a realidade transfigurada

Crítica e análise da sétima arte

Bruno Duarte

Escrever alivia a alma

"The rover – A caçada", de David Michôd

“The rover” é um filme árido, brutal, melancólico, que apresenta mais uma das possíveis previsões de como a humanidade vivenciará seu futuro, caso a ordem e o sistema político-econômico estabelecido entrem em colapso.


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Assim inicia-se a narrativa: Austrália, dez anos após o colapso.

A trama do filme se passa num futuro distópico, onde as pessoas comportam-se de forma indiferente e depressiva na maior parte do tempo. No tempo restante, estão tentando sobreviverem, de modo que roubam, matam, apropriam-se de necessidades imediatas, ora para fins lucrativos, ora para apenas manterem-se vivas.

Desde o primeiro plano, conhece-se o protagonista Eric, interpretado por Guy Pearce de forma absolutamente excepcional, ao ponto de o personagem não precisar falar para sabermos o que ele sente. Apenas o seu olhar e a expressão facial traduzem toda uma depressão profunda diante da humanidade, bem como indica um passado trágico.

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Após ter seu carro roubado por uma gangue em fuga, Eric vai atrás da sua propriedade móvel. Nesse percurso, conhece um integrante da gangue abandonado pela mesma, o personagem Rey, vivido pelo ator Robert Pattinson. Rey é um jovem com leve deficiência mental, que do ponto de vista cognitivo, comporta-se, à vezes, como um menino, que pouco entende as intenções reais das pessoas, entretanto, como está acostumado nesse mundo violento, mata quando necessário.

Os dois personagens juntam-se nessa jornada, visto que Eric quer recuperar seu carro roubado e Rey quer encontrar-se com o irmão (membro da gangue), que aparentemente o deixou ferido num contexto de assalto no início do filme.

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Ambos os personagens fazem um contraste explícito na narrativa, dado que Eric é um homem melancólico e destituído de qualquer relação emocional humana, enquanto que Rey mostra-se mais pueril, afável, inclusive, matando aqueles que ameaçam a vida de Eric. Apesar dos excessos de maneirismo na interpretação, o trabalho do ator Pattinson é louvável. No entanto, empalidece diante da performance de Guy Pearce.

Nesse universo distópico, o espectador imediatamente pergunta-se: porque Eric faz tanta questão de ter seu carro de volta? Basicamente, é essa questão que move o filme. O ritmo da película é lento, embora haja sempre presente uma tensão, pois, afinal, estão num mundo inseguro, repleto de violência e morte.

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A fotografia do filme é toda em tons amarelos cinzentos, o clima e a imagem do deserto australiano predominam na maior parte dos planos da narrativa, o que lembra de imediato os filmes da trilogia Mad Max. As casas são todas quebradas, precárias e antigas, bem como as roupas dos personagens, que são rasgadas e sujas.

Interessante observar que o figurino dos personagens representa, de certo modo, a degradação em que se encontram os humanos nessa distopia, da mesma forma que os cabelos desgrenhados e barba volumosa ou por fazer. A única exceção é uma cafetina, que se mostra limpa e bem arrumada, fazendo um bordado.

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(sugiro que só leiam o restante deste texto depois de assistirem ao filme). Enfim, pode-se dizer que a narrativa evoca um vazio profundo no espectador. Uma crítica que pode ser feita, é que o filme termina tal como começou, sem nenhum desenvolvimento de personagem. A intriga resolve-se de modo gradual, quase anticlimática, porém, trágica e dramática.

A motivação do protagonista em recuperar seu carro, salienta ainda mais, talvez, o último resquício de humanidade do personagem, cujo objetivo era enterrar seu cão, que jaz no porta-malas do veículo roubado. Enquanto que, todos os humanos mortos nesse processo têm seus cadáveres queimados ao ar livre. Uma pista sutil da motivação do protagonista aparece quando ele encontra uma mulher que guarda cães em jaulas, visto que eles eram comidos pelos homens.

Bom filme, ainda mais para os espectadores que apreciam um universo distópico em que os humanos vivem num estágio quase selvagem, na qual o próprio diálogo, às vezes, carece de entendimento, lógica e empatia humana.


Bruno Duarte

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