a sombra da vela

e as histórias da lua

Tamara Ferreira

A vela mesmo acesa está em sua sombra apagada. Este e outros mistérios da existência, descobriremos juntos, chegando a conclusão alguma.

O Imaginário de Miyazaki em “O Castelo Animado”

Prenda sua respiração, recolha as anotações de seus sonhos mais queridos, apague as luzes e faça silêncio: vamos falar do mestre Hayao Miyazaki.


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Prenda sua respiração, recolha as anotações de seus sonhos mais queridos, apague as luzes e faça silêncio: vamos falar do mestre Hayao Miyazaki.

Os primeiros quadros de O Castelo Animado unidos à magnífica trilha sonora de Joe Hisaishi conseguem em dez segundos arrebatar o expectador para outra dimensão. A dimensão dos sonhos esquecidos da madrugada.

Nessa dimensão, conhecemos Sophie, uma jovem que trabalha na chapelaria dos pais e é resignada ao seu destino. Bondosa, ela sobrevive à monotonia graças ao seu coração brilhante. E é esse mesmo coração que encanta o bruxo Howl, enquanto os dois caminham pelos ares da cidade numa fuga fantástica, em direção à doceria onde a irmã de Sophie trabalha. A nós, que buscamos amores doces, já nos basta para render muitos sonhos.

Em busca de desfazer o encantamento, Sophie recolhe uma manta, uma merenda e ruma para o desconhecido. Como também nós fazemos dormindo, hora em que somos mais corajosos. E conhecemos crianças, demônios do fogo e rainhas. Assistimos a um castelo com pernas acolher a velhinha para cuidar de seus moradores, meninos perdidos de outra Terra do Nunca. Formam uma família de mentirinha, unida pelo elemento fantástico. Deve-se apreciar os cenários que Miyazaki tão gentilmente nos oferece: a hora do chá, quando netinho e avó se querem bem; e depois, num sentido avesso ao tempo, o campo de flores dos jovens enamorados. As cores são preciosas e cabem bem em qualquer capa de caderno de gente bacana, que queira imprimir seus amores.

Então, a história faz uma curva e trata de questões mais primitivas do eu.

Quando o bruxo revela seu medo, vemos refletida nossa imagem ao depararmo-nos com a vida adulta. A rainha que o persegue para servir na guerra são as exigências de se trabalhar e cortar o cabelo comprido da adolescência, ou ainda de pagar as contas no banco, essas que nos perseguem como os próprios feiticeiros do rei. É simples entender o medo que Howl tem em perder sua liberdade; simpatizamos com sua questão, porque até hoje a enfrentamos.

O enredo desdobra-se como nos sonhos: fluido em si mesmo. O amor de Sophie aumenta enquanto ela busca ajudar o amado e, ao mesmo tempo, ela nem percebe que seu feitiço perde forças a cada vez que se faz corajosa, até ser quebrado para sempre. É a mesma sensação que temos perante o tempo: não percebemos que amadurecemos enquanto processo acontece, até virarmos adultos numa manhã, sem notar.

O Castelo Encantado trata, assim, da coragem, do amor e de tantos momentos da nossa existência, usando elementos simples que agradam crianças de dez a noventa anos. Porque todos enxergamos nossa humanidade numa história que poderia ser contada no quintal de casa, numa brincadeira de faz de conta, e que nos faz ter saudade daquilo que nem vivemos. Passamos, dessa forma, semanas suspirando. E assistimos a essa obra-prima outra vez e uma mais.


Tamara Ferreira

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