a sombra da vela

e as histórias da lua

Tamara Ferreira

A vela mesmo acesa está em sua sombra apagada. Este e outros mistérios da existência, descobriremos juntos, chegando a conclusão alguma.

Os poetas que falam por mim


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Eu dirigia, quando a voz surpreendeu-me no rádio. Violão tinha a mesma frequência que meu peito, "Pensei que fosse o Céu" encheu minha alma de borboletas e fez ter saudade de amores que nunca vi. Conheci outro trabalho de Vander Lee: o mineiro de BH que sem pretender canta meus suspiros. E eu desejei ganhar um abraço, voltar à adolescência, assistir ao pôr do sol e apaixonar-me, apaixonar-me, apaixonar-me.

"Estava ali, me confundi, pensei que fosse o céu"

O trabalho dos compositores é representar a voz de quem se identifica, antes que alguém se identifique. Dar palavras ao desconhecido e gerar um "era isso, eu só não sabia como dizer". A arte de forma geral que é assim. Atemporal, cria sentido próprio independente do seu autor e do momento em que foi concebida. Resiste aos dias e à ação da humanidade, ou melhor, absorve-os e reflete novas possibilidades. Sendo um órgão vivo que interage com o expectador, provocando amor, reconhecimento, tristeza. E nós, que passamos e a percebemos, traduzimos individualmente suas possibilidades compondo uma experiência única, baseada em nossa história. E qual versão é a mais acurada? Qual a correta? É impossível chegar numa resposta. Uma vez que a obra está aberta para exposição, ela não pertence mais ao autor. Pois, ele decodificou um espectro da luz, lapidou palavras e deu brilho. Então, formou um diamante para o mundo.

"Pensei que fosse o céu"

Com os poetas que falam por mim, imortalizo frações da minha história. E, por anos que um álbum fique guardado, como mágica vai trazer os anos passados no momento que eu apertar "tocar" na sala. Ao som de "Esperando Aviões", recordo minha mãe procurando o intérprete desconhecido na rádio anos atrás. "Românticos" embalam uma tarde pensando em meu amado juvenil e "Onde Deus Possa Me Ouvir" traz um dia difícil de trabalho. Como colcha de retalhos, as memórias pulam faixa após faixa.

Respeito o fardo que levam os artistas, de viverem sozinhos suas visões, os únicos capazes de vislumbrá-las, enquanto não conseguem explicar para quem anda pela rua. Então, parir a obra e doá-la para o divã comum. Para que todos possam compreender-se por meio dela. Reiniciar o processo novamente. Como um xamã sempre em dois planos, fazendo a ponte entre as sombras e o lado de fora da caverna.

Eu, encantada com tanta habilidade, desejo ser uma música de compositor. Desejo ser compositor-artista e ajudar a humanidade a entender seu coração. O meu coração, enfim. Desejo viver de poesia e explicar as estradas para os meus olhos, dar significado ao que se vive.

O compositor realiza meu pedido enquanto estou dentro do carro. Poupa uma viagem de quatro horas, ao transportar-me em segundos para casa de meus primos. E mais, põe a família que já mora no céu me esperando à soleira da porta, com cachorrinhos abanando o rabo e potes cheios de doce. O poeta que fala por mim também viaja no tempo, no ponto exato que quero estar, tudo enquanto o semáforo está vermelho.

Eis mais um elemento que me faz esse compositor tão caro. Se canta o amor, a tristeza, o cotidiano e, ainda, as montanhas cor de esmeralda que ganham a vista quando visito parte do meu coração que mora à frente do vale. Ouvir Vander Lee adentrando a serra, acompanhando os córregos e vendo casas de colonos junto de vaquinhas no pasto é como o cafezinho após almoço de domingo: fecha o ritual, é a peça que faltava. Ouvi-lo no meio da cidade me é uma lembrança do que admiro. Do ritmo que devo viver. Reduzo a velocidade e crio mais paciência com o motorista que esquece a seta.

"Sou pista vazia esperando aviões"

Antes que eu pise na embreagem e fique irritada com o motociclista, meu poeta cumpre sua função: por três minutos, detém o poder de perdurar no tempo. O álbum de Vander Lee guarda como tesouro uma porção de férias, amores juvenis e sonhos acordados na hora da sesta mineira.


Tamara Ferreira

A vela mesmo acesa está em sua sombra apagada. Este e outros mistérios da existência, descobriremos juntos, chegando a conclusão alguma..
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