a telha

Um espaço para reflexões, ensaios, contos, crônicas, críticas musicais e o que mais der na telha

Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley.

A fenomenologia do sexo

Claro que transar é bom, mas teorizar sobre sexo pode ser interessante também. Na aparentemente infinita era das imagens, o sexo foi e ainda é explorado exaustivamente. Propaganda, internet, revistas, videoclipes... Ele está em todo canto. Banalizou-se. E isso não é novidade. O que é uma pena, pois a essência dessa prática é bonita demais para se perder assim vulgarmente.


Essa.JPGSó posso ser muito tarado mesmo. Estudando os pressupostos básicos do método fenomenológico (que consiste num meio de apreensão dos fenômenos e objetos por meio da intuição de suas essências) no meu quarto, me pego logo tão naturalmente imaginando qual seria a essência do ato sexual. Vale aqui, portanto, uma síntese deste método para um maior aprofundamento de minhas reflexões: o projeto de Edmund Husserl (1859 – 1938), seu elaborador, consiste, como eu já havia dito, na percepção eidética (relativo à essência) das coisas; àquilo que é imprescindível para a existência de qualquer objeto ou fenômeno. Segundo Husserl, para se chegar a esta essência, o único caminho era a redução, a purificação, por meio de um exercício mental, das coisas de tudo considerado desnecessário, inessêncial a elas, para fazer surgir aquilo de essencial. Em suma: se a partir daqui isto ou aquilo não é mais isto ou aquilo coisa, beleza! Apresento-lhes sua essência.

Mas não devia ser qualquer exercício mental, se não esculhambava tudo! Há uma técnica que dá garantia à consciência de que se está filtrado só o essencial (calma, já vou chegar ao sexo). A procedência imaginativa deve funcionar se pautando na realidade: “o que não é separável realmente [...] para a percepção, não pode tampouco sê-lo para o pensamento puro” (DARTIGUES). Usando os exemplos de Berkeley: já viste uma cor sem extensão ou um movimento sem um corpo que se movimente? Pois é, este é o espírito da coisa (sem trocadilhos, por favor!). Imaginando todas as variações que algo pode sofrer sem que haja uma destruição deste algo, finalmente, indago a vocês: qual a essência do sexo? O que eu tiro do sexo que faz com o sexo não seja mais sexo? Bem, creio que esta resposta parece fácil e óbvia, mas o caminho que usei para chegar até lá achei interessante, e quero compartilhar com vocês, leitores. Logo de cara me vêem à mente quatro coisas: O coito, o desejo, o toque, o orgasmo. Irei por eliminação. Há sexo sem desejo. E como! Casais e mais casais fazem terapia reclamando disto em si e em seus parceiros! Não, definitivamente o desejo não é a essência do sexo. É o motivo (e dos bons) para se ter uma ótima relação sexual, mas não é sua essência. O orgasmo, portanto? Creio que também não. Caímos novamente neste mesmo problema: há pessoas (principalmente mulheres) que não conseguem atingir o tão esperado orgasmo no sexo. Digo mulheres porque “o prazer feminino é talvez mais contextual, implica uma série de premissas, ao nível da relação com o corpo, questões da vida, da casa, dos afetos; o que não significa que as mulheres só funcionem sexualmente quando estão muito apaixonadas, mas têm de se sentir bem na situação, são menos imediatas”, citando a sexóloga portuguesa Marta Crawford. Além do que, segundo Crawford, o orgasmo vaginal é um mito. Está certo que existem mulheres que sentem intenso prazer com a penetração, mas estas são a incrível minoria: grande parte não atinge o orgasmo só com o coito. “O sexo não é só uma relação pénis/vagina”, diz a sexóloga. Beijos, abraço, estimulação clitoridiana, carinho, também contam para proporcionar prazer à mulher. A própria definição da OMS para o sexo nem sequer se refere a uma relação coital. E é neste ponto que eu queria chegar. Diante de tudo isso, diante de estabelecermos as mais possíveis variações à existência do sexo, tirando o orgasmo, o desejo e o coito, vimos que há um elemento por trás de tudo e que, sem ele, não há o prazer. Simplesmente o toque, a sensação de contato com o outro. Percebam que ele antecede a tudo. Conseguem conceber sexo sem isto? Eu não. Mas um caso interessante, ao me lembrar dele, quase quebra esta minha argumentação. Quase. Explico: um dia (isso faz tempo) li numa revista que tinham bolado um “coito virtual”. De um lado, o homem, com uma CPU com um buraco simulando a entrada do canal vaginal. Do outro, a mulher, com outro CPU que possuía um vibrador acoplado. Já deu para entender a invenção: CPU’s genitais! Todos os movimentos que o cara faz repercutem numa vibração no aparelho da mulher. Não há toque e creio que você pode ver o outro pela webcam. Este aparelho foi só uma idealização, mas fico analisando se um dia essa moda pega. Pergunto-me: isto é sexo? Bem, talvez isto esteja em um nível maior que o da masturbação (afinal, você pode ver a pessoa pelo monitor e um pode ver o orgasmo – se houver – um do outro). Não seria, portanto, mais o “gozo do idiota”, definição de Lacan à solitária masturbação. Mas creio que faltaria muito para ser sexo entre duas pessoas. No máximo, você estaria fazendo sexo com o seu computador. O contato físico, o toque com o outro, o entrelaçamento de pessoas, sexualmente falando, é essencial para se ter, de fato, o sexo.

Fontes:

DARTIGUES, André. “O que é fenomenologia?” São Paulo, SP, Centauro editora.8º edição. 2003.

Entrevista completa com Marta Crawford (vale conferir):

http://www.angolaxyami.com/Sexualidade/O-sexo-nao-e-so-uma-relacao-entre-o-penis-e-a-vagina-Marta-Crawford.html

Foto: Caio Carvalho (todos os direitos reservados)


Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/// @destaque, @obvious, eros //Caio Carvalho