a realidade transfigurada

Crítica e análise da sétima arte

Bruno Duarte

Escrever alivia a alma

Dupla identidade, de Glória Perez: episódio "piloto"

Crítica e comentários a respeito do episódio “Piloto” da série “Dupla identidade”, escrita por Glória Perez.


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Interessante ver o Brasil lançar uma série que difere daquilo que comumente produz. Refiro-me aquelas inesgotáveis comédias e novelas que repetem a mesma estrutura de intriga por várias décadas, contendo, na sua maioria, previsíveis finais felizes de casamentos e um bebê a caminho.

Felizmente, “Dupla identidade” iniciou dia 19 de setembro, de 2014, e desde então, apresenta um capítulo novo toda sexta-feira, por volta das 23h30min. Escrita por Glória Perez, a série é dirigida por René Sampaio e Mauro Mendonça Filho.

O elenco é constituído por Bruno Gagliasso, Débora Falabella, Aderbal Freire Filho, Marisa Orth, Bernardo Mendes, Mariana Nunes, Marcello Novaes e Luana Piovani nos papéis principais.

Na trama, o personagem Eduardo Borges (Bruno Gagliasso), chamado de “Edu”, advogado, estudante de psicologia, assessor do senador Oto Veiga (Aderbal Freire Filho), voluntário em atividades sociais, é na verdade psicopata e assassino em série de mulheres.

A história se passa no Rio de Janeiro, nos dias atuais. Depois de várias mulheres serem encontradas mortas na floresta, o delegado Alexandre Dias (Marcello Novaes) inicia uma investigação, que conta com os conhecimentos da psicóloga forense Vera Muller (Luana Piovani) para descobrir quem está por trás desses crimes violentos.

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Episódio “piloto”:

O primeiro episódio inicia mostrando o modus operanti de Eduardo Borges para capturar suas vítimas. De noite, vestindo um terno escuro, sem gravata e de boné, finge-se ser uma pessoa acidentada, de muleta e com gesso no pé. Ao deixar propositalmente os livros caírem no chão, uma moça o ajuda, neste momento, ele a captura com uma pancada na cabeça.

É interessante observar essa estratégia do serial killer, que se aproveita da boa vontade das pessoas em ajudar aqueles que possuem necessidades especiais para capturar a moça, que ironicamente ficou com medo, segundos antes, de um mendigo que se aproximava.

De modo paralelo, são apresentados os personagens Alexandre Dias e Vera Muller que discutem os crimes efetuados pelo assassino em série. O discurso de análise das principais características dos psicopatas que a psicóloga Vera expõe para o delegado Dias, serve a narrativa para explicar as ações de Eduardo Borges, que, simultaneamente, está executando uma moça que dormiu com o senador Oto Veiga.

Há também uma trama secundária envolvendo a reeleição do senador Veiga, que está sendo chantageado pela sua esposa Silvia Veiga (Marisa Orth), pois esta descobriu que o marido a trai constantemente. A morte de uma das amantes de Veiga colocará o senador no centro da investigação.

Eduardo Borges conquista a atenção do senador Veiga com a ideia de usar as mortes em séries para promover uma campanha política direcionada as mulheres e a segurança pública do Rio de janeiro. Nessa cena, conhece-se a inteligência do psicopata que articula seus próprios crimes com a campanha política da qual participa auxiliando o senador.

No enredo, temos também a introdução da personagem Rayssa (Débora Falabella), que se apresenta como uma mulher insegura, idealizadora e carente. Mãe solteira da pequena Larissa (Maria Eduarda Miliante), a personagem passa a ser seguida por Eduardo Borges, que a observa, primeiro, na delegacia, depois, na praia.

“Edu” planeja um encontro "acidental" com Rayssa na praia, mas ele não age como se fosse matá-la. Talvez a utilize para despistar suas atividades de assassino, enfim, o motivo/objetivo não foi exposto nesse primeiro episódio.

O primeiro episódio não se concentra no personagem Eduardo Borges, uma vez que a história confere um equilíbrio de tempo em cena para todos os personagens principais. As interpretações estão ótimas, sobretudo, a de Bruno Gagliasso que vive de forma absolutamente verossímil e brilhante o psicopata Eduardo Borges.

Na última cena, há um plano fechado de câmera que enquadra os olhos azuis do assassino, revelando sua intenção mortal para com a vítima, que encontra-se amarrada e implorando por sua vida.

Uma das explicações a propósito das motivações do personagem multidimensional Eduardo Borges caçar e matar suas vítimas encontram-se nos diálogos, visto que ele manifesta uma enorme ambição pelo controle e poder. No primeiro encontro com a personagem Rayssa, ele profere que almeja ser Governador do Rio de Janeiro e, na sequência, Presidente da República.

"Dupla identidade" iniciou de forma promissora. Além de apresentar uma fotografia cinematográfica cinzenta, sóbria, quase sem cor, e com uma trilha sonora heavy metal que é a música tema do assassino, a série também expõe uma construção narrativa interessante. Veremos como a história e os personagens serão desenvolvidos nos próximos capítulos.

Recomendo que assistam a série.

Nota do primeiro episódio: ***


Bruno Duarte

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