a telha

Um espaço para reflexões, ensaios, contos, crônicas, críticas musicais e o que mais der na telha

Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley.

A gramática, a física e a filosofia da bateria

Gramática, física, filosofia. Tudo isso tem intrínsecas ligações com a idéia de ritmo e com a lógica da dinâmica da bateria. Todas essas pontes mostram que o entendimento sobre este instrumento pode ir além do que se já sabe sobre ele.


Pulsão_Uma simbologia rítimica da paixão.jpg

Saramago seria um bom baterista? A bateria é o Bóson de Higgs, ou Partícula de Deus, do mundo da música? Questões esdrúxulas como estas mostram que a bateria pode ser explorada através de uma outra gama de idéias, fazendo com que este instrumento ganhe um novo status, um outro charme. Sendo destinada ao fundo do palco, a bateria é muitas vezes colocada dentro de um hierarquia inferior em relação aos outros instrumentos, justamente por não ser melódica ou harmônica. Mas ela tem sua importância reconhecida, e pretendo potencializar ainda mais essa importância.

Neil Peart, lendário baterista do Rush, disse certa vez que há uma relação, talvez não reconhecida, entre bateria e as palavras, devido à estrutura do ritmo e da frase. Concordo. Ritmo tem a ver com a disposição dos sons, mais precisamente com as divisões do fluir destes dentro de uma ordem específica. “Quando falamos em ritmo, supomos sempre uma ordenação que implica uma certa regularidade (periodicidade) de elementos se não iguais, pelo menos comparáveis” (KIEFER, 1987: 23). Ou, como disse Aristóxeno, discípulo de Aristóteles , o ritmo é “uma ordem na repartição das durações”. O arranjo das palavras ao longo das frases obedece ao mesmo esquema. Todo texto funciona como uma grande partitura. Cada frase representa cada compasso. E cada um desses compassos tem unidades de tempos próprias, particulares, que vão formar unidades integradas que terão que obedecer a certa estética rítmica para que o conjunto soe bem. A lógica de um (bom) texto é essa. E isso José Saramago confirma: “quando estou a escrever, não estou a pensar obsessivamente nisso. Simplesmente acontece. É eu sentir, por exemplo, que uma determinada frase em que já disse tudo quanto tinha para dizer, do ponto de vista musical, no sentido do compasso que tem que desenvolver, tem de terminar. Um, dois, três, quatro: quer dizer, tem que acontecer isso. Também tem de acontecer isso na própria frase que está a ser escrita. E pode acontecer que do ponto de vista do sentido já esteja tudo completo, mas que a frase necessite de três ou quatro palavras mais que não acrescentam nada, que não vão acrescentar rigorosamente nada, mas que são necessárias para que o último tempo do compasso caia e repouse”. Convenhamos: Saramago seria um bom baterista. Tudo o que ele precisaria era transpor sua maneira de escrever para o ato de tocar bateria: distribuiria notas como ninguém, sem pecar no excesso nem na falta. É lógico (e é bom frisar isso) que, ok, normalmente, bateristas lidam mais com compassos que possuem a mesma quantidade de tempos, admito, mas acredito que a analogia ficou bem aplicada: as frases de um texto não possuem a mesma extensão, necessariamente. Além de nutrir relações com a gramática, a bateria também possui um pequeno flerte com a física. Explico: quando um baterista executa um groove, uma levada, ele, além de impor certo andamento ao restante dos músicos que o estão acompanhando, promove um “corpo material” ao som que está sendo tocado. Gosto de imaginar a bateria como se fosse o Bóson de Higgs da música: ela dá “materialidade” à musica que a banda toca, da mesma forma que o baixo dá densidade, se formos pegar outro exemplo. Não que o som da bateria ou do baixo sejam estritamente necessários para se fazer música. A bateria, por exemplo, só foi inventada no séc. XX e nem por isso deixaram de compor, obviamente! Mas entendam: eles serão necessários quando a música em si pedir que sejam necessários. Sem bateria a música “Burn”, do Deep Purple, por exemplo, não teria a força que tem. Ou seja: a música demonstrou ser necessário ter uma bateria para que a composição ganhasse vida de fato! Mas pelo amor de Deus, não pensem que estou dignificando a bateria em detrimento dos outros instrumentos. Só estou mostrando que no meio musical é preciso ter sensibilidade pra saber o que pode dar certo ou não, no que diz respeito à sonoridade. Música com “corpo” jamais será melhor que música “sem corpo” e vice-versa. Esta minha analogia foi uma mera elucubração filosófica a serviço de minha diversão intelectual. Filosofia. Sim, sim, já ia me esquecendo: a bateria também tem uma boa relação com a filosofia. Jamais me esquecerei do que Schopenhauer disse, na sua obra “O mundo como vontade e representação”, sobre os tons graves, coisa que pode ser facilmente estendida à bateria. Diz ele que “o baixo contínuo é na harmonia o que no mundo é a natureza inorgânica, a massa mais bruta, sobre a qual tudo se assenta e a partir da qual tudo se eleva e desenvolve” (2005: 339). Em outras palavras: sem a terra não há o céu! Isso tem muito a ver com o que tinha dito anteriormente: baixo e bateria se comportam como densidade e matéria. Tudo bem, acredito que depois dessa não vão acreditar que eu não esteja dignificando a bateria ou o baixo. Mas repito, não estou! Vejam bem. Estou apenas fornecendo a devida atenção a dois instrumentos interessantíssimos. Mas, querendo (agora sim) puxar a brasa pra sardinha da bateria (me perdoem pela expressão clichê), coloco aqui, para finalizar, uma bela citação do grande baterista de jazz, Art Blackey: “o instrumento mais próximo da alma humana é a bateria, porque se o seu coração não bate mais você está morto. Se você não andar no ritmo, não consegue andar. Você precisa mastigar sua comida no ritmo. Todas as coisas têm um ritmo próprio”. Belas palavras.

Referências:

KIEFER, Bruno. Elementos da linguagem musical. 5. Ed. Porto Alegre, Movimento/Brasília/Instituto nacional do Livro – MEC/1987. SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. Tradução, apresentação, notas e índices de Jair Barboza. – São Paulo: Editora UNESP, 2005. Revista Bravo!, ano 2, nº 21, junho 1999. Coleção Folha: clássicos do jazz, v. 5.

Foto: Caio Carvalho (todos os direitos reservados)


Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley. .
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 4/s/// @destaque, @obvious //Caio Carvalho