

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