BYBLOS – Uma rápida incursão pela História do Livro

Este artigo, na verdade, é um capítulo de um trabalho de mais extenso intitulado: "Letramento Literário - para a Humanização do Aluno", apresentado no ano de 2010 na Universidade Vale do Acaraú, em Belém do Pará, Brasil, pelo prof. Marcelo Freitas (Awmergin, o Bardo)


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Bem longe de serem escritores, fundadores de um lugar próprio, herdeiros dos lavradores de antanho – mas, sobre o solo da linguagem, cavadores de poços e construtores de casas -, os leitores são viajantes: eles circulam sobre as terras de outrem, caçam, furtivamente, como nômades através de campos que não escreveram, arrebatam os bens do Egito para com eles regalar. A escrita acumula, estoca, resiste ao tempo pelo estabelecimento de um lugar, e multiplica a sua produção pelo expansionismo da reprodução. A leitura não se protege contra o desgaste do tempo (nós nos esquecemos e nós a esquecemos); ela pouco ou nada conserva de suas aquisições, e cada lugar por onde ela passa é a repetição do paraíso perdido.

Michel Certau

Não se pode falar da história do livro sem abordar um pouco os avanços tecnológicos que proporcionaram sua criação, conservação, acesso à leitura, da facilidade de seu manuseio e aquisição, amplamente influenciados por circunstâncias econômicas, políticas, culturais e religiosas que imperavam nas civilizações que foram partícipes deste processo de seu aperfeiçoamento material.

Temos de iniciar nosso trajeto pela Antiguidade, com a invenção da escrita que, segundo os arqueólogos e historiadores, teria ocorrido há aproximadamente 6.000 anos a.C. na Mesopotâmia. Os primeiros registros da escrita foram encontrados em tabuinhas de argila, em escrita cuneiforme.

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Séculos mais tarde outra técnica foi desenvolvida pelos egípcios: o processo em papiros, feitos de folhas de junco manufaturadas. A técnica de manufatura do papiro era realizada a partir da colheita da planta que abundava nos charcos ao longo do rio Nilo. Uma parte da planta era liberada, livrada (do latim libere, livre). Daí surge nosso atual vocábulo em português “livro”, originada do latim librus, libri (Katzenstein, 1986).

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Tal técnica foi utilizada em larga escala por praticamente todas as civilizações que margeavam o Mar Mediterrâneo, especialmente os egípcios, gregos e romanos, ao longo de muitos séculos, sem grandes alterações em seu processo de produção. O pergaminho foi uma inovação concebida na cidade de Pérgamo, foco da civilização grega, cidade da Ásia Menor, onde hoje se situa a Turquia. O pergaminho era feito de couro bovino raspado e sua vantagem estava em ser mais durável do que o papiro, feito de junco. A utilização do pergaminho durou por todo o período histórico que constitui a chamada Idade Antiga europeia e adentrou pela Alta Idade Média. pergaminho velho testamento.jpg

Com o fim do mundo antigo e a ruína das chamadas “Civilizações Clássicas” – Grécia e Roma – a Europa adentrou na chamada Idade Média, dominada por povos germânicos, cuja religião – o nascente Cristianismo – dominou o continente europeu por quase um milênio.

As circunstânncias históricas medievais não favoreciam a educação, tampouco a leitura, como ocorria na Era Clássica, onde o saber era fomentado nas chamadas Escolas Filosóficas e nas grandes Bibliotecas, cujos exemplos maiores são as de Alexandria, no Egito, e a da cidade de Pérgamo. Entretanto, na Era Medieval, houve uma inovação: os textos – embora inacessíveis ao público – começaram a ser copiados pelos monges dos mosteiros cristãos, espalhados por todo o continente europeu. Uma nova técnica de “encadernação” dos textos foi paulatinamente substituindo os antigos pergaminhos por folhas de papel. Os mercadores europeus da era medieval viajavam ao Oriente distante pela chamada “Rota da Seda” e através deste contato trouxeram consigo à Europa aparatos tecnológicos. Graças ao contato destes mercadores com os chineses adveio à Europa o papel, que permitiu mais uma inovação na produção e portabilidade dos textos escritos. Por meio desta inovação tecnológica, concebida pelos chineses, os europeus puderam criar os primeiros livros manufaturados, escritos à mão e em caligrafias trabalhadas chamadas “iluminuras”. A produção destes livros era demorada e meses eram necessários para se terminar um exemplar. Seus preços eram elevadíssimos e somente acessíveis aos nobres e primeiros burgueses ricos que já começavam a surgir (Febvre, 1992).

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O processo de produção manufaturada do livro durou alguns séculos, pois somente os mosteiros e bibliotecas da Igreja Católica e de raros nobres medievais, continham textos que pudessem ser copiados por copistas especializados. Todavia, a grande revolução ainda estava por vir. Somente em meados do século XV, o engenhoso inventor alemão Johannes Gutenberg concebeu a tipografia e a impressão, a partir da adaptação das máquinas já utilizadas na Europa para a produção do vinho. Sua invenção revolucionou a produção textual, pois os textos já não seriam mais copiados, produzidos manualmente. Através do processo mecânico da impressão, os livros passaram a ser produzidos em maior escala, em menos tempo e a custos menores.

Com o advento da era mercantilista e posteriormente do modo capitalista de produção, o livro tornou-se um objeto de produção em larga escala. Por consequência seu conteúdo, o texto, passou a ser acessado por cada vez mais pessoas, aumentando, assim, o número de leitores em uma proporção nunca antes vista em toda a história humana.

Este boom intelectual atingiu seu ponto culminante com a Revolução Industrial, nos séculos XVIII e especialmente no século XIX, quando países como a Inglaterra, Alemanha e França dominavam as tecnologias industriais e passaram a produzir massivamente e expandindo seus horizontes mercantis por todo o mundo em processo imperialista.

Neste período, em especial na França, surge um novo tipo de leitura: a individual e eminentemente visual. Nos séculos anteriores, a relação do público com o texto – verbal – era coletiva e oral. Os poetas, trovadores, aedos, bardos e contadores de estórias eram os depositários oficias de conhecimentos e tradições das tribos e sociedades as quais faziam parte. A comunidade reunia-se em torno deste indivíduo de memória e imaginação privilegiadas, que repassava toda a tradição mítica, histórica e oral que era mantida de geração a geração, somente através da mnemotécnica. Todavia, a Revolução Industrial veio modificar esta realidade drasticamente.

A leitura não é somente uma operação abstrata de intelecção; ela é engajamento do corpo, inscrição num espaço, relação consigo e com os outros. Eis por que deve-se voltar a atenção particularmente para as maneiras de ler que desapareceram em nosso mundo contemporâneo (CHARTIER, 1998 pg.78).

Já em seu apogeu, a classe burguesa fomentou muito a produção intelectual, pois não era dominada pela mesma ideologia predominante na Era Medieval, o catolicismo teocêntrico que tudo proibia e vetava em termos de criação e liberdade de pensamento. O movimento Romântico foi uma prova cabal desta revolução ideológica e cultural no Ocidente. Neste período, o público – que antes não tinha acesso à leitura – podia adquirir folhetins e livros a custos baixos, nas ruas e feiras das grandes cidades. Neste momento criou-se um novo leitor e iniciou-se um novo processo de leitura. O povo teve acesso ao livro, pela primeira vez na história. Há séculos antes, na Antiguidade, somente os aristocratas, filósofos, pensadores e sacerdotes, tinham acesso aos textos. Esta realidade não mudou muito ao longo de toda a Era Medieval. Ao contrário, tornou-se mais rígida, em virtude da repressão e censura clerical.

Mas, a foice de Cronos tudo corta e tudo destrói... A causa de tanta ignorância, da repressão e ignorância estava acabada.

O leitor emerge da história do livro, na qual ele esteve por um longo tempo confundido, indistinto. (...) O leitor era considerado um efeito do livro. Hoje ele se destaca desses livros dos quais se julgava ser ele um reflexo harmonioso. Eis que o reflexo se delineia, ganha o seu relevo, adquire uma independência. (CERTAU, apud CHARTIER).

A ignorância fora derrotada pela mente e pela inteligência, pela luz da razão e da Ciência, pelo esforço de homens dedicados à pesquisa e à criação genial de dádivas tecnológicas que trouxeram a liberdade ao homem, ao menos em seu aspecto intelectivo e mental. O livro estava livre e criou asas para espalhar aquilo que nele estava contido: o conhecimento. Assim, incursionamos brevemente pela saga da humanidade e de uma de suas mais importantes concepções: o livro.

Por Awmergin, o Bardo


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