a sombra da vela

e as histórias da lua

Tamara Ferreira

A vela mesmo acesa está em sua sombra apagada. Este e outros mistérios da existência, descobriremos juntos, chegando a conclusão alguma.

Por que leio Jane Austen no ônibus

Para amantes de livro que enfrentam trânsito e condução lotada. Espalhar amor e paciência pelas avenidas requer a companhia de um bom livro.


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O tempo que demora escrever uma carta, enviá-la, aguardar que a leiam e então receber uma resposta: Isso foi antes da época de verificar e-mails e há anos luz dos smartphones, que verificam suas atualizações a todo momento.

Quando leio Jane Austen, gosto de observar como o tempo pode ser gentil com nossa mente e nosso corpo. Caminhar ao redor da casa ponderando uma carta, pesando as consequências de cada atitude antes de tomar alguma.

Nunca me adaptei a essa mania que tantos de nós temos de checar a vida dos outros, enviar mensagens, marcar e desmarcar encontros, dormir tarde com o computador de um lado e o celular de outro. Comer mal, dormir mal, viver mal. Lembro que éramos capazes de marcar uma data para tomar café, esperar a véspera e estar lá. Agora, mandamos mensagens avisando que estamos no trânsito de tal avenida, que chegaremos em dez minutos, que chegaremos em cinco, que entramos pela porta sul, que estamos a caminho, que chegamos.

A saída que encontrei para encontrar mais equilíbrio no meio do trânsito da cidade, no meio dos assaltos e das baldeações foi ler. E ler Jane Austen. Para imaginar que à minha frente, existe uma estrada acidentada contornando o vale. Existe o silêncio, contra os estímulos visuais e sonoros constantes na cidade. Televisões nos ônibus, nos metrôs, nos carros. Não podemos nem selecionar a informação que recebemos. Ao invés disso, sabemos as cinco capitais com maior número de celebridades, o horóscopo do dia, os quilômetros de lentidão nas regiões, histórias bobinhas que passam num carrossel de telas.

Porém, enquanto estou acompanhada de Elisabeth Bennett, não vejo nada. Escolho ler e aprender palavras saborosas, para explicar o vazio e a plenitude. E escolho as minhas informações com um personagem inspirador, que me acompanha até casa, acalma meu espírito e não o irrita.

Sei que a história vai acabar bem e isso me anima. Ao menos, haverá romance no meu dia. Ao menos vou conhecer uma conversa boa, acompanhar a coragem da heroína e talvez ainda eu consiga ir ao baile antes de descer no meu ponto.

Terei a chance de conhecer Darcy, um rapaz quase dos sonhos das mocinhas de todas épocas que erra, arrepende-se e busca se corrigir. Também aproveito para ter exemplos e pensar na vida. Quantas vezes eu erro e quero fechar os olhos, dormir e não pensar mais nisso.

O romance dos protagonistas não é o que mais me atrai. A melhor parte é que posso carregar toda Inglaterra da regência dentro de um livrinho amassado por toda cidade, fechar, reler, fazer a história durar quanto tempo precisar. Quando estou bem acompanhada, fico feliz com o trânsito, que me dá mais tempo de ler. Esqueço minha raiva das fileiras de carros que não andam. Tento enxergar que além da mulher que não cede o lugar para a velhinha sentar existem outras pessoas, que acreditam em honra e honestidade. E tudo por um preço tão baratinho. Dez reais e tenho semanas de inspiração. Sem falar que já conheci muita gente boa que quis comentar a história e dividir impressões. Na cidade implacável, precisamos ter nossas bandeiras.

E por que não: empresto o romance dos outros. Mais delicado em tantos aspectos. Ser conquistada pela delicadeza, pelas mãos que se tocam e olhares que se cruzam. Palavras inteligentes e cheias de significado. Antes da balada e do “amigo que quer conhecer você”.

Quando leio Jane Austen, volto a acreditar que existe um mundo mais simples à nossa espera. Um mundo de olhar mais demorado e conversas empolgantes. De menos informação e celebrações singelas. Uma carta é o melhor acontecimento da semana. As notícias se limitam ao vilarejo. Não preciso saber de quem morreu no leste europeu. Não quero saber o que fizeram com o pobre rapaz no morro, ontem. Pelo menos, quero ser livre para decidir quando é a hora mais conveniente para saber disso. Mas, a todo tempo, quero boas notícias para aguentar a condução lotada, para aquecer meu espírito de comunidade e ver mais pessoas oferecendo o assento aos velhinhos que ainda estão na rua, sacolejando no ônibus das nove da noite.

E, acima de tudo, quero viver melhor e ver meus amigos viverem melhor. Mandando cartas e respeitando quem não responde mensagens depois das nove. Acreditar na simplicidade e na profundidade de cada dia.


Tamara Ferreira

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