a telha

Um espaço para reflexões, ensaios, contos, crônicas, críticas musicais e o que mais der na telha

Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley.

Samba, João Gilberto, rock: do que é feito os Novos Baianos?

Mudando um pouco a letra daquela música dos Los Hermanos, Samba a Dois, eu pegunto: quem se atreve a me dizer do que é feito os Novos Baianos? "Acabou Chorare" e "Caia na Estrada e Perigas Ver" dão as pistas.


acabouchorare.jpg Às vezes me sinto culpado por não gostar da música do João ou a do Tom, por exemplo. O Gilberto e o Jobim, aqueles, sabe? Aqueles que, dentre outros, não saem do toca-discos e da cabeça da inteligentza brasileira. Pois é, desses... Não gosto. E a culpa não é minha, até tentei gostar. E ainda quero gostar, mas fazer o que? Não desce muito bem pela minha garganta. Mas ainda bem que a MPB me apresenta outras cartas na mesa. E de uma, em especial, eu gosto (e muito): os Novos Baianos. Sim, aquele grupo formado por Pepeu Gomes, Baby Consuelo (que mais tarde viria a ser Baby do Brasil), Paulinho Boca de Cantor, Moraes Moreira, Luiz Galvão, Dadi, Jorginho Gomes, Baixinho e Bolacha. Aquele cujo segundo álbum, “Acabou Chorare”, foi eleito em 2007 pela Rolling Stone do Brasil, o maior disco da música brasileira. Sim, repito: o maior disco da música brasileira. Mas calma, não se avexe. Como bem disse o jornalista Marcus Preto, essas eleições servem mais pra apontar quais trabalhos se refletem mais na música que está sendo feita atualmente do que para estabelecer uma lista definitiva e imutável. E, segundo ele, foi “Acabou Chorare” que fez o samba se configurar como a opção estética principal de quase todas as cantoras brasileiras da última década. E o samba, muito bem presente neste disco, foi obra da influência do João Gilberto sobre os Novos Baianos. “Voltem-se para dentro de vocês mesmos”, disse ele para o grupo. Dito e feito! “Acabou Chorare” aposta no samba e se difere significadamente do primeiro álbum de 1970, “É Ferro na Boneca”, um trabalho meio tropicalista, de essência roqueira, nas palavras de Marcus Preto.

caianaestrada.jpg Mas não. Não é “Acabou Chorare” que eu vou indicar. É um que eu gosto mais: o segundo disco após a saída do Moraes Moreira, um dos principais compositores da banda. Chama-se “Caia na Estrada e Perigas Ver” (1976), um álbum que destoa um pouco mais dos primeiros trabalhos dos Novos Baianos, resultado oriundo do redirecionamento que Pepeu Gomes deu aos Novos Baianos, incumbência que a banda deu a ele após a saída do Moraes. Nele o rock está mais consistente e mais pesado, o chorinho ganha um bom espaço e o samba recebe o mesmo tratamento de sempre. Destaque para a bem nordestina “Beija-flor”, as animadas “Ziriguidum”, do Jackson do Pandeiro, empolgadamente interpretada pela Baby Consuelo; a clássica de Waldir Azevedo, “Brasileirinho” (cuja versão dos Novos Baianos tem um final inesperado que se revela um rock bem apressado); “Caia na Estrada e Perigas Ver” de timbres orquestrais e de letra bem humorada; as roqueiras “Se Chorar Beba a Lágrima”, “Na Banguela”, a incrível “Rocarnaval”, um tema instrumental na qual Pepeu e Jorginho Gomes mostram com detalhes que são perfeitos virtuosos nos seus respectivos instrumentos (nela Jorginho até usa pedal duplo!), e “Barra Lúcifer”, de introdução bem pesada (e, por conseqüência, bem condizente com o título) e dona de um riff único. Olha, que esse álbum é menos significativo que o “Acabou Chorare” isso eu não discordo. Mas que ele me impressiona mais, isso eu não posso negar. Foi mal, João Gilberto.


Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley. .
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